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Natal de Diazá

Brito-Semedo, 23 Dez 10

 

Em Homenagem à Mãi Liza, à Mãi Xanda e à Dade

Para Mili, Ely e ,

 

Com os votos de um Feliz Natal!

 

 

A festa de Natal era algo que não havia na nossa casa da Chã de Cemi-tério, mas sempre tive um presépio lindo para admirar, o da casa da D. Piedadinha de Nhô Lela Miranda. É que ela, católica praticante, leva-va dias e dias a preparar a comemoração, que consistia na germinação da cevada para produzir as plantinhas dos campos, na criação dos montes com papel pardo de embrulho, na feitura dos lagos a partir de pedaços de espelho, na arrumação das figuras tradicionais de gesso e, claro, na preparação da consoada.

 

Por essa ocasião, arranjava sempre pretexto para ir a casa da Dade e do Pa Lela – a forma carinhosa como os tratava – que era na sequência da nossa, logo a seguir à da Nha Nené d’ Virisse, só para poder dar uma espreitadela à ornamentação do presépio. 

 

No dia festivo, a Dade servia-me sempre refresco com bolinhos secos, figos e cake[1]. Quando troquei as calças curtas de suspensórios pelas de pernas compridas, o refresco deu lugar a um cálice de licor caseiro de menta, cujo sabor guardo ainda em memória.

 

Durante a quadra festiva, era hábito sair a seguir ao jantar com a Mãi Liza, para ver as montras. Eu esborrachava o nariz nos vidros das mais importantes lojas da Morada – Casa Leão, Casa Confiança, Casa Ribeiro de Almeida e Casa Metrópole – para, assim, poder ver melhor os brinquedos expostos. Sabia de antemão que não receberia nenhum deles como prenda de Natal, mas não punha seita[2], apesar de, no meu íntimo, os desejar. O mais normal seria receber uns balões, alguns drops e alguma roupa nova ou, excepcionalmente, um carrinho de plástico ou ainda, com muita sorte, uma bola de borracha.

 Foto de Jorge (Djô) Martins, 'Património Fotográfico do Mindelo" - Loja Ribeiro de Almeida, anos 60

   

Só passei a ter um Natal verdadeiramente meu, religioso e de família, depois de me casar e montar casa própria, aos 23 anos, mais precisamente a partir do nascimento do meu primeiro filho, cujo segundo nome, já em si, é simbólico – Emmanuel[3]. No mês de Julho desse ano de 1975, dois dias antes da Independência Nacional, cheguei a Santa Catarina, ilha de Santiago, como Pastor da Igreja do Nazareno, tendo o meu filho nascido no dia 3 de Novembro, pelo que a comemoração do Natal desse ano viria a ser marcante em todos os sentidos.

 

As responsabilidades da Igreja tornavam a época natalícia bastante trabalhosa e absorvente, com muitos ensaios de poemas, representações e cânticos, abarcando crianças, jovens e adultos, em diferentes horários. Apesar do envolvimento do casal pastoral, ficando, a celebração, por vezes, praticamente reduzida à sua dimensão religiosa, arranjávamos sempre espaço para a família, sobretudo quando os filhos eram ainda muito pequenos.

 

Muitos anos depois, quando a minha vida profissional e pessoal deu uma volta drástica e eu vivia já sozinho com os filhos, entrou nela uma mulher que haveria de juntar às nossas tradições natalícias o seu toque europeu. Porque se encontrava no estrangeiro a preparar o doutoramento, passava o seu Natal com a família portuguesa e juntava-se a nós em Janeiro, para connosco fazer uma segunda edição no Dia de Reis. Por essa ocasião, preparávamos e enfeitávamos a casa com motivos festivos, mas, na falta de uma árvore de Natal, ela e os meninos resolviam o problema com engenho e arte. Usavam os fios prateados e doirados de enfeite e, com eles, desenhavam na parede da sala a forma de um pinheiro. Durante três anos, foi assim a nossa árvore de Natal. E que bonita que era!

  

A nova Mãe-Natal trouxe, também, consigo a prática da troca de prendas. A melhor de todas foi aquela que recebi quando os meninos foram desafiados a arranjar uma para o Pai. Depois de lhe justificarem que não tinham essa prática porque o dinheiro não chegava, ela explicou-lhes que me podiam oferecer algo que não custasse nada, mas que fosse feito por si próprios e que soubessem que eu iria apreciar. 

 

Nessa nossa noite de Natal, comemorada em Janeiro, entendi pelo Gé, o meu caçula[4], que mal se podia conter, e pelo espírito de conspiração que pairava no ar, que me estava a ser preparada alguma surpresa. Chegada a hora, o Ely foi buscar o teclado e os dois dedicaram-me uma música, cantando uma letra da sua autoria, que me comoveu e compensou por todos aqueles anos da minha infância em que não tinha tido presente:

 

Brito é um bom Pai / ele ê um gajo d’scontra. / Pai moda êl ka tem, / el’ê, el’ê el sô. / Êl tá sacrificá tcheu, / tud pa sês dôs fidje. / Pai moda êl ka tem, / el’ê, el’ê el sô![5]  

 

Os rapazes cresceram, tornaram-se adultos e, hoje em dia, comemoram a data com as suas novas famílias, lá na Terra Longe.

 

- M. Brito-Semedo

 

Ver e ouvir aqui a História do Natal Digital e Happy Christmas, de John Lennon

 

 


[1] Bolo.
[2] Fazer birra.
[3] Deus connosco.
[4] Filho mais novo.
[5] “Brito é um bom Pai / ele é um gajo compincha. / Pai como ele não há, / ele é, ele é único. / Ele sacrifica-se bastante, / tudo para os seus dois filhos. / Pai como ele não há, / ele é, ele é único“. 

 

 

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