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Devido ao compromisso de apresentação deste livro, acordei a meio da noite a pensar no meu amigo Daniel Pereira – um Diplomata que, por paixão, é Historiador, ou será que devo dizer um Historiador que, por questões outras, é Diplomata? – amigo que, dizia eu, no seu entusiasmo e labor de investigador, muito parecido com (imaginem!) Indiana Jones.

 

Sim, refiro-me a uma personagem criada por Steven Spielberg e George Lucas e vivida por Harrison Ford que é protagonista de diversos filmes como “A Grande Cruzada”, “O Templo Perdido” e “Os Salteadores da Arca Perdida”. Henry Jones Júnior é um indivíduo com vida dupla: além de ser um pacato professor de Arqueologia, é um aventureiro destemido e pouco convencional que, sempre que se lhe oferece ocasião, faz investigação por conta própria em locais onde existam sinais de civilizações antigas e que, por causa disso, passa por diversas aventuras. Daí ter-me surgido como título para a apresentação deste livro de Daniel Pereira, Em Busca de um Tempo Perdido.

 

Não houve uma divisão de tarefas entre nós, os apresentadores, mas, pela diferença de formação de ambos, acreditei que a minha colega viesse falar da estrutura interna do livro, dos temas e do desenvolvimento dos conteúdos do Estudos da História de Cabo Verde. Considerando ainda que os oito estudos que compõem o livro – “Motivação, Ideologia e Política na Ocupação do Espaço em Cabo Verde”; “As Insolências do Capitão Domingos Rodrigues Viegas e do seu Irmão Belchior Monteiro de Queiroz Contras as Autoridades da Ilha de Santiago (1653-1665)”; “Santiago de Cabo Verde e a Guiana Francesa – Uma Proposta de Comércio (1665)”; “A Fundação da Companhia de Cacheu (1671-1676)”; “Cabo Verde: Catequização e Baptismo de Escravos (1690-1700)”, “Regimento que Deve Observar o Feitor da Ilha de S. Vicente, Vicente das Neves Caio (1752)”; “Plantas Tintureiras dos Açores e Cabo Verde: Séculos XV-XVIII Alguns Aspectos Económicos e Sociais)” e “Alguns Usos e Costumes da Ilha de Santiago (1762-1772)” – são apresentados de forma sintética no “Prefácio”, pelo sociólogo Carlos Lopes, onde destaca “algumas curiosidades”, que, de facto, são verdadeiras pistas de leitura, eu me permiti, sem fugir ao motivo que aqui me trouxe, tecer algumas considerações sobre o estado da investigação e da produção cultural e científica em Cabo Verde, 30 anos após a independência nacional.

 

1. A viragem política ocorrida em Portugal com o 25 de Abril de 1974 veio possibilitar um novo domínio de saber no âmbito das ciências sociais, os Estudos Africanos, contemplando o domínio temático, teórico e metodológico.

 

Cerca de trinta anos depois, o nível alcançado pode ser visto no grande leque de temáticas de investigação, debate e docência realizados, quer a nível da Antropologia e da Sociologia, da Literatura e da História, das Ciências Políticas e das Relações Internacionais, quer ainda a nível da Economia, das Ciências Empresariais e da Administração.

 

Para a consolidação deste processo, torna-se imperioso a formação e a especialização de cientistas sociais nas áreas acima referidas, proporcionando-lhes uma formação teórica moderna e sólida. E isto só pode ser adquirido e reforçado através da participação em congressos e conferências internacionais e do intercâmbio com outros cientistas sociais de universidades estrangeiras, nomeadamente, aquelas onde este domínio do saber está mais desenvolvido. Neste caso, países como a Inglaterra e a França são um exemplo, tanto pelas razões históricas que os mantêm ligados à África como pela importância que detêm, respectivamente, na Commonwealth e na Comunidade Francófona.

 

Neste particular, é de se considerar o papel que os cientistas sociais originários de África podem desempenhar, possibilitando um cruzamento entre o seu “olhar de dentro” e o “olhar de fora” dos africanistas europeus. Cabe aos estudiosos e investigadores das ciências sociais e humanas destes países africanos e, no nosso caso, de Cabo Verde, uma maior responsabilidade na tarefa de realizar ensaios e reflexões académicas sobre a sua realidade, como forma de proporcionar esse “olhar de dentro”. É de se registar, como promissor neste processo, o facto de estarem a surgir trabalhos de investigação onde se espelham esses olhares.

 

2. Tendo Cabo Verde seguido a sua História separada da de Portugal a partir de 1975, mantendo-se, contudo, a ele muito ligado, servindo-se o antigo império como modelo e referência simbólicas, queria trazer para reflexão o estado da investigação em Ciências Sociais e Humanas no nosso País, passados que são trinta anos após a independência.

