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Vista da Cidade do Mindelo (Arquivo Histórico Nacional, Praia)

 

É com um misto de orgulho e de basofaria de homem do Norte e rapazin de SanCente, que vejo a minha cidade, ainda que indirectamente, ser, mais uma vez, objecto de estudo de um historiador patrício, por sinal, originário dessa mesma ilha.

 

Isso, mais o meu envolvimento no júri do “Prémio Sena Barcelos de Monografia”, a amizade e a cumplicidade com o autor na partilha da “coisa cultural cabo-verdiana”, levaram ao meu envolvimento na apresentação deste trabalho. Obrigado Daniel Pereira por esta distinção e por mais esta prova de muita estima (a segunda apresentação de livro).

 

Segundo Marc Augé, antropólogo francês, no seu livro Não-Lugares. Introdução a uma antropologia da sobremodernidade (1998), a nossa percepção do tempo hoje em dia leva-nos a uma concepção muito banal que, diariamente, somos levados a fazer: a história acelera-se e tê-mo-la aos calcanhares. E explica dizendo que ela (a história) nos persegue como uma sombra, como a morte, e que os homens que fazem a história, não sabem que a fazem.

 

Durante 25 anos Daniel Pereira foi perseguido, ou pelo menos seguido, pelo Brigadeiro Joaquim Pereira Marinho – Governador-Geral da Província de Cabo Verde em 1835 e 1837 – não como uma sombra, mas como um manuscrito. É assim que esta cerimónia de apresentação pública do Memória Sobre Cabo Verde do Governador Joaquim Pereira Marinho & Outros Textos se reveste de um carácter de acto de puro exorcismo.

 

Duvido, porém, se Pereira Marinho, pelas altas funções que desempenhou e pelo seu zelo e muita actividade, tomando posições radicais e polémicas, com muitas acusações e contra-acusações (registadas em relatórios e ou publicadas em opúsculos autonomamente), envolvendo-se em inúmeras disputas, arregimentando, por conta disso, muitas e terríveis inimizades, particularmente com os seus antecessores na função, nas duas vezes (o Prefeito Manoel Antonio Martins e o Governador Domingos Corrêa Arouca), e com obra feita na Colónia (construção de estradas em Santo Antão da Ponta do Sol até Paúl, o povoamento da ilha do Sal e actuação na supressão do tráfico da escravatura, capturando muitas embarcações de negreiros) – duvido, dizia – se Pereira Marinho não teria consciência de que estaria a fazer história (e que história!) e que viria a ser importante aos olhos dos historiadores do futuro.

 

O livro Memória sobre Cabo Verde..., Prémio Sena Barcelos de Monografia, edição 2008, ex aeque, é um “Projecto para se fazer em Cabo Verde na Ilha de S. Vicente a nova cidade chamada Mindelo, sem que seja necessário que Portugal dê algum auxílio para isso, pelo contrário ganhando, porque empregará ali muitos braços, que aqui sustenta inutilmente”, com o subtítulo “Memória sobre Cabo Verde do Governador Marinho”, constituído por 5 cadernos; acompanhado de três anexos documentais (... Outros Textos), que integram um extenso acervo de outros documentos – constituído por alvará, projecto de Decreto, representação, relatório, ofícios, cartas – muitos deles inéditos.

 

A introdução de Daniel Pereira é um ensaio, onde este historiador, em linguagem desinibida e forte, faz uma análise das propostas e posições do Governador, considerando algumas delas, “de uma actualidade a toda a prova”, designadamente, a captação e o armazenamento das águas pluviais, a arborização, a utilização capaz e consequente da posição geo-estratégica de Cabo Verde, uma reforma administrativa profunda, racionalizando os meios e os custos, entre outras.

 

O projecto da construção da cidade do Mindelo para ser a nova cidade capital, política e administrativa de Cabo Verde, com base no Porto Grande de S. Vicente – “pela sua posição geográfica, pelos ventos que costumão assoprar, e pelas correntes, considerado marítima e commercialmente, hé o centro do Archipélago de Cabo Verde e da Costa d´África desde o Senegal até ao Rio Nuno; hé por conseguinte o ponto mais próprio pelas outras vantagens que teem para fazer operaçoens commerciaes com toda esta Costa até mesmo Serra Leoa” (sic., pág. 89) – (este projecto, dizia) revela o seu autor como um homem com uma grande visão do futuro.

