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Humor com Sabor a… Brocklax

Brito-Semedo, 18 Mai 11

 

 

Nos anos 60, feito o exame do 2.º grau, era dzid-e-sabid[1] que o caminho a ser seguido pelos­ fidjes-de-pobréza[2] era aprender um ofício e preparar-se para uma profissão. Os filhos dos mais remediados iam para o Liceu Gil Eanes e alguns outros, de pais pouco-mais-ou-menos, para a Escola Técnica, havendo, contudo, algumas excepções.

 

Desses filhos-de-pobréza, as meninas eram tomadas como aprendizas para as casas de corte e costura e oficinas de alfaiataria da Morada. Do Sr. Alberto Madeirense e esposa, D. Conceição, na Rua João Machado; da D. Maria Amélia Miranda, na rua que desce para a Praça Nova; do Sr. Lilim, da Brava, junto do Café Portugal, apenas para me referir aos mais conhecidos. Para além da arte de costurar, as meninas também aprendiam a arte de fazer bolos e de os enfeitar e todos os ornamentos das noivas e acompanhantes – vestidos de noivas e damas de honor, luvas – e flores (em cetim) de noivas, damas, baptizados e funerais.

 

Os rapazes, esses, iam como aprendizes para as oficinas de artes e ofícios. Verdade seja dita, para eles, as ofertas eram mais diversificadas e para todos os gostos e inclinações, havendo sempre uns mais buldónhes[3] que outros.

 

As opções eram as oficinas navais de serralheiro-mecânico, torneiro, bate-chapa e soldador, de Wilson, na zona do Dji d’Sal, lá para as bandas da Cova d’ Inglésa, e do Mestre Cunco (Teodoro Gomes, de seu nome), na Pontinha, no outro extremo da cidade; as oficinas de manutenção das máquinas das companhias Millers & Corys e da Shell, para os lados da Craca, junto ao mar, da Fábrica Favorita, na Chã de Cemitério, da Fábrica de Tabaco, no alto do Quartel Militar, junto à Escola Nova, da Padaria Jonas Whanon, no Largo John Miller, e da Central Eléctrica, na Rua Judice Bicker, do outro lado da Pracinha d’ Dotóra; havia as oficinas de funilaria como a Oficina de Jôm Fliner, na Rua Daluz; as oficinas da Escola Salesiana, situadas nas traseiras do Hospital, nas imediações do Lombo e da Ribeira Bote, vocacionadas, sobretudo, para a carpintaria e para a marcenaria; a Fábrica de Calçados, dos irmãos Pereira, na pequena rua para quem sobe o Tribunal, desembocando no largo do Palácio, para além da oficina de sapataria do Damata, que se deslocava em cadeira de roda; a Tipografia S. Vicente, do Sr. Fia, fazendo esquina com esse largo do Palácio, a Editora Nazarena, por trás da Praça Nova, em direcção ao Fonte Cutú, e da Gráfica do Mindelo, do Sr. Ricardino Vasconcelos, no Alto Mira Mar. Para além dessas, havia várias outras oficinas mais pequenas e avulsas de mecânica, ferragem, funileiro, carpintaria, marcenaria e sapataria, nas zonas suburbanas e fraldas da cidade.

 

Dinheiro podia escassear, mas ocupação era o que não faltava para essa trupida de mnîs fidjes-de-pobréza.

 

Quando entrei para a Editora Nazarena, em 69, na mesma altura que o Rénas (Renato Cardoso), juntamente com o Carlos (Ramos), o Júlio, o Pedrinho (do Rosário), acabado de sair da tropa, e o Daniel (Medina), havia já a onda de emigração para a Holanda, mas ainda lá estavam a trabalhar o Cecílio, das máquinas de impressão, o Armando, da encadernação, talvez o mais buzód[4]de todos, que emigraria pouco tempo depois, o Lourenço (Lencha), da máquina varityper, aparentemente o mais sorna de todos, mas nem por isso menos buzód, o Eurico, da composição, e o Djô, o guarda, simplório, fazendo vez de m’nine de mandód[5], vítima das muitas pirraças[6] desses rapazes. O Samuel (Barros) acabara de sair para entrar para o Seminário Nazareno e os mais antigos como o Humberto de Nhô Djack já tinham emigrado e outros como o Manel, o mais velho de todos, que morava no caminho para a Ribeira do Julião, na casa mesmo ao lado do Cemitério dezoito-dois-oito (1888)[7], tinham passado para a recém criada Gráfica do Mindelo, no Alto Mira Mar. Mas as muitas estórias e pirraças prevaleciam institucionalizadas e muitas delas eram debitadas vezes sem conta a nós outros mais novos.

 

Contavam que, certa vez decidiram dar brocklax (um laxante usado para a prisão de ventre, com a forma e a cor de chocolate) ao Djô. Distribuindo-o entre si, como se de chocolate se tratasse, fingiram que o comiam e ofereceram um quadradinho ao Djô. Manhento, este, comeu o seu e pediu mais. Todos ficaram atentos à espera de ver os resultados. Daí a instantes, era um vai-e-vem à casa de banho que, às tantas, já sem forças, o infeliz percebeu que o que lhe tinham dado a comer não era chocolate e foi disparado fazer queixas ao Director. Este, um antigo Administrador Civil de falas sérias, passou um grande raspanete aos engraçadinhos. Durante uma semana, o Djô esteve zangado com o grupo, apesar de todas as tentativas dos rapazes para amenizar a situação.

 

Retomada a normalidade, Manel, o mais velho do grupo, garantiu que, a ele, é que nunca iriam fazer coisa igual. O Lencha, malandréc, foi quem teve a ideia, a que todos aderiram. Alguns dias depois, meteram broclax numa lata de sumo Compal e pediram a um funileiro que voltasse a soldar tudo direitinho. Sem desconfiar de nada, o Manel bebeu o seu sumo e... foi um Deus nos acuda! Ficou tão sxtremontód[8] dos intestinos e com tantas cólicas, que teve que permanecer dois dias retido em casa, sentód na lata[9], a restabelecer-se. Os próprios rapazes assustaram-se com os efeitos da brincadeira, pois perceberam que tinham exagerado na dose, mas ninguém se descoseu…

- M. Brito-Semedo

 


[1] Dito e sabido.

[2] Filhos da pobreza, filhos das pessoas com poucos recursos financeiros.

[3] Engenhosos, habilidosos, "gaje capaz de dá na tude cosa".

[4] Abusado, gozão.

[5] Rapaz de recados, paquete.

[6] Troça, gozo, partidas.

[7] O cemitério era assim conhecido devido ao ano em que foi inaugurado, 1888, número esