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Sodade d'Eden Park (5)

Brito-Semedo, 20 Set 10

A realização-memória de Alice de Matos, outra m’nininha de SonCent, da geração da água do Madeiral, exibida aqui, “Na Esquina do Tempo”, é, na verdade, uma sessão dupla, sem intervalo – Beijedamor e Antónha de Libertal.

 Beijedamor

 

– Alice de Matos, Docente do Ensino Superior

 

Não me canso de olhar o Monte Cara e a Baía do Porto Grande. Todos os dias, quando entro no FB (txi pa Morada!), vou ao mural dos que lá colocam fotos desse par enamorado.

 

Gó dzide, Monte Cara tita gordá Baía.

 

Ke manêra? Ke kara pa sêu? De toute façon...

 

Nada me garante que o Monte não volte a Cara, de vez em quando, para piscar o olho à Bia. Digo, Baía. Esta, ora toda aninhada ali, no Porto, ora fingindo que se atira aos braços do Canal, mar fora. Ele, na spik, oi pa sêu, oi pa lua. Na plateia, ali no Fortim d' El Rey, nos camarotes, comentários contidos, quase sussurrados, desta cena de konkista quase eterna!


De quando em vez, um ai!! depois d'un pnik na pérna:


“Oía, oiá, ka bo perdê”.

 
Ma, li debóxe, na Praia de Bote, na “jêrál”, abole ê grand, algazarra total, pove ka krê sabê. Tont konkistá ê es? Filme kuaze na fin...


“Xtimi, moss! Kzê ke bo tita sperá?


“Agora! Óra de deskarga na Porte!”


“Pruveitá, rapaz, agora ke Canal ta ravultióde!”


“Da'l el, sport!”


“Oiá, moss, menina tita mexê!”


“Beja'l! Beja'l! Beja'l!” – gritam, em uníssono, os espectadores, impacientes.


Silêncio! Sonsent inter inpê, ta toká palma. Paaalma. Sport bejá menina. Digo. Monte Cara bejá Baía.


Acordo. “Sport ma menina dá fin?” No problem. Éra sô trailer!

 

BREVEMENTE NESTE CINEMA: Beijedamor.

 

 

Vista da Avenida Marginal - Mindelo

 

Éden Park ê fetxód. Ja'm txi pa Marginal. Stróde n'areia, N ta li ta kurti fin dakel filmin daonte. Baía ma Monte Cara dá fin. Fidje es ten spaióde pa tude Kab Verde. Kes más bedje ta dret na vida, un na Praia, ote na Port Nov. Kes ote porte, más piknin, tita bá ta levá vida. Konforme... Na mei de tónt mussin, parsê un filha féma. Ses kodê já ta grandinha. Baía, nen tenpe d' entrá na maternidade. El tive el log li, junte de Praia d' Bote, lá meze ondê ke pove foi tistemunha dakel primer beje d'amor. Ê um menininha. Bnitinha móda sê manhe. Es po'l nome de Marina.

 

FIM

 

Esta é uma homengem às famílias Marques da Silva e Tuta Melo, dignas promotoras do cinema em Cabo Verde.

 ____________

 

Antónha de Libertal

 

Ele há cada contadeira de filmes! Antónha de Libertal era uma delas. Estreia? Não perdia nenhuma e, “bon film”, ela bisava, trisava.... Os dias seguintes eram aquela magia, eu ali (ab)sorvendo tudo, enquanto Tanha, no meio dos afazeres da casa, ia-me reconstituindo cenas, conflitos, personagens. Dos cenários, dava boa conta. Servia-se de tudo. Da cama atrás da cortina do quarto exíguo, da vassoura ali à mão... Puxava uma cadeira dali, desprendia o espelho da parede, acolá... Secava vezes sem conta as mãos no avental, quando delas precisava para a acção.

 

“Sol kent, ta kemá, móda grinhasin, nakel dezert”, descrevia, afrouxando a porta.

 

Eu espreitava o Sol e fazia que sim.

 

“Sport lá, menina li, detód... Asin!”

 

Roçava-se na cama, imitando a postura da protagonista, registando em deliciosas metáforas, pormenores na cara, nas feições, autênticos close-ups. Pelo tom de voz, eu ia reconhecendo deixas dela e dele, nem sequer AdL anunciava os donos das falas. Eu a segui-la pela casa, até ao quintalinho, para as cenas de exterior. Sempre agarrada à narrativa. Quando ela se envolvia, excitada, no turbilhão dos acontecimentos, acelerava-se no clímax e atrapalhava-me no desencontro dos tempos, ora para a frente, ora para trás. Os flash backs, então!...

 

“Kome, Tanha, menina já ke tinha fejid?”

 

“Nãão!”

 

Corrigia-me ela, num não redondo, para depois retomar o discurso e resituar-se na narrativa. Ai aquela voz off, jent... Sonoro tava temá kónta dakel cubículo, eu rodando sobre mim própria, olhos no tecto, para o alto daquelas paredes indagando donde vinha aquilo, um barulho bem orquestrado que fazia aumentar e aumentar a saleta, palco destoutro filme. E chegavam-me os “suspenses”, eu a reter a respiração, antecipando desfechos... Os finais felizes mereciam o nosso cúmplice contentamento.

 

Tu, Jorginho de Sr. Albertino Martins, com a tua Romana Cabral Semedo, eu, com a minha Antónha de Libertal. Nome de baptismo? Não me lembro. Sabia, tantas vezes me repetira ela o nome completo, no fechamento das cartas que me ditava, em português, no português dela, e eu escrevia na folha de “papel de carta” “retirada” da prateleira da nossa loja. É que Antónha de Libertal não lia nem escrevia, jent. Esta personagem faz parte deste filme, real, que é a minha vida. Ainda hoje vive. Reside na Ribeirinha, em S. Vicente, longe do “quarto de casa” ao lado da nossa loja, em Alto Solarine, para onde quase todos os dias me esgueirava, às escondidas:

 

“Menininha de Deus, kzê ke bo ê tude ta ba bxká na kaza d'Antónha de Libertal?”

 

“Magia, Mamã!”

Homenagear o cinema em Cabo Verde é homenagear os frequentadores assíduos das salas de cinema, amantes da sétima arte, muitos deles exímios contadores das histórias dos filmes que os ajudaram a “fintar” a vida, buscando, como eu, a magia que Antónha de Libertal tantas vezes me dera, sem ela própria saber.

 

Lisboa, 18 de Setembro de 2010

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