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Sodade d'Eden Park (2)

Brito-Semedo, 13 Set 10

Ernestina Santos, filha do saudoso professor do Liceu Gil Eanes, Augusto Pirick, é a que se segue nos depoimentos com as suas memórias do Eden Park.

 

A Magia do Cinema

 

- Ernestina Santos, 57 anos, Jornalista

 

No écran gigante, a bela Maggie ri-se ao espelho. De repente, repara que Brick, o marido, está a olhá-la de forma estranha e pergunta-lhe qual a razão. Ele nega e, quando ela se aproxima, ele afasta-se, rejeitando-a. É uma cena do filme dramático "Gata em telhado de zinco quente", com Paul Newman e Elizabeth Taylor nos principais papéis, dois actores que fizeram sonhar várias gerações de cabo-verdianos.

 

O filme poderá não ter sido projectado no Éden Park, mas sim no Parque Miramar. Mas quando o Prof. Dr. Manuel Brito-Semedo me lançou o desafio de escrever um depoimento sobre o cinema Eden Park, cheguei à conclusão que grande parte dos cabo-verdianos que vivem há muitos anos na diáspora fazem a mesma confusão, não sabendo ao certo em qual dos dois cinemas viram determinado filme. No fundo, o que importa é que ambos incentivaram a cultura cinéfila em Mindelo e nos legaram uma memória que determinou a nossa cultura como ilhéus que dependiam da informação que vinha do estrangeiro.

 

Escrever sobre o cinema Eden Park veio despertar-me uma torrente viva de belos afectos, pois a primeira coisa que fiz foi falar com os meus irmãos e com a minha mãe para relembrar o que com o cinema se relacionava, quer sobre os filmes, quer sobre outras actividades culturais que se realizaram lá, como peças de teatro, saraus, bailes e até boxe.

 

Lembro-me das sessões para crianças ao domingo à tarde, quando víamos "Tom & Jerry" ou o "Pato Donald & Companhia", filmes de cowboys, de Tarzan e Jane e outros. Dessas sessões, é viva a memória das guloseimas que comprávamos para comer durante a sessão, como os drops, toffés e chuingas comprados ao Cirilo, junto ao quiosque da Praça Nova, bem como a mancarra que era quase um culto, com aquele estalar em uníssono na sala por muitas mãos que apertavam as vagens para extrair os grãos tão apetecidos, que depois soprávamos para nos livrarmos da película e metermos na boca com manha. Quando a gente se levantava, era motivo de regozijo pisar também as cascas para ouvir o crepitar, som que nos soava como música ao ouvido.

 

O meu irmão Jimmy lembra-se de que o pai lhe dava dinheiro para comprar um bilhete para o balcão e que acontecia o mesmo aos amiguinhos, mas que eles preferiam ir para a geral para ter dinheiro extra para estas guloseimas. Ele recorda-se que ia visitar o Tio Cláudio Freitas na sua oficina de marcenaria, que ficava nas traseiras do Eden Park, e que umas duas vezes aproveitou para saltar a parede comum com o cinema, rusgando a entrada com uns dois amiguinhos. O meu irmão mais velho, Luís, de quem o Tio Cláudio era padrinho, ficou admirado ao saber isso, pois também ia muitas vezes com o Tony Freitas à oficina, mas nunca lhes passou pela cabeça fazer o mesmo, admirando a picardia e a adrenalina da malta jovem à procura de aventuras.

 

Nós, as meninas, não tínhamos a mesma liberdade, mas a ida ao cinema era uma festa. Bem vestidinhas, muito bem comportadas, lá íamos ao encontro do écran mágico que nos trazia sonhos dourados com as actrizes glamorosas que queríamos imitar no traje ou no penteado... ou com os sports bonitões.

 

Os bailes do Eden Park eram famosos. O meu pai e os seus amigos colaboravam sempre nas festas, saraus e peças de teatro com o seu talento musical e de organização, como a escolha das músicas e a entrada em cena dos cantores. A minha irmã Zinha lembra-se que, quando os músicos começaram a ser pagos, o meu pai e os seus amigos acharam incrível, porque para eles a música era para ser partilhada, não vendida. Era o início da sua profissionalização mas, como todos sabemos, foi sempre difícil viver só da música em Cabo Verde.

 

Foto Melo, início dos anos 60 – Da esquerda para a direita: Djack de Felícia (3º), Manim Duarte (5º), Augusto Santos (5º), Faia Torres (7º), Ângelo Lima (8º), Lulú Marques (9º), Djosa Marques (10º) e Tony Marques ao piano.

 

Éramos sete irmãos (“Os sete magníficos”, como costumo dizer, parafraseando o título de um dos famosos filmes que nos ficou na memória, um western com Yul Brynner e Steve McQueen nos principais papéis) e tínhamos a sorte de beneficiar dos ensaios que decorriam lá em casa, com o meu pai e os amigos músicos a prepararem-se para alguma festa.

 

O cinema proporcionava-nos ainda outra coisa boa: dia marcado para os pais irem ao cinema, era dia que aproveitávamos para brincadeiras proibidas àquela hora tardia. Logo que eles dobravam a esquina, era trepar para os terraços, que a princípio não tinham escadas, era brincar à mangatchada, era fazer jogos na rua, nós os sete vestidos de pijamas e camisas de noite, traje que mais encantada nos tornava a transgressão.

 

 

As recordações do Eden Park trouxe-nos uma parte da nossa vida que revivemos com sodade. É a magia que nunca nos abandonará, reavivando a parte de crianças que somos e que nunca queremos perder! E quando tenho a sorte de ver um filme que naquele tempo não era para a minha idade, como "Gata em telhado de zinco quente", que vi por acaso há cerca de uns dois meses no canal Hollywood, lembro-me de quando o meu pai, no dia seguinte, cedendo aos nossos pedidos nos contava “partes” do filme que tinham visto na noite anterior.

 

Lisboa, 10 de Setembro de 2010

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Glossário:
Chuinga - Chewing gum, pastilha elástica

Mancarra - Amendoim

Manha - Gulodice

Mangatchada - Brincar às escondidas

Sodade - Saudade

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