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A Irreverência de Tchalê Figueira

Brito-Semedo, 10 Mai 11

  

Cerimónia de apresentação do livro: Filinto Elísio, Tchalê Figueira, Giordano Custódio (Editor) e Brito-Semedo. Foto Verónica Ramos Oliveira, Praia FM2 - Rádiu Kultura

 

 

1. As Motivações para a Apresentação dos Contos de Basileia

 

A minha relação de amizade com o Tchalê vem de diazá na mund, sendo praticamente da mesma idade (por sinal, eu pouco mais de um ano mais velho), vivendo ambos nas imediações da Praça Estrela, eu, na Chã de Cemitério, ele, na Rua da Praia de Bote, circulando nós pelos mesmos sítios e participando das mesmas brincadeiras e traquinices. Uma coisa que só vim a descobrir, mas muito mais tarde, é que o Carlos Alberto Silva Figueira “roubou-me” a minha professora querida da 1.ª e 2.ª classes, a Menina Lourdes de Matos Serradas, colocada no ano seguinte na Escola Camões, de quem já falei em outras ocasiões. Ai que inveja!...

 

É essa amizade, que retomámos já adultos, cerca de 30 anos depois, que fez com que o Tchalê, generosamente, se dispusesse a fazer as ilustrações do meu livrinho de Crónicas de Diazá (2009), dedicado à minha Mãe.

 

Com base nesta nossa relação de amizade e em afinidades culturais, o Tchalê e eu falámos, aqui há tempos, na ideia ­da criação de uma associação, cuja sigla será “ASBA 50” – “Associação da Safra Boa dos Anos 50”. A dificuldade que temos estado a enfrentar é a de nos encontrarmos para, juntos, definirmos os critérios de admissão. Avanço já os de inteligência, independência de pensamento, sensibilidade, charme e bom gosto.

 

Cerimónia de apresentação do livro: Filinto Elísio, Tchalê Figueira, Giordano Custódio (Editor) e Brito-Semedo. Foto M. Catela
 

 

A esta altura, penso já ter dado razão mais do que suficiente que justifique eu estar aqui, ao lado do poeta Filinto Elísio, neste acto de partilha e de apresentação dos Contos de Basileia. Mas há outro motivo, que é uma aparente incompatibilidade de funções: o facto do compadre e amigo do autor, Mário Lúcio Sousa, seu apresentador natural, por ter estado envolvido na revisão dos textos como rewriter, ser agora Ministro da Cultura. É que nós do “ASBA 50” preservamos a amizade acima de tudo e achamos que “uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa”! Nada de “confusães”, como diria um sclôck de SonCent do nosso tempo.

 

Quanto à “compadragem” e não “compadrio”, mantenho a esperança de o Tchalê e eu virmos a ser compadres, mas compadres-avós, porque a idade já não dá para mais – de mim falo, claro – para ganhar direito à apresentação de um novo livro!

 

Adiante! Vamos aos contos, que é para isso que eu cá estou! E vou abordá-lo nestas três perspectivas: o conto: o género, o Eu de enunciação e o tipo de linguagem; a Cidade de Basileia: o espaço e o tempo; e as mulheres: as incendiárias do coração, enquanto personagens das estórias.

 

Impõe-se, antes de mais, fazer uma breve referência à pessoa do Autor.

 

O artista plástico Tchalê Figueira, nascid e criód na Rua da Praia de Bote da cidade do Mindelo e cidadão do mundo, é, para além de pintor, poeta e ficcionista, tendo já editado Todos os Naufrágios do Mundo (1992), Onde os Sentimentos se Encontram (1998) e O Azul e a Luz (2002), poesia; Solitário (2005), Ptolomeu e a sua Viagem de Circum-Navegação (2005) e, agora, Contos de Basileia (2011), ficção.

