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José Renato, geólogo, 35 anos, é enviado para realizar uma pesquisa de campo durante a qual terá que atravessar todo o Sertão no Nordeste do Brasil. O objetivo de sua pesquisa é avaliar o possível percurso de um canal que será construído a partir do desvio das águas do único rio caudaloso da região. No decorrer da viagem, nos damos conta que há algo de comum entre José Renato e os lugares por onde ele passa: o vazio, uma certa sensação de abandono, de isolamento. A viagem vai ficando cada vez mais difícil. Surge a saudade da ex-mulher e a vontade de voltar pra casa. Mas ele decide ir em frente na esperança de que a travessia transmute seus sentimentos. Assim como um astronauta depois de atravessar o espaço sideral, assim como um marinheiro depois de cruzar um oceano - para José Renato, nada mais será como antes.

 

Ficha Técnica

Título: Viajo Porque Preciso, Volto porque Te Amo

Género: Drama
Ano: 2009
País: Brasil
Cor: Colorido
Distribuidor:  Espaço Filmes
Duração:  75 min.
Idioma:  Português
Direção:  Marcelo Gomes, Karim Ainouz
Clasificação: 
Data Lançamento: 07/05/2010

Site:

Tipo: Longa Metragem
Elenco: Irandhir Santos, José Renato

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Pon d' Trança d' Niclet

Brito-Semedo, 25 Ago 10

Hotel.jpeg

Hotel Porto Grande, Mindelo . Foto Arquivo Histórico, Praia

 

Quem é este jovem que, contornando a esquina do tempo e do edifício do Telegraph, neste fim de tarde, caminha na nossa direcção? Poderíamos deduzir que é de S. Vicente, pelo seu ar desembaraçado, mas não da “morada”, pois as suas vestes são simples e calça sandálias de plástico. Poderíamos deduzir que é estudante, porque traz livros e um bloco de notas na mão. Poderíamos, também, deduzir que tem encontro marcado, pela forma decidida e pelo andar ligeiro como caminha em direcção ao Hotel Porto Grande, cruzando a Praça Nova. Talvez pudéssemos, inclusive, concluir que é um frequentador habitual do local, pois fala informalmente ao gerente e aos empregados de mesa que vai encontrando pelo caminho, enquanto se dirige para a ampla esplanada, não antes de encomendar: – Um café e uma mesa, por favor!

  

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Observo-o a dispor as suas coisas numa mesa de canto e a preparar-se para passar algumas horas em leitura atenta. Confesso que conheço este jovem e simpatizo com ele; em breve também o conhecerão. Ele é… enfim, verão quem ele é. Talvez até consigam imaginar no que se tornará – mas estou a falar antes de tempo.

Estamos no ano de 1971. O seu nome é… Brito, Manuel Brito. Sim, sou eu próprio, uma versão jovem de mim, quando tinha dezanove anos. Diria até que somos simultaneamente a mesma pessoa e diferentes um do outro!

 _________

  

Antes de haver o Hotel Porto Grande, inaugurado em finais de 1968, e de o Café-Esplanada albergar essa trupe de jovens estudantes que o procuravam todas as noites, era a Avenida Marginal que os recebia, sobretudo na época dos exames, desembocando dos subúrbios e confluindo ali todas as madrugadas. Era vê-los debaixo dos postes de luz ou passeando pela marginal, concentrados a “empinar” as matérias do 2.º, do 5.º e do 7.º anos.

 

Custava-me levantar às 04H30 da manhã para estudar e era a Mãi Liza que me vinha acordar quando voltava da Padaria de Matos, mesmo ao pé da porta, do outro lado da estrada, já com a encomenda feita do pão do dia para a venda: pão de trigo, pão de trança, pão de brindeira, pão doce, pão de custarde, pão de milho e barão.

  

Depois de muita insistência, lá me conseguia fazer levantar e sair pela porta fora, com os meus livros debaixo do braço.

