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1. A minha relação com a Adriana de Sousa Carvalho é de uma “amizadi di nhô ku nha”, à moda antiga, que vem do tempo em que ela chegou a Santa Catarina (jovenzinha, claro!) vinda de Coimbra, nos idos de 1979, para acompanhar o marido, ali colocado como médico e Delegado de Saúde. Outros tempos e outra vida em que fomos ambos professores no Ciclo Preparatório em Assomada!

 

Em 1981 vim para a Praia fazer o então chamado Curso de Formação de Professores do Ensino Secundário e, a partir daí, no nosso percurso profissional, até eu sair de Cabo Verde, em 1992, a Adriana e eu fomos encontrando-nos e relacionando, dando nós nó nessa amizade “di badiu di Santa Catarina”.

 

Em 2002, estava eu em Lisboa, “posto em sossego” a pesquisar os periódicos na Biblioteca Nacional, eis se não quando, encontro a Adriana Carvalho a consultar os mesmos jornais, para a sua dissertação de mestrado! A afinidade do tema levou-nos a dar mais um outro nó forte na nossa amizade, agora com mais cumplicidade.

 

Regressado à terra, já com a defesa do trabalho e obtido o grau, falando-me das suas dificuldades em publicá-lo – os mesmos problemas que eu enfrentava – muito simplesmente indiquei à Adriana uma hipótese que me parecia viável, concorrer ao “Grande Prémio da Cidade Velha”! Isso pode, ao menos, garantir a publicação, dizia-lhe eu!  Sem eu saber, estava a dar mais um nó forte nessa amizade antiga.

  

Compreendem agora porque fui convidado para estar nesta função de apresentador, juntamente com uma outra amiga comum desse tempo e dessas andanças da educação, a Ondina Ferreira, para ser padrinho deste filho crioulo mais novo da Adriana, já baptizado de “o livro da minha vida”. Isso, enquanto não chega a tese de doutoramento, claro!

  

Nem como colegas de trabalho na Universidade esta nossa “amizadi di nhô ku nha” mudou para o tratamento da informalidade do “bô” ou do “tu”. Esquisitices, dirão! Pode até parecer formalidade a mais. O facto é que não é depois de a Adriana ser Comendadora da Ordem do Infante Dom Henrique “pela contribuição, em projectos educativos, para a melhoria do ensino e divulgação da cultura portuguesa”; detentora de “uma Menção Honrosa por uma obra que empresta valência científica à cultura cabo-verdiana”; e agora minha Comadre, que isso vai mudar!

  

2. A fonte privilegiada desta investigação, de que resultou o livro A Construção Social do Discurso Educativo em Cabo Verde, foi a imprensa cabo-verdiana e portuguesa (pan-africanista e de temática colonial), no horizonte temporal que vai de 1911 a 1926. Na verdade, este é um tipo de acervo que possibilita desenhar uma radiografia da evolução de uma sociedade e obter uma visão do mundo e de si própria que os seus membros tiveram nas diferentes épocas. A autora utiliza este acervo para fazer o exercício de (re)construção do discurso educativo em Cabo Verde durante a vigência da I República Portuguesa.

  

Permitam-me abrir aqui parênteses para recuar a uma fase imediatamente anterior para melhor nos contextualizarmos em relação ao sistema escolar vigente.

 

Ao encerrar-se o século XIX, o número de escolas oficiais em Portugal Continental e Ilhas Adjacentes era à volta de 4.500, sendo perto de 2.900 masculinas, 1.400 femininas e pouco mais de 300 mistas. A estas se acrescentavam cerca de 1.600 escolas primárias particulares, das quais 600 masculinas e cerca de 1.000 femininas, com uma frequência total de pouco mais de 231.000 alunos.

  

Enquanto isso, em toda a província de Cabo Verde havia, no ano lectivo de 1897-1898, apenas 73 escolas (47 régias, 16 municipais e 10 particulares), todas com o 1.º e o 2.º graus, o que, segundo o jornalista e polemista Luiz Loff de Vasconcellos, era insuficiente, de nível rudimentar e não correspondia de todo às aspirações da população, que, nessa altura, era de 120.000 almas aproximadamente:

 

“E para nós, os caboverdeanos, a quem os continentaes chamam estupidos e raça infima, só nos dão escolas de instrucção primaria, d’onde sahimos sabendo grosseiramente escrever o nome e as quatro operações arithemeticas, e, por muito favor, dão-nos em S. Nicolau um seminario-lyceu ou um lyceu-seminario para a formação de padres”.