 

Um Decreto de 11 de Junho de 1838, da Augusta Rainha D. Maria II, vem enformar a génese político-jurídica da cidade do Mindelo. Lê-se:

 

Causando gravíssimo prejuizo e transtorno á Administração publica da Provincia de Cabo Verde o retirarem-se em certos mezes do anno as principaes authoridades da Ilha de Santiago, aonde presentemente se acha fixada a sede daquelle Governo, para se subtrahirem ás molestias, que periodicamente se desenvolvem na mesma ilha; e não sendo por outra parte justo, nem conforme aos principios da humanidade o obriga-las a stricta residencia naquelle local insalubre e maligno, com manifesto risco de suas vidas, sacrificadas sem nenhum proveito para o Estado; por estes ponderosos motivos, e por existir felizmente n'aquelle Archipelago uma outra ilha, a de S. Vicente, que gosa do melhor clima, e de outras vantagens, entre as quaes merece a maior attenção o possuir um porto dos mais espaçosos e seguros da Monarchia: Hei por bem Determinar que as principais Authoridades do governo Geral de Cabo Verde assentem residencia permanente na sobredita ilha de S. Vicente, e que para a construção dos edifícios do Estado, necessarios ao serviço da mesma ilha, sejam applicados aquelles meios pecuniarios, que se deveriam consumir na reedificação de taes edificios, que se acham em ruina na de Santiago, além de outros de que se possa dispôr sem detrimento do serviço publico. E em comemoração do desembarque das Praias de Mindello, do Exercito, a cuja frente Meu Augusto Pai veio Libertar estes Reinos da oppressão em que se achavam, e Restituir-Me o Throno usurpado.

 

Hei outrosim por bem Determinar, que a nova Povoação, que se levantar em S. Vicente, tenha o nome de Mindello, Reservando-Me Dar-lhe a cathegoria que lhe competir, quando, pelo augmento da população e mais circunstancias o merecer. O Visconde de Sá da Bandeira, Presidente do Conselho de Ministros e Secretario d'Estado dos Negocios Estrangeiros, interinamente encarregado da Pasta dos Negócios da Marinha e do Ultramar o tenha entendido, e faça executar. Paço das Necessidades em onze de Junho de mil oitocentos trinta e oito. -

RAINHA.

Visconde de Sá da Bandeira 

 

Envolvido em polémica, por causa de interesses vários, o projecto acabou por não se vingar nem o Decreto a ser implementado. Contudo, doze anos depois, essa mesma ideia viria a ser abraçada pelos ingleses, com os resultados que todos nós conhecemos.

 

O tempo acabou por fazer justiça ao Brigadeiro Pereira Marinho, o que não impediu, contudo, que o pó do esquecimento tivesse coberto a sua memória entre nós por cento e setenta anos (!). Pó esse, agora sacudido por Daniel Pereira, que nos restitui, neste livro, o pensamento, e a visão do “Governador do Norte”.

 

É por isso que esta obra Memória sobre Cabo Verde do Governador Joaquim Pereira Marinho vem lançar mais e melhor luz sobre temas, de pertinência ainda actual, que podem servir, na opinião de Selma Pantoja, na sua Nota de Apresentação, “como materiais para reformular e repensar as propostas e para encaminhar soluções para o Cabo Verde da atualidade”.

 

Por outro lado, este trabalho vem ainda resgatar um período importante da história das nossas ilhas, particularmente da ilha de S. Vicente, e vai-se constituir, por isso mesmo, numa referência obrigatória para qualquer estudo sério sobre esse período e sobre a História de Cabo Verde.

 

Termino com a leitura de uma das epígrafes desta obra, de Emília Viotti da Costa, Historiadora Brasileira, que tem aqui uma função de palavra autoritária e esboça pistas de leitura nos planos semântico e pragmático: “Um povo sem memória é um povo sem história. E um povo sem história está fadado a cometer, no presente e no futuro, os mesmos erros do passado”.

 

Título: Memória Sobre Cabo Verde do Governador Joaquim Pereira Marinho & Outros Textos

Autor: Daniel Pereira

Edição: Instituto Camões-Centro Cultural Português Praia/Mindelo
Ano de edição: Praia, 2009

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Um Livro Com Vinho de Cabo Verde

  

Um vinho de Chã das Caldeiras num país improvável foi o que o navegador português Bartolomeu Dias perdeu em 1487.