 

Rumava à Rua de Côco para chamar o Carlos Ramos, meu colega de trabalho e de estudos, que morava mesmo junto ao cruzeiro, na enfiada das casas da Nha Rosa Curcundinha e Nha Antónha d' Solidad. Dali, cortávamos o Largo do Madeiral e seguíamos para a Padaria d' Niclet, situada no topo da Rua da Luz, do outro lado da Drogaria de Gaspar, com a entrada principal para a Pracinha da Igreja. Evoco o cheirinho bom do pon d’ trança (pão de mistura) quentinho a sair do forno, que comprávamos aos pares e levávamos embrulhado em papel pardo, a comer pela rua a quebrar o nosso jejum!

 

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Foto Largo da Pracinha da Igreja, com a Padaria Central (Padaria Niclet) ao fundo

 

Nessa altura, havia seis padarias a laborar no Mindelo: a Padaria d’ Matos da Fábrica Favorita, em Chã de Cemitério, junto à nossa casa, que, juntamente com a Fábrica Sport, a antiga Padaria d’ Jonas, um pouco mais abaixo, no Largo John Miller, produzia os melhores pães e a melhor bolacha, esta exportada para as outras ilhas; uma terceira, na Rua de Côco, a Padaria d' Marçal, na sequência das casas de Ilas Miranda e Nha Camila d' Café Cantante; a Padaria d’ Antôn Djudjin, de frente para o Largo Dr. Regalla; a Padaria d’ Niclet (de facto Padaria Central), voltada para a Pracinha da Igreja; e, ainda, uma outra, a Padaria d’ Lucas, na Rua de Papa Fria, na sequência da Casa de Nhô Roque, vis-a-vis com a mercearia do Nhô Antonin Barót. Dessas padarias, a que mais apreciávamos e nos dava mais jeito era a d' Niclet, pela sua localização privilegiada em relação ao nosso percurso.

 

Niclet.png

O Nhô Niclet, dono da Padaria Central, era um homem alto e forte, com estrutura de boxerque, via-se, era gente do povo que tinha subido na vida. Nhô Niclet era dono de uma moradia de primeiro andar no Lombo, lá para os lados do Hospital. Normalmente, vestia calções largos e, aos domingos, trajava camisa e calções brancos com meias altas e sapatos brancos, que contrastavam com a cor da sua pele bastante escura. Quando sorria, o Nhô Niclet mostrava um dente canino de ouro no maxilar superior, que lhe dava alguma graça e um ar de novo-rico.

 

Conhecia-o e nutria por ele uma certa simpatia porque, quando miúdo, costumava “cercar-lhe a bola” nos jogos de ténis no Club Castilho, em que ele me pagava o serviço com uns trocos, e, sobretudo, porque, nessa altura, ele tinha o carro mais bonito de SonCente, um Mercury verde escuro, com o emblema em cima do capot, o espelho, os frisos dos faróis e das portas, os pára-choques e os tampões das rodas todos niquelados, com os pneus de faixa branca, igualzinho ao do Senhor Governador, diferenciando-se-lhe apenas na cor, dizia-se. 

 

Automóvel.jpeg

Uma outra coisa que me fazia simpatizar com o homem era a sua determinação férrea. Uma vez, essa padaria pegou fogo e foi um abalo na Morada. Valeu-lhe estar situada junto às Águas do Madeiral e as mulheres que chegavam nessa madrugada para buscar água.

Incansavelmente, carregavam baldes e mais baldes de água nessa hora fatídica, que os homens içavam para o telhado do edifício a tentar apagar o fogo. Da padaria só restaram escombros, mas o Nhô Niclet, com muito esforço, conseguiu recuperá-la aos poucos.

  

Dizia-se, para quem quisesse ouvir, que a maior ambição do Nhô Niclet era pertencer ao Club do Grémio e à elite local, ambição essa que sempre lhe foi negada, mesmo depois de ter adquirido o Mercury e importado os dois auto-tanques Thades Trader. Dizia-se, inclusive, que essa sua teimosia foi o seu pior erro, pois fê-lo contrair muitas dívidas e perder quase tudo o que tinha conseguido.

 

Vamos lá aproveitar o tempo disponível?! É que às 8H00 temos de estar no trabalho! – Pondo, o Carlos Ramos, fim às minhas divagações.

 

Nota: Este post é o número 100!

 

 

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