 

Em Setembro de 1907, aproveitando a passagem por Cabo Verde de Sua Alteza o Príncipe Real D. Luiz Filipe, um grupo de crianças fez a entrega de uma exposição solicitando o patrocínio do Sereníssimo Senhor a favor da fundação de um liceu na Cidade da Praia. Entretanto, o Príncipe Real foi assassinado em Lisboa, a 1 de Fevereiro de 1908, durante o regicídio, ficando a promessa por cumprir.

  

Implantada a República, a instrução pública continuou no mesmo pé em que a deixou o ancien regime, isto é, não sofreu até hoje [1918] a mais pequena remodelação” (A Voz de Cabo Verde).

 

Em Dezembro de 1911, na sua secção “A Manduco…”, d’ A Voz de Cabo Verde, Afro, i.e. Pedro Cardoso, zurzia na instrução pública:

  

“Quantas escolas há na província? [...] Ao todo 67 para 160 mil habitantes.

 

Que tal são os professores? Excelentes criaturas. Adiante.

 

A instrução primária em Cabo Verde consiste em b, a ba, fugiu a burra... Ninguém pode contestar.

 

Há escolas. É inegável. Que ensinam? Tanto as elementares como as complementares ensinam a ler, escrever e contar. Isto, porém, são modos de dizer, porque, na realidade, aqui, ler é mastigar em crioulo, sem ruminar, sílabas, palavras e frases portuguesas.

 

De escrever e contar diremos idem.

 

Verdade, verdadinha, são raros os rapazes que saem das escolas primárias compreendendo bem o que lêem”.

  

Fecho aqui o parênteses que já vai longo.

  

3. Esta investigação, agora em livro, está estruturada em duas partes. A primeira, “Uma sociedade (in)conformada”, mais curta, onde a Adriana Carvalho aborda as questões das relações coloniais (a esperança na República, o Nativismo e a educação colonial), dos traços de cultura e língua e da luta contra a adversidade.

  

A segunda, a parte mais suculenta do trabalho, é a tese propriamente dita, “A construção do discurso educativo”, abordando os temas escolaridade e anafabetismo; modelação do sistema educativo; desenvolvimento institucional; rede escolar; manifestações internas da cultura escolar; identidade profissional do docente; e edificação do ensino liceal.

Esta pesquisa dá conta da sucessão de reformas do sistema escolar, com uma “profusão de planos, decretos e portarias, por vezes contraditórios”, promovidos pelo novo regime republicano, do ensino primário (elementar, complementar e superior), público e privado, à edificação do ensino liceal laico, com a extinção do Seminário-Liceu, com muitos combates políticos e manifestações de patriotismo pelo meio.

  

A cultura escolar própria do regime da I República, de que a minha geração tem ainda a lembrança do rigor da disciplina, da pedagogia, dos materiais didácticos (a ardósia, a pena e o lápis, o quadro preto, o caderno diário, os mapas, a caixa métrica e os manuais escolares), do sistema de avaliação e dos professores, por se ter prolongado por todo o Estado Novo, é aqui reconstituído com rigor e honestidade.

  

Este A Construção Social do Discurso Educativo em Cabo Verde é, pois, Um Contributo para a História da Educação em Cabo Verde e a Adriana de Sousa Carvalho, uma (re)construtora da memória educativa cabo-verdiana.

- M. Brito-Semedo

 

Título: A Construção Social do Discurso Educativo em Cabo Verde

(1911-1926)

Autor: Adriana de Sousa Carvalho

Edição: Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro

Ano de edição: Praia, 2007

 

 

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Bosquejos dum Passeio ao Interior

Brito-Semedo, 26 Jul 10

 

 

Bosquejos é, como o próprio nome indica, uma reportagem-pintura, ou "as impressões de [uma] viagem caseira" que o autor [Guilherme Dantas] realiza a seguir a ter regressado a Cabo Verde, em 1869, depois de uma longa ausência em Mafra.

 

Na impossibilidade de reproduzir este texto aqui, por ser extenso, cerca de setenta páginas A4, apresento uma súmula desse precioso documento.

 

Embora publicado em primeira-mão em 1878, no Independente (Praia, 1877-1889), o jornal mais antigo a ser publicado em Cabo Verde, este texto foi escrito, segundo o próprio autor, Guilherme da Cunha Dantas, por volta de 1869, e retocado em 1886, que é o mesmo que dizer, dois anos antes da sua morte.

 

A data da escrita do texto, melhor, as datas, os nomes de alguns Governadores e de outras personalidades, e a referência a um "desmazelado Governo" indexam para uma época específica que importa conhecer, pois que serve de pano de fundo a toda a narração.

 

Cunha Dantas, ao criticar os governos da Província, criticava, em última instância, o governo monárquico da Regeneração, assumido em 1851 pelo Marechal Saldanha.

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