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'Bróder'

Brito-Semedo, 22 Nov 10

 Foto: Daiane Souza / Divulgação Palmares

 

Questões raciais, emoção e humanidade com a periferia de São Paulo como cenário. Bróder!, do diretor e roteirista Jeferson De, consegue reunir todos esses elementos sem perder de vista sua função artística: surpreender, emocionar e sensibilizar. Com um maniqueísmo explicitado não pela cor da pele, mas pelas ações dos personagens, o filme causa estranhamento ao ter seu protagonista branco vivendo uma realidade que, em outros filmes, seria de um personagem negro.

 

A escolha de um ator branco para viver um personagem supostamente negro também reflete a diversidade do nosso País. A "inversão" no estereótipo caracteriza a vida real, que não determina quem fará as escolhas "certas" ou "erradas" tendo como critério a etnia. Na tela, esse questionamento surge em meio a situações cotidianas e conflitos emocionais típicos de jovens que acabaram de sair da adolescência e precisam enfrentar novos desafios. Casamento, filhos, relacionamentos estáveis, novas organizações familiares, reestruturação de amizades e violência urbana.

 

Bróder! consegue prender o espectador com situações corriqueiras. A identificação é imediata: Na plateia, nos sentimos apenas observadores de uma comunidade no Capão Redondo. Onipresentes, vemos Macu e seus amigos Jaiminho e Pibe conversarem num bar, dentro de um carro e brigarem num campo de futebol com a mesma naturalidade que provavelmente teríamos se estivéssemos passando pelo local. Os diálogos não parecem ensaiados e representam fielmente a linguagem oral da periferia das grandes cidades. É a vida acontecendo.

 

- Este é um filme sobre amor e amizade, sobre seres humanos. 80% do que está lá foram coisas que eu vi e vivi e muitos de nós aqui também, pontuou Jeferson De.

 

Situado num momento histórico que Jeferson De caracteriza como "momento de mudança e vitória", em que os negros devem tomar as rédeas de suas representações ao invés de ficarem passivamente consumindo uma cultura que não foi feita para eles nem por eles, Bróder! surpreende desde o personagem branco numa posição antes ocupada por negros, passando por suas referências a Macunaíma, até sua trilha sonora com Baden Powell, Mano Brown e Racionais.

 

Ao colocar um policial anunciando ao rádio ter encontrado "elementos na cor padrão", referindo-se a dois negros que estavam num carro por ele abordado, Jeferson faz referência ao racismo institucional ainda vigente nas corporações policiais. O que nos faz refletir: padrão para o quê? Para quem? De quê? O incômodo é sentido entre o público, que ri e faz comentários, demonstrando perceber as muitas críticas sociais presentes no filme.

 

Contudo, Jeferson quer mais, e não se contenta com a discussão racional pura, dissociada das sensações que aquelas situações despertam diariamente nos personagens reais das periferias brasileiras. "A minha intenção sempre foi a de emocionar, tocar, para além de debater questões sociais, que também estão lá. O importante é falar sobre o ser humano, sobre pessoas, sobre minhas experiências. Eu sou um negro latino-americano, e dessa experiência eu nunca vou me desligar".

 

Produzido num momento de vitória da democracia e de mudanças nas estruturas sociais do Brasil, Bróder! insere-se no rol de filmes inspirados e inspiradores – obras primas do cinema brasileiro contemporâneo, que nos fazem ver para além do óbvio, para além dos aplausos, para além da branquitude e da negritude, para o externo de nós mesmos e de nossas periferias.

Joceline Gomes,  in Palmares, Fundação Cultural - Brasil

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