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Selo Comemorativo Independência

Brito-Semedo, 7 Jul 10

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Leão Lopes, Des., 2010

 

Gentileza da Unidade Nacional de Coordenação Filatélica, Correios de Cabo Verde

 

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Crónicas A Manduco... (4)

Brito-Semedo, 6 Jul 10

 

Estiagem, Fome, Arborização...

 

Há fome na província. Ninguém nos venha dizer que não há. Estes esqueletos semoventes, que a cada passo encontramos pelas ruas, são a prova mais cabal do nosso acerto. Mas quem tem culpa de tamanha calamidade? Será o governo? Será Deus? Não, senhores; somos nós somente; nós os cabo-verdianos. Aqueles que arrebitarem as orelhas ante o arrojo da afirmativa, daremos as explicações necessárias para que penetrem e se compenetrem. Sim, somos nós os únicos culpados da crise que atravessa a província.

 

A causa primária da fome, todos a conhecem, são as estiagens, causadas unicamente pela nossa incúria, imprevidência e teimosia.

 

Causadores das estiagens, também o somos das suas consequências. Não compreendem os orelhudos. É isto o que chamam lógica. É bicuda e difícil. Mas explicamos.

 

O governo tem cumprido o seu dever. Isto não são lisonjas; são verdades, que provaremos com a colecção dos Boletins.

 

Está averiguada por homens de reconhecida probidade científica, a notável e benéfica influência das árvores sobre as condições meteoro-climatológicas.

 

Pela nossa parte temos também averiguado, que as ilhas onde menos chove são as mais desprovidas de vegetação e, dentro da mesma ilha, os sítios arborizados aqueles onde as chuvas são mais frequentes e abundantes.

 

Temos um exemplo na ilha do Fogo.

 

No sul, onde as árvores são muito raras e raquíticas, caem raramente as chuvas, o que se não dá com a parte norte onde abunda o cafeeiro, etc.

 

Portanto, se nós tivéssemos seguido os providenciais conselhos do governo, só excepcional, ou quiçá jamais, haveria escassez de chuvas em Cabo Verde.

 

O governo, repetimos, tem cumprido o seu dever ensinando, aconselhando e favorecendo a arborização da província. Tem feito grandes despesas, importantes ofertas, até isentou do serviço militar os filhos “de proprietários que tivessem plantado de árvores metade das suas propriedades, há mais de cinco anos”, Artigo 6.º do Regulamento de 4 de Junho de 1907.

 

Nós, como temos correspondido a todas essas solicitudes e cuidado? Com o mais profundo indiferentismo, justamente merecendo que o Senhor Deus das alturas desviasse de sobre nós os seus olhos misericordiosos. Pois se Ele tem dito: põe a mão que eu te ajudarei!

 

Compatriotas: com a mão na consciência confessemos que é muito bem merecido o castigo, em que está agora pagando o justo pelo pecador.

 

Diz alguém e diz bem: – Se são chove há falta de milho e de... pasto. Lamento mais a última falta do que a primeira, porque nós, os racionais (não parece) podemos emigrar para as regiões onde haja milho ou cevada in magna quantitate; ao passo que os pobres irracionais (desconhece as fábulas de Esopo), se porventura o tentam, afogam-se... Têm apenas este recurso, deixarem-se morrer sobre os campos requeimados.

 

Nós lamentamos igualmente ambas as faltas, que todos somos irmãos pela Mãe-Natureza.

 

Compunge tanto a morte de um homem entre as garras da fome, como a de uma toutinegra entre as de um milhafre.

 

Quem sabe se o perfume que exala a rosa esmagada não serão os seus doridos lamentos contra as mãos assassinas!

 

*

 

Arborizar a província é tão necessário como educar a juventude.

 

É preciso que nas escolas se comece a ensinar as crianças a amar as árvores e a plantá-las.

 

Da arborização não resulta só a abundância de cachupa e, portanto, de farelos.

 

Há árvores que são verdadeiras preciosidades, quer pela sua acção saneadora como os eucaliptos, quer pelo seu emprego em obras de marceneiro como o cedro, quer ainda pelo seu valor e uso medicinal como a quina.

 

As árvores!... Que poeta deixou alguma vez de as cantar?!

 

Quanto a nós, não sabemos qual é mais delicioso, se beijar os lábios purpurinos da mulher amada, ou se repousar em dias caniculares à sombra consoladora de uma árvore em cuja ramada florejante cantem os passarinhos.

 

Terminando por hoje, recomendamos encarecidamente aos benévolos leitores que plantem ou façam plantar anualmente seis árvores pelo menos; e ao governo, que continue na sua bela e fecunda obra de promover a arborização da província fornecendo grátis sementes e plantas e estabelecendo prémios e... castigos, que nós não lhe regatearemos os encómios merecidos, nem levantaremos de cima dos lombos dos desleixados e dos rotineiros o nosso encorreado manduco.

AFRO

 

 

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Esquecer!? Ninguém esquece…
Suspende fragmentos na câmara escura, que se revelam à luz da lembrança...

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