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Vista Geral da Cidade do Mindelo, Anos 30 do Séc. XX

 

O "Na Esquina do Tempo" convidou o amigo Jorge (Djô) Martins a deixar nesta rubrica um texto seu sobre as Memórias de Soncent de Diazá com fotos evocativas da época do Porto Grande e do carvão. O resultado é o que se segue.

________

 

Perguntava-me, há uns bons tempos atrás, o Djack de Captania, o que era feito das memórias do “tempo de carvon", que até got de Mané Jon, táva ingordá na gemada!


Pois, bem meu caro Djack, memórias. Só a nossa, os que ainda as têm.

 

Os vestígios dessa época industrial e comercial, única em Mindelo, parecem ter sido banidos da história de Cabo Verde e, mais grave ainda, de Soncente

Oque é que se preservou das máquinas, dos vagões e das linhas por onde circulavam? Dos guindastes – de guintch de cascon dupla – dos lanchões e, até, dos próprios botes, daqueles grandes, em que 6 homens fortes e destemidos e o capton enfrentavam esse Mar d'Canal, para passar contrabando?

 

Faluch já cabá diazá – “Senhor das Areias”, “Ildut”, “Sal-Rei”, “Ernestina”, “Nauta”, “Carvalho”...

 

... que é feito de todo esse manancial de coisas e de documentos?


– Nada Djack, nada! Ninguém sabe bem ao certo, ou se sabe, não diz.


Os modernos, esses, acham que essas coisas do antigamente são lixo. Há quem diga que servem pa tiça lumnara ou alguma fogueira mais chique.


Uns, porque talvez se envergonhem do seu passado familiar, que lhes possa trazer algum desconforto face a essa nova ordem das coisas. Outros, porque mais preocupados com o seu fucsin.


Ti Pedre, quem não se lembra – esse bom gigante e estivador hercúleo da Shell, que desde que tivesse bebido um bom 1/4 litro de grog, era homem para, sozinho, abafar a claque de qualquer team que defrontasse o seu Derby – dizia:

 

Pobre má d'unha limpa, ao mesmo tempo que exibia duas mãos negras, calejadas e encardidas da estiva de toda a espécie de combustível que houvesse para descarregar.

Asmãos, sempre sujas do trabalho, mas as unhas essas, estavam limpas, na honra de um trabalhador que nunca levava desaforo casa, ganhando o seu sustento, com o suor do seu rosto. Nunca teve vergonha do seu trabalho humilde, assim como a maioria dos homens e mulheres que labutaram diariamente no carvon, ou em qualquer outra faina d’Port Grand, para pôr um catchupa na lume, comprar quinze ‘ston de pitrol pa cendê um cander, e, assim, permitirem aos filhos, estudarem mais qualquer coisinha que um segund grau, tornando-se homens e mulheres, hoje – com certeza Djack – com uma outra posição social.

 

Mas a memória foi-se perdendo por causa do avanço e do desenvolvimento de tal forma que até abafaram por completo aquela trupida de sirene a avisar que vapor estava a entrar, pronte pa bom bisniss ou, quem sabe, conseguir dá milha d’Terra, para voltar, anos mais tarde, com dedo rinquióde de anel d’or e mony na poket.

 

Daniel Pereira, então Encarregado de Negócios da Embaixada de Cabo Verde em Lisboa, aquando do lançamento de dois dos seus livros, confidenciou ter encontrado cabo-verdianos que desconheciam que tivesse havido escravatura em Cabo Verde. Logo por isso já consegues ver como vão essas coisas, de lembranças.

O meu bisavô materno teve um escravo em St.º Antão e até está registado. Isso não me envergonha, só me entristece pensar que um homem possa ter escravizado outro. Mas, à luz dessa época, chamava-se escravatura e hoje é poder económico.


Voltando ao carvon e aos vestígios dessa época, seria preciso recolher e catalogar toda a informação existente que, julgo, ainda ser muita.

Para além de fotografias, há (deve haver) os registos da Alfândega e da Cuptania, os livros dos Shipshandler’s, um candad de coisas, até filme. Daqueles que Tuta Melo fazia e depois passava no seu cinema – memórias outra vez – como “tralha”...

 

Ah! Ainda há gente que viveu esse tempo e cujo testemunho seria pertinente recolher.

 

Eu, sem ser muito idoso, ainda me lembro de ver o Porto com vapor e tanka, quanto mais não seja, pelas lembranças do Djosa Oin, bom beck do Mindelense que ao chegar à linha divisória d’Comp Nov, e assim que fazia o gesto para chutar, havia sempre um busód na bancada que dizia, es marrá Tanka, es marrá...

 

O Djosa era estivador d’Caisse Custável. Terá ele as suas lembranças se, e espero que sim, estiver entre os vivos.

 
Até o  vaporim d’visita, que levava a bordo pliça de Cuptania e o médico de serviço ao Porto, que morava mesmo dentro do perímetro da Alfândega, quando fundeava algum vapor, desapareceu. Como desapareceram, as gasolinas que vieram atirar para o desemprego os remadores. Ficaram as juvitas que acabaram com as zorras e os seus puxadores, bem como, com as carregadeiras de sacos.

Osaneamento, esse acabou com as carregaderas de lata de nove horas, cheias de cabunga, que em passo rápido – às vezes trôpego, duns doj quinze – percorriam as ruas menos iluminadas da cidade, tentando com esse último serviço, levar mais um troquim pá casa.

 

Evolução meu caro Djack, evolução.

 

Mas, mesmo assim, fica-me um certo amargo sempre que falamos do Porto Grande de Mindelo e só temos uns ratrot, ou as nossas memórias, que um dia se finarão connosco.

 

Depois, Djack, é que loreta já sentá pel.

 

Mantenhas,

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