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Mindelo, Lugar com História (Fotos)

Brito-Semedo, 5 Mar 11

 

Da esquerda para a direita: Primeiro Ministro (Dr. José Maria Neves), Ministra Ensino Superior, Ciênica e Cultura (Dra. Fernanda Marques), Presidente da Câmara Municipal de S. Vicente (Dra. Isaura Gomes)

  

Da esquerda para a direita: Primeiro Ministro (Dr. José Maria Neves), Ministra Ensino Superior, Ciênica e Cultura (Dra. Fernanda Marques), Presidente da Câmara Municipal de S. Vicente (Dra. Isaura Gomes) e o Autor 

 

Da esquerda para a direita: Presidente da Câmara Municipal de S. Vicente (Dra. Isaura Gomes), o Autor e a Deputada Nacional por S. Vicente (Dra. Filomena Vieira)

 

 

 Fotos Gentileza do Blogueiro Odair Varela

 

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Mindelo, Lugar com História

Brito-Semedo, 4 Mar 11

 

Participei ontem da inauguração das obras do Centro Cultural do Mindelo, a emblemática Alfândega de D. Pedro V. Reproduzo aqui, no "Na Esquina", as palavras que proferi na altura. Entretanto, se me quiser acompanhar numa voltinha virtual pela Morada, clique aqui.

 

Mindelo.jpeg

 

 

1. Neste mês de Março, mês da Mulher e das Flores, as minhas primeiras palavras são de saudação e de felicitação à Directora do Centro Cultural do Mindelo, Dra. Josina Freitas, e colaboradoras, pelas excelentes obras de recuperação deste espaço emblemático, que é a Alfândega de D. Pedro V, construída em 1860 e, em boa hora, transformada em 1997 em Centro Cultural.

 

Queria ter podido trazer uma braçada de rosas da horta da Ribeira de Julião da saudosa Nha Camila d'Café Cantante. Cheguei a lá ir de juvita, mas no meio do emaranhado de casas da urbanização de hoje em dia, não localizei o sítio. Fica, pois, a promessa dessas rosas feita à Josina Freitas para a “festa-de-guarda-cabeça” da sua Ísis – a deusa egípcia cultuada como modelo de mãe e de esposa ideais, protectora da natureza e da magia, amiga dos escravos, pescadores, artesãos e oprimidos – que, contrariamente à da mitologia egípcia, vai chegar nos próximos dias a Mindelo, imaginem de onde… de França!

 

Aproveito para evocar, ainda que de forma breve, os 75 anos da publicação da Revista Claridade (1936-2011), um marco cultural e um dos grandes feitos literários desta cidade, a que todos nós nos orgulhamos de pertencer.

 

Não posso deixar, igualmente, de me referir ao Carnaval do Mindelo, onde, este ano, mais de 40 grupos de animação (!) e três oficiais desfilarão pelas ruas recém-asfaltadas da Morada, o nosso sambódromo por excelência. Se eu falar mal é inveja pura, porque não poderei estar presente!

 

2. Falemos, então, da importância do conceito de espaço – e deste espaço – como testemunho de uma cultura.

 

A década de 90 suscitou, às ciências sociais em geral e à Antropologia em particular, um interesse e uma perspectiva renovada no que diz respeito à relação do espaço com as interacções sociais e ao seu significado simbólico. Se, até esse momento, o espaço aparecia apenas como um pano de fundo, a partir desse ponto passa para um dos primeiros planos, no momento de explicar as práticas e as relações sociais de um determinado grupo. Fica, assim, clara a noção de que todo o comportamento existe e é construído num espaço.

 

Porque os cenários físicos de uma sociedade são mais duradouros do que as sociedades em si, podemos inferir sobre um conjunto de relações sociais, políticas e económicas. Implícitos a todos estes aspectos estão o Tempo e o Espaço. Dois vectores inerentes à condição humana (assim como à dos restantes seres vivos).

