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Na Sessão Solene Extraordinária da Comissão Municipal da Praia, de 6 de Outubro de 1910, o Governador-Geral da Província, António de Macedo Ramalho de Ortigão, fez a proclamação da República, tendo sido esta notícia recebida com entusiasmo e muitos vivas. No dia seguinte, a 7 de Outubro, foi a vez da Comissão Municipal de S. Vicente, convocada para o efeito, julgando “interpretar o sentir da população”, fazer a mesma procla-mação. Assim, comemora-se hoje o Centenário da Proclamação da República nesta cidade do Mindelo! É, pois, com um olhar retrospectivo que procurarei abordar o tema “A Vez da República e A Voz de Cabo Verde”, pondo em destaque: (i) a expectativa da Província no pós-ultimatum de 1890 e (ii) a vez da República, pela Voz de Cabo Verde (Praia, 1911-1919).

 

I. A EXPECTATIVA DA PROVÍNCIA NO PÓS-ULTIMATUM E A VEZ DA REPÚBLICA

 

1. Frustrações há muito acumuladas

 

Apresenta-se como a primeira e mais ampla condição endógena, que propiciou o surgimento de uma expectativa pela mudança de regime, as frustrações há muito acumuladas: (i) a falta de interesse e o abandono secular de Portugal; (ii) a recusa do regime de adjacência reclamada pela elite intelectual; e (iii) a ideia, propalada por certos políticos, da venda de algumas colónias para pagar as dívidas de Portugal, na sequência do Ultimatum inglês e da crise financeira de 1891, foram certamente os motivos próximos. Estes, extremados pela situação das fomes, que causavam uma vida de sofrimento e miséria e muitas mortes, forçando a emigração para as roças de S. Tomé.

 

2. Expectativas face ao advento da República

 

Com a República, as expectativas face à mudança foram as maiores, se se tiver em conta que, já em 1900, no jornal “Alvorada”, num editorial intitulado “Autonomia”, Eugénio Tavares fizera a seguinte declaração de fé: “Portuguezes irmãos, sim; portuguezes escravos, nunca. Havemos de ter o nosso Monroe: A Africa para os Africanos”, referindo-se ao presidente dos Estados Unidos que governou a União de 1817 a 1825, cujo nome ficou ligado à famosa doutrina que repelia a intervenção da Europa nos negócios da América.

 

As expectativas e o entusiasmo com a República notam-se, inclusive, no registo de crianças com nomes das figuras cimeiras do novo regime. Caso de destaque é figura mindelense Manin Estrela, um dos seus atletas mais completos, tanto como futebolista como crickman, nascido a 2 de Outubro de 1910, a quem o pai pôs o nome de Apolinário Republicano Estrela.

 

II. A REPÚBLICA E A VOZ DE CABO VERDE

 

1. A República em Cabo Verde

 

Associada à implantação da República está uma grande mobilização e envolvimento da elite intelectual cabo-verdiana, na metrópole e nas ilhas, com (i) um sentimento pan-africanista e nativista; (ii) as sociedades secretas da Maçonaria e da Carbonária; e (iii) uma forte actividade política e jornalística de opinião activa.

 

Estando na Metrópole, os intelectuais de Cabo Verde envolveram-se na luta das associações e movimentos pan-africanistas como a “Junta de Defeza dos Direitos d’Africa” (1912), de que Augusto Vera-Cruz foi Delegado por Cabo Verde no Comité Federal e Martinho Nobre de Mello, Primeiro Secretário da Assembleia Geral; “Liga Africana” (1920), tendo A. Corsino Lopes da Silva, sido seu Vice-Presidente; “Partido Nacional Africano” (1921), cujo Presidente foi Martinho Nobre de Mello; e “Movimento Nacionalista Africano” (1931), tendo Martinho Nobre de Mello como um dos  Presidentes Honorários, sendo responsáveis e colaborando todos nos seus órgãos de comunicação oficial.

 

Nas Ilhas havia, igualmente, uma participação activa dos delegados desses movimentos unitários e os correspondentes, os representantes e os colaboradores dos seus jornais pan-africanistas. Apenas para citar alguns, Joaquim Saint Maurice (S. Vicente), José Luís de Mello (Santo Antão), Mário Alfama Ferro (S. Vicente), Loff de Vasconcellos (Brava), Eugénio Tavares (Brava), José Sacramento Monteiro (Fogo), António Nunes de Aguiar (Praia) e Pedro Cardoso (Fogo).

 

Chegou a constituir-se, na Praia (1912), o “Grupo Republicano Democrático de Cabo Verde” e, em S. Vicente (1913), a “Associação Operária 1.º de Dezembro”.

 

A Maçonaria, com os seus ideais humanistas e de liberdade, terá conquistado a elite dos filhos das ilhas comprometida na defesa dos interesses do seu povo. Só em S. Vicente tinham sido estabelecidas três lojas maçónicas: a S. João, N.º 233, e a Fidelidade, N.º 234, ambas em 1903, tendo durado até 1913 e 1915, respectivamente, e a Almirante Reis, N.º 353, que funcionaria até ao período da clandestinidade da Maçonaria.