 

Apesar de sermos um país particularmente novo, com limitações financeiras graves e ainda sem uma Universidade Pública, apenas com alguns Institutos Superiores, criados a partir dos meados da década de noventa, já vai havendo no País pessoas formadas, principalmente nas universidades portuguesas, brasileiras, cubanas, francesas e da antiga União Soviética, no ramo das Ciências Sociais e Humanas, que se têm interessado pelo estudo da Linguística, da História, da Sociologia e da Antropologia, com aplicação à realidade cabo-verdiana. Neste particular, cabe um papel promotor importante ao Instituto de Investigação e Património Culturais (IIPC) e a responsabilidade da divulgação dos trabalhos realizados ao Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro (IBNL).

 

É nossa opinião, contudo, que a investigação não tem merecido a atenção devida. A título de exemplo, apenas em Fevereiro de 1992 viria a ser publicado o “Estatuto do Pessoal Investigador”, tendo sido criticado porque considerado desligado da realidade, sendo mais exigente que o de Portugal, país com tradição universitária e onde mais facilmente se pode obter os graus de Mestre e de Doutor. Logo, sem condições da sua aplicabilidade. Quatro anos depois, em 2003, o actual Governo criou um Grupo de Trabalho com vista à sua revisão e implementação. O trabalho foi concluído em Julho desse mesmo ano e entregue ao Governo para apreciação, com o nome de “Estatuto do Pessoal da Carreira de Investigação”, aguardando, desde então, por uma decisão.

 

Na decorrência disso, existe uma situação em que os técnicos superiores que trabalham nos Institutos de Investigação seguem o regime da carreira técnica e remuneratório geral da Função Pública. Sem o devido enquadramento e sem uma carreira, a investigação é feita ou acontece mais por conta própria do que institucional.

 

Exceptuando o trabalho de edição dos 3 volumes da História Geral de Cabo Verde, realizada em parceria com o Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT), de Portugal, apenas são conhecidos do grande público alguns poucos trabalhos da Linguística e de recolha da Tradição Oral, levados a cabo pelo IIPC, e de algumas (poucas) dissertações de Mestrado e de Doutoramento. A título individual e particular, é de se referenciar alguns trabalhos no âmbito das Ciências Históricas e Políticas, de pessoas que exercem funções outras, que não as de investigador, pelo menos, no momento, como é o caso de Daniel Pereira.

 

Outro problema que se põe a quem queira publicar um estudo ou mesmo um artigo de carácter mais científico é a falta de uma publicação periódica vocacionada para o efeito. O panorama é simplesmente desolador.

 

De 1998 a 2001 houve a experiência da revista Cultura, uma Revista de Investigação Cultural e Pensamento, da Secretaria de Estado/Ministério da Cultura (o último número é já propriedade do INIC), na Praia, de periodicidade semestral e de que saíram três números. Coincidindo no tempo, de 1999 a 2001, foi publicado em S. Vicente a revista Anais, propriedade da Academia de Estudos da Cultura Comparada (AECOM), de periodicidade quadrimestral e de que saíram, pelo menos, quatro números. Mais recentemente, a Comissão Nacional para a Instalação da Universidade Pública de Cabo Verde (CNi-UniCV) iniciou a publicação de uma revista electrónica intitulada “Revista Científica (de Estudos Cabo-verdianos) da Universidade de Cabo Verde”, cujo número Zero saiu também em suporte de papel, em Março, e, em Junho, o seu número Um On-line.

 

Não me cabe a mim avançar com propostas ou recomendações, apenas fazer o reparo e questionar se existe uma política clara de investigação para o País.

 

3. Centrando-se naquilo que aqui nos trouxe, pode-se considerar este Estudos da História de Cabo Verde uma aventura Em Busca de um Tempo Perdido, com vista à recuperação da nossa historicidade. Henrique (“Djick”) Teixeira de Oliveira, na apresentação da 1.ª edição expressou isso de forma lúcida:

 

O acesso à independência nacional, ao colocar nas nossas mãos o poder político de decisão da praxis colectiva, abriu-nos às possibilidades de aquisição dos instrumentos técnico-científicos e culturais de aceleração do processo histórico e veio a restituir-nos, em termos de autonomia existencial, a dimensão fundamental que o colonialismo tinha subjugado – o tempo”.

 

Termino, devolvendo a palavra ao autor, que é, afinal, a razão deste nosso encontro de amigos e de reconhecimento, citando o último parágrafo dos seus “Agradecimentos”:

 

Afinal, trata-se de sabermos quem somos nós, o que defendemos, por que causas lutamos e porquê. Aliás, no mundo moderno, a resposta a estas perguntas é crucial para o futuro de qualquer Nação. Se não tivermos um forte sentimento de um objectivo partilhado, se não tivermos um forte sentimento de quem somos, não teremos possibilidade de sucesso na economia global e na sociedade global. E nesse aspecto, acreditem, que é a mais pura verdade, a História é um instrumento particularmente dotado e privilegiado na busca e identificação dessas mesmas respostas!

- M. Brito-Semedo

 

Título: Estudos da História de Cabo Verde

Autor: Daniel A. Pereira

Edição: Alfa-Comunicações
Ano de edição: Praia, 2005

 

 

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