 

Cerimónia de apresentação do livro: Tchalê Figueira e Brito-Semedo.
 Foto Verónica Ramos Oliveira, Praia FM2 - Rádiu Kultura

 

3. A Cidade de Basileia – O Espaço e o Tempo

 

A década de 70 foi a época em que aconteceu a crise do petróleo, o que levou os Estados Unidos à recessão, ao mesmo tempo em que economias de países, como o Japão, começavam a crescer. Nesta época, surgia também o movimento da defesa do meio ambiente e um crescimento das revoluções de comportamento da década anterior. Muitos a consideram a "era do individualismo". Eclodiam nesta época os movimentos musicais do Rock and Roll, das discotecas e, também, do experimentalismo na música erudita.

 

É, pois, no início desta década, “imberbe e loiro”, com apenas vinte anos, que o Autor se instala em Basileia, a terceira maior cidade da Suíça, depois de Zurique, o centro financeiro do país, e de Genebra, a capital da República, com uma população hoje de cerca de 170 000 habitantes, considerada a sua capital cultural.

 

“Descortina-se uma Basileia cosmopolita, com exilados de várias partes do mundo. Estão lá peruanos, turcos, brasileiros, colombianos, nigerianos e outros que compartilham suas experiências nas lutas contra o imperialismo, marcas de uma época de utopias”, como se pode ler do Prefácio dos Contos, de Ricardo Riso (p. 7).

 

Germano Almeida é quem, no Prefácio de Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação (2005), nos leva a imaginar a vida desse jovem, que emigra nos anos 70 para a Europa e se faz homem nesse ambiente de Basileia:

 

“Imagine-se, pois, o deslumbramento e as possibilidades de um jovem ilhéu curioso e irreverente, de repente saído de um meio de repressão familiar, social e política para se confrontar para um mundo onde tudo é permitido em termos de liberdade de cultivar e exprimir e inventar, não sem riscos de qualquer sanção, mas, pelo contrário, acarinhado com desvelo, quer pelo público quer pelos poderes” (p. 6).

 

É o Silva, o narrador/personagem, que melhor exprime o seu estado:

 

“Temos ambos vinte anos uma libido em chamas e a pequena Basileia lado proletário da cidade como o nosso território de caça” (p. 57).

 

Um dos grandes méritos destes Contos de Basileia é o facto de registar aspectos das vivências da diáspora caboverdiana lá na terra longe. A literatura caboverdiana não dá conta deste particular. Compreende-se, até certo ponto, esta falha na nossa literatura, que se justifica, por um lado, por a nossa emigração ser, na sua grande maioria, constituída por homens trabalhadores e não por homens de pena e, por outro, ser preciso uma certa distância física e temporal para se reflectir sobre os factos e as vivências e decantá-las, para se poder produzir arte, quer seja literatura, pintura ou música.

 

4. As Mulheres – As Incendiárias de Coração

 

Nestes contos, dez ao todo, as personagens femininas são marcantes. Chamam-se Bárbara, Cristina, Zola, Bia, Feli, Brigite, Rita, Flora, Liza, Cláudia, Zoe, Kristel, Rachel, Marta. São bonitas, inteligentes, cultas, bibliotecárias, artistas, suíças, espanholas, caboverdianas, americanas. Estas mulheres, cada uma à sua maneira, irão incendiar o coração do jovem Silva e ensinar-lhe a amar, a deslumbrar-se com artistas de renome no domínio das artes plásticas e da literatura latino-americana, a tomar contacto com a música clássica e o jazz, a apreciar o champanhe e o bom vinho, a degustar novos pratos, enfim, a abrir os seus horizontes e a refinar os seus gostos, numa palavra, essas mulheres são as responsáveis, directas ou indirectas, pelo seu desenvolvimento intelectual e cultural.

 

Respigo pequenos trechos, em jeito de trailer, que ilustram o que acabo de afirmar (tchantachantchantachan):

 

“Estou deitado com a Barbara numa cama estilo século XVIII e estamos a ler os dois o mesmo livro (…) de Jorge Luís Borges numa tradução em alemão ela e eu na língua original do grande mestre Argentino.