 

Quando Bartolomeu Dias aportou à ilha do Fogo em 1487, na sua épica viagem em direcção ao cabo da Boa Esperança, não teve, infelizmente para ele e para a tripulação, a possibilidade de provar e carregar a urca de apoio às duas caravelas com algumas pipas de vinho local. Na realidade, verdade seja dita, nem podia. Não só não aportou... como só sete anos antes a vila de São Filipe havia começado a dar os seus primeiros passos na ilha.

  

Mas, insisto, é pena. De acordo com uma excelente leitura de "Verão Levante, 1487 - A Vã Glória de João Álvares", romance de estreia de José Maria Pimentel, um luandense que se atreve a recriar, numa anunciada trilogia, a aventura daquele navegador numa intriga cheia de peripécias a bordo e um misterioso desaparecimento (o que é real) de seis dos nove marinheiros que ficaram na Angra das Aldeias a bordo de uma das naus à espera do regresso exploratório de Bartolomeu Dias.

 

Angra das Aldeias fica na zona sul de Angola, na atual província do Namibe, ali para os lados do ex-Porto Alexandre (atual Tombwa). Um mistério bem urdido envolvendo a população local dá um toque de mestre ao romance. E quem sou eu para dizer isto se a apresentação da obra esteve a cargo de José Eduardo Agualusa? E o que interessa o vinho para aqui? Muito. Carregado com 12 pipas do melhor vinho e mais 45 de qualidade inferior, depressa se torna a principal moeda de troca a bordo. E quando começa a escassear, imagine-se a revolta.

 

Ora se o capitão tem passado na ilha do Fogo hoje, bem poderia carregar o vinho local feito de forma tradicional - o Manecom -, mas também um vinho moderno e à procura da certificação DOC. A história é simples. Do século XVI ao século XVIII, a ilha do Fogo produziu vinho e exportou para a Guiné e para o Brasil. O marquês de Pombal interrompeu para proteger o vinho metropolitano!

 

Um século depois recomeçou e a zona de Chã das Caldeiras inicia o cultivo da vinha já no século XX. A novidade está no surgimento de um vinho moderno, a par do Manecom, cuja intensificação data dos anos 80, contando com o apoio inicial da Alemanha e posteriormente da Itália, esta através de uma ONG. De oito produtores e 4 mil litros passou-se para, actualmente, 62 produtores, organizados numa cooperativa, e 80 mil garrafas. Ele é vinho tinto, branco, rosé e brevemente um licor, vendidos no país e nas comunidades na Europa e nos EUA. Interessante nesta história é a produção de vinho em Cabo Verde.

 

Mas não só é uma realidade - é um nicho, é certo - como também é um exemplo do não baixar os braços e contribuir para a geração de emprego e rendimentos para muitas famílias da ilha do Fogo, em particular do Chã das Caldeiras. E quem ficou a perder nesta história foi Bartolomeu Dias. Porque se ele tem tido a possibilidade de o carregar, o Brasil teria sido descoberto 13 anos antes...

 

Manuel Ennes Ferreira, professor do ISEG

 

Texto publicado na edição do Expresso de 31 de Julho de 2010

 

Acontece na costa desértica do Namib. Três naus do Rei João de Portugal (duas caravelas e uma urca) lançam ferro num lugar já conhecido de antes como Angra do Salto. A escala leva apenas o tempo necessário para o transbordo de todos os mantimentos para as caravelas, que abalam logo depois para a descoberta mais ansiada do Rei — a passagem para o mar das Índias, pelo sul do grande continente africano. Na Angra fica a esvaziada urca dos mantimentos. Fica também o capitão Diogo Dias, com o encargo de a aprovisionar com água e mantimentos até ao glorioso regresso das caravelas do irmão — o capitão-mor Bartolomeu Dias. João Álvares é o mestre da urca, competente, com origem nobre, dotes de bravura e um mesquinho azedume contra os caminhos da política no Reino. Com ele, são nove os marinheiros que, durante nove longos meses, comungaram na inóspita angra com os Kwepes locais desígnios inimagináveis. As caravelas do Cabo recolhem os sobreviventes e os sinais do drama, e transportam-nos até ao poderoso rio do grande Reino do Kongo, onde se consuma a missão do Rei João e se sepultam segredos.

 

Título: Levante, 1487 - A Vã Glória de João Álvares

Autor: José Maria Pimentel

Editor: José Maria Pimentel

Ano de Edição: Lisboa, 2010

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Esquecer!? Ninguém esquece…
Suspende fragmentos na câmara escura, que se revelam à luz da lembrança...

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