 

Segundo Silva, num artigo intitulado “Espaços e sociedade: alguns elementos de reflexão”, no livro Relações sociais de espaço: homenagem a Jean Remy, de 2006, movimentamo-nos constante e, muitas vezes, involuntariamente entre estas duas esferas abstractas, mas que condicionam fortemente as nossas vivências. Por esse motivo, da mesma forma que a História – que representa o tempo – surge muitas vezes como suporte às ciências sociais, também o espaço, "sendo umas das propriedades materiais dos corpos físicos, constitui um outro [suporte], na medida em que situa e localiza o homem no seu meio (pp.185).

 

Assim, noções de casa, aldeia, ilha, país, são tanto espaciais quanto sociais. Reproduzem não só as relações sociais individuais, mas também testemunhos da memória colectiva em tudo o que esse conceito encerra (o percurso histórico, as suas adversidades e conflitos internos e externos, enfim, as suas vivências).

 

Se os espaços e lugares adquirem uma dimensão mais complexa do que a simples dimensão física, devido à marca que o Homem deixa nos seus espaços vitais e de transição, é natural que os grandes movimentos sociais fiquem também impressos nos lugares. Assim, não é de todo difícil associar um determinado lugar às múltiplas dimensões que reflectem a sua importância histórica, política, social e mesmo evidências de uma corrente estética.

 

Estas manifestações do espaço serão mais perceptíveis quando se recorre a elementos concretos e práticos, que passo a indicar:

 

- exemplo de um espaço de reflexo político e social: Paços do Concelho, Palácio do Povo;

 

- exemplo de um espaço de reflexo eminentemente de convívio aberto: Praça Nova, Rua de Lisboa, Pracinha da Igreja, lugares estratégicos e de encontro obrigatório para se saber as novidades do dia e da ilha, brincar o Carnaval e realizar bailes de Rua;

 

 - exemplo de um espaço de reflexo eminentemente social restrito: Café Portugal, Café Mindelo, Café Royal;

 

- exemplo de um espaço de reflexo eminentemente estético: Capitania dos Portos, Câmara Municipal, Alfândega Velha, Pelourinho de Peixe e de Verdura, Liceu Velho, Casa Senador Vera-Cruz, Cinema Eden-Park;

 

- exemplo de um espaço de reflexo eminentemente histórico e político: os Paços do Concelho, onde foi proclamada a República; a varanda do edifício da Câmara, onde Dr. Baltasar Lopes fez o discurso do 1.º de Maio de 1974; o Palácio do Povo, onde se apresentou as linhas estratégicas do Programa do Primeiro Governo, a 7 de Julho de 1975; a Alfândega, cujos armazéns forma arrombados pelo povo a 7 de Junho de 1934, na decorrência da revolta de Nhô Ambrôze (Ambrósio Lopes, Santo Antão, 1878 - S. Vicente, 25.Out.1946), o mítico Capitão Ambrósio.

 

Vejamos a aplicação prática destes conceitos como manifestações do espaço:

 

A Alfândega Velha de Diazá =» Espaço Difusor de Cultura

 

Fazendo parte de uma das zonas mais emblemáticas da Cidade, com uma população de pouco mais de 70 mil habitantes, a Velha Alfândega, situada na Avenida Marginal, no seguimento da Ponta-de-Praia, de frente para a Baía do Monte Cara, funcionou no tempo do carvão, dos ingleses e das grandes casas comerciais como um dos alvéolos mais importantes do pulmão da Província, que foi o Porto Grande do Mindelo.

 

Espera-se hoje que essa mesma Alfândega, que funcionou no passado como uma porta de entrada de produtos das mais diversas proveniências e qualidades, venha a ser – melhor, continue a ser – enquanto Centro Cultural, um ponto de atracção, de convergência e de difusão de produtos culturais nesta Cidade de tantas e tão ricas tradições!

 

Mindelo, Um Espaço Histórico =» Um Espaço Identitário

 

Numa coisa estamos todos de acordo: Mindelo é um espaço com tempo, ou melhor, com história e de muitas estórias, de que Manuel (Néna) Nascimento Ramos, (S. Vicente, 1913-2008), registou parte no seu livro Mindel D’Outrora, de 2003, e Germano Almeida sumariou na sua Viagem pela História de S. Vicente, em 2009.

