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A Outra Bandeira de São Filipe

Brito-Semedo, 2 Mai 11

– Fausto do Rosário

 

Depois de se terem diluído o tropel dos cavalos e o burburinho da multidão presente no Alto de São Pedro, quando os passos se arrastam, doloridos, a caminho da casa, porém já ansiosos pelo ano seguinte, quando alguns grupos teimosamente se mantêm junto aos bares buscando um derradeiro gole de cerveja, quando algumas mãos se demoram um pouco mais nas outras, prolongando a despedida, depois de cinco dias de eternidade, quando outros, ainda, teimam em ir buscar as últimas forças para uma última ida ao Presídio e se julga estar consumada mais uma Festa de São Filipe, é tempo do cortejo das coladeiras e tamboreiros, desfraldando uma bandeira vermelha com os símbolos do santo, como se a festa começasse naquele momento, se dirigir ruidosa e euforicamente para uma casa de piso térreo situada no subúrbio de Lém: à porta, lado a lado, duas figuras de muitas bandeiras, incontornáveis da sua história, Jota-Jota e Nhônhô d’Ilda, aguardam-nos e, agitando o estandarte, convidam todos a entrar para mais uma Bandera’l Praia São Filipe, de há anos a esta parte patrocinada por estas duas personalidades.

 


A mesa é simples como convém numa bandeira deste tipo, apenas “xerem” com toucinho e, depois o prato característico, caldo de bode com “cuzcuz”. Não há hierarquias, cada um se senta onde pode, a maioria fica de pé. Mas há uma alegria genuína, um sentimento de partilha e de comunhão, únicos, nesta festa simples, rememorativa dos tempos da escravatura em que ao negro forro e a restante criadagem era permitido ter também a sua bandeira. Todavia, não a podendo celebrar na casa grande, só podiam faze-lo no único espaço possível: a praia de mar. Daí a designação.

 

 

 

Foi ali que este ano, também fui encontrar uma das mais queridas e inesquecíveis figuras das bandeiras do Fogo: Daniel Alves, Nhô Sopa, colador extraordinário que hoje, vergado pela idade, já não pode calcorrear, como outrora fazia, as calçadas da cidade ou pisar a areia do Alto de São Pedro. Todavia, nos breves momentos em que na sala minúscula de “cá Nhônhô d’Ilda” deixou sair a voz, flutuando sobre o toque ritmado dos tambores comandados por Valdomiro, acompanhado do “baxom” cadenciado de Idalina, Maria Tchuneta e Budjodja, percebi que não há palavras que possam exprimir todo o reconhecimento por tudo o que tenho recebido deste povo simples e nobre, desta gente que transforma a dura labuta de uma vida diária num acto pleno de alegria. Resta-me, apenas, dizer obrigado!

 

 

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