(…) Finalmente concluo deslumbrado a incrível descrição que Borges faz (…) coloco o livro na banca da cabeceira e com o coração a bater rodo lentamente à procura dos olhos da Barba que tem a tonalidade azul do mar do mar de Cabo Verde.

(…) Continuamos a conversa mas de repente o diálogo azeda. (É sempre igual estou farto destas discussões patéticas que se repetem cada vez que falamos sobre literatura)” (pp. 13-15).

 

“ – Queres algo Silva! “ – Uma cerveja Rita”. Dirige-se à cozinha (…) enquanto cita uma máxima alemã. “Se beberes primeiro cerveja podes logo beber vinho. Mas se beberes vinho antes nunca bebas cerveja depois”.

(…) Regressa (…) carrega uma garrafa de champanhe num balde de prata repleto com cubos de gelo e entre seus dedos finos e longos dois copos. Convida-me para abrir a garrafa por instantes fico sem jeito… mas como não sou pateta solto o arame da garrafa saco a rolha e abro a coisa.

(…) Molhando os lábios poisa lentamente o seu copo na mesa e vai à aparelhagem por música. Merda!... Ópera!... Odeio!... (…) Não sei porquê mas momentos depois começo a “gostar” da música.

(…) Sábia vendo-me morto de vergonha abraça-me com carinho e suspira: “Vem… vem aos meus braços meu mulato cheirando a leite. Dá-me a tua mão e sente” (pp. 68-69).

 

“Num ápice de resignação afirmo que eu não gosto de jazz e ah pois ela separa o seu corpo do meu levanta-se da cama sem dizer palavra e vai ao estéreo por um disco que escolhe entre muitos outros que cobrem uma das paredes do quarto. “ – Esta aqui é música Silva!... Escuta-me com atenção e depois comenta”. (…) “ – Mas… É maravilhosa Cláudia! Nunca pensei que fosse tão próximo de mim…” (p. 96).

 

“Agradeço com um beijo de malandro (…) e casualmente mirando para a esquerda vejo o romance de Alejo Carpentier El Siglo de las luces e digo-lhe comovido: “ – Caramba! Há tempos que desejo ler este livro mulher!” Solto-a e agarro o romance com entusiasmo (…). “ – Obrigado minha linda… é de facto uma grande surpresa” (p. 105).

 

Façam o favor de ler o resto em casa, que a minha função aqui é de apenas criar o gosto pela leitura destes contos!

  

5. Deixo para o final uma nota e uma referência ao livro, enquanto objecto de arte.

 

Tchalê.jpeg

A Dada Editora, surpreende neste seu segundo livro – o primeiro foi A Sexagésima Sétima Curvatura, do Poeta Oswaldo Osório, editado em 2008 – pela inovação e ousadia gráfica, introduzindo as assimetrias na arrumação dos textos e nas ilustrações e alterando a própria dimensão do livro, criando um todo moderno e de agradável apresentação visual. Felicito, por isso, o Designer Gráfico, Edson Custódio, pela leitura feliz e interpretação visual do conteúdo da obra. Parabéns ao Autor e à Dada Editora e votos dos melhores sucessos!

 

Termino convidando-os a que deixem que o Tchalê Figueira os leve em excursão a visitar Basileia, não para incendiarem os corações (não ponham na minha boca palavras que eu possa ter pensado, mas não disse), mas a lerem os Contos de Basileia!

 

Compadres Tchalê e Filinto, posto isto, vamos ao Bar “Boca de Tubarão”, na Rua da Praia de Bote, celebrar com um bom grog! Paga o Tchalê, que deve ter lá crédito!

 

- M. Brito-Semedo

 

Título: Contos de Basileia

Autor: Tchalê Figueira

Editora: Dada Editora

Edição: 2011

Conferir aqui a notícia saída na TCV.

 

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