 

Mindelo nasceu e viveu em função da posição geográfica e estratégica da sua ilha e da conjuntura internacional. Como cidade portuária, transformou-se, desde muito cedo, numa cidade cosmopolita, cruzando-se nas suas ruas pessoas das mais diversas nacionalidades, culturas e povos. Esse percurso histórico, as suas adversidades e conflitos internos e externos, enfim, as suas vivências, devem ser registadas e fixadas na memória colectiva dos mindelenses, sobretudo dos mais novos.

 

A Especificidade do Espaço da Cidade =» Um Estilo de Vida

 

As crónicas “Mosaico Mindelense”, do Poeta Sérgio Frusoni (S. Vicente, 1901-1975), e “Roupa de Pipi” e "Bom Senso", de João Cleófas Martins – Nhô Djunga Fotógrafo (S. Vicente, 1901-1970), lidas na Rádio Barlavento, nos idos de 60, de que as actuais crónicas “Storias Mindelenses d’ Soncent Cab Verde”, de José (Zizim) Figueira (S. Vicente, n. 1939), publicadas semanalmente n’O Liberal, são fiéis continuadoras, as coladeiras do trovador Manel d’Novas (Santo, Antão, 1938-2009) ou as estórias do escritor Germano Almeida (Boa Vista, n. 1945), sem desprimor para toda uma geração mais nova de compositores, como Valdemiro Ferreira (Vlú), Constantino Cardoso e Jorge Humberto, são verdadeiros frescos deste povo anónimo e heróico deste espaço, nas diferentes épocas, i. e., no seu tempo.

 

Ciente de que a cidade do Mindelo é uma fonte de inspiração para um número grande de escritores e poetas, trovadores e músicos, pintores e artesãos, a escritora Fátima Bettencourt e eu apresentámos um projecto de um livro que desse conta desses diferentes registos da história e da vivência artística e quotidiana que exaltam a Cidade do Porto Grande. Seria a nossa forma de marcar a efeméride dos 130 anos da elevação da Vila do Mindelo à categoria de Cidade (1879-2009). Infelizmente a proposta não vingou, mas é algo a que voltaremos um dia, caso encontremos patrocínio para isso.

 

Esta é também uma cidade de muitas figuras populares peculiares – Marí Salema, Rosa Crucundinha, Nh’Antónha d’Sulidad, Liza Manóbra, Xica d’Cucuta, Nha Laura, Nha Plóna, Nha Camila d'Café Cantante, Mari Leiteira, Scuík, Taivon, Ferron, Gril, Lela Pêzon, Mané Surd, Jôn Póp Sec, Mateus Tchaina, Nênê Malaguéta, Manin Strela, Lela d’Anton d’Ana, Ti Goy, Lira, Bissau, Camadónsa, Manê Badjuda, Guste Cavirinha, Scacarecs, Dulim,  August Slópe, Djósa d’Maderal, Taná d’Nhô Moxe, Xima, Nharibûl, Tunguinha, Tch’pî Morte, Clament Pertá Puxe, Pedre Comparaçom, Cacói, Lije Cabel, Ninaja, Três Cafê, C’mê Deus, Tchpá Dent e tantos outros – e de doentes mentais acarinhados pela população – Faná, Fanha, Pom-Pom-Queje-Queje, Fernand Pê d’Cabra, Lela Curica, Aibû

 

Esta tendência de alcunhas, tão mindelense, pressupõe a existência de estórias num espaço e num tempo próximo ou mais recuado. É assim que concebemos este Centro Cultural da Velha Alfândega como um espaço e – agora – um tempo, onde estas e outras figuras mindelenses podem ser perenizadas, através das obras, quer literárias quer dramáticas, quer de outra ordem no âmbito da Cultura.

 

Ver aqui a notícia "Centro Cultural do Mindelo tem novo Auditório"

 

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