 

A Loja S. João chegou a fundar, em 1904, uma instituição de beneficência intitulada “Gotas de Leite 18 de Maio”; o Grémio Lusitano, a face visível do Grande Oriente Lusitano Unido, GOLU, abriu, em Outubro de 1912, também em S. Vicente, uma escola primária laica e gratuita para ambos os sexos, denominada “Escola Laica Almirante Reis”; Cândido dos Reis, herói republicano, com papel relevante na revolução de 5 de Outubro de 1910, considerado por Eugénio Tavares seu conterrâneo por parte da mãe, Dona Matilde Reis, natural da ilha Brava, deu nome ao Centro Republicano da Ilha Brava, rebaptizado “Centro Cândido dos Reis”.

 

Com a chegada do novo Governador-Geral, Marinha de Campos, primeiro-tenente da administração naval reformado, figura destacada da recente Revolução, foram formadas três organizações que tinham como propósito defender o regime e auxiliar o Governador – o “Corpo de Voluntários Republicanos da Praia”; o “Club Republicano Marinho de Campos”, da Brava; e o “Centro Democrático Marinha de Campos (“Corpo de Voluntários Republicanos do Mindello)”. Entre os fundadores dessas associações, constavam figuras gradas da sociedade.

 

O Padre Duarte Graça – o mesmo da Revolta de Ribeirão Manuel – nos seus dois opúsculos contra o Governador-Geral Marinha de Campos, informa ter sabido existir na cidade da Praia uma sociedade secreta, a Carbonária – eventualmente “A Choça Carbonária ‘Republica’” – que teria sido criada “para ser o sustentáculo da República n’esta terra”. E avança que se “reuniam ora na Fazenda ora em casa d’um dos sócios na rua da Republica”.

 

Até antes da República, na opinião de Eugénio Tavares, as dificuldades existentes seriam tantas que parecia ser proibida a publicação de outra folha pública que não fosse o Boletim Oficial. É, pois, com a mudança de regime e, na sua decorrência, com a efectiva liberdade de imprensa, que se passa para um período de proliferação de periódicos, o que viria proporcionar que houvesse um aumento de jornais sem precedentes, que deram eco e ampliaram as aspirações do povo das ilhas. O mais importante desses jornais foi A Voz de Cabo Verde, fundado na Praia, em Março de 1911, propriedade de Abílio de Macedo, de que Eugénio Tavares, “o maior jornalista de Cabo Verde”, nas palavras de Pedro Cardoso, foi Redactor-Chefe.

 

2. A Voz de Cabo Verde (Praia, 1911-1919)

 

Fiat Lux! Fez-se luz!”. Foi assim que, a 1 de Março de 1911, no seu primeiro número, o jornal A Voz de Cabo Verde – “semanário democrático dedicado aos interesses da província de Cabo Verde” – que viria durar até Maio de 1919, se posicionou politicamente saudando a proclamação da República, “para que se faça luz no archipelago”.

 

Este é um jornal de inspiração maçónica, que vai servir de propaganda anticlerical e de apoio a todas as medidas tomadas pelo Governador Marinha de Campos, que, acusado de pretender incitar os cabo-verdianos à revolta, viria a ser preso e afastado, depois de apenas quatro meses e meio de Governo. Colaboraria neste jornal toda a elite letrada de então: Eugénio Tavares, José Lopes, Pedro Cardoso...

 

A Direcção d’ A Voz de Cabo Verde não segue as directrizes do Directório do Partido Republicano, apoia um candidato diferente às eleições à Assembleia Constituinte de 1911, o ex-Governador Marinha de Campos, e incompatibiliza-se com o novo Governador, Júdice Biker. Como represália, a Imprensa Nacional recusa-se a imprimir o jornal. É assim que Abílio Monteiro de Macedo, proprietário d’ A Voz, decide comprar um prelo próprio e garantir a autonomia técnica do jornal e, assim, a independência política dos seus responsáveis.

 

Menos de um ano depois da implantação da República, começa a instalar-se em Cabo Verde a desilusão e a desconfiança em relação ao novo regime sediado em Lisboa. Continua a haver a divisão dos habitantes do Império entre cidadãos e indígenas ­e continuava a dar-se um enquadramento legal ao trabalho forçado. Quanto às reivindicações dos funcionários das colónias sobre igualdade de direitos ou salários equiparados, o Terreiro do Paço continuava como dantes.

 

CONCLUSÃO

 

A situação em Cabo Verde não era diferente do que se passava na Metrópole, antes, o reflexo do desgoverno e das disputas políticas, que lá aconteciam, transferidas para o espaço das ilhas. Em 1926, a República é derrubada e é instalada no seu lugar a Ditadura Militar.

 

Eugénio Tavares, um dos republicanos cabo-verdianos mais convictos e consequentes, por cuja causa sofreu perseguições, chantagens (haja em vista o desfalque forjado quando era Recebedor da Fazenda na Brava, tendo tido que fugir para os EUA, vestido de mulher, para não ser preso), e represálias, desiludido com a República, desliga-se da política e isola-se amargurado, na última década da sua vida, na sua propriedade da Aguada, onde viria a falecer em 1930, no dia 01 de Junho.

 

- M. Brito-Semedo

 

NOTA: Artigo no Expresso das Ilhas Online sobre o evento. Artigo no ASemana Online sobre a Mesa-Redonda A República e o Nativismo (Lisboa).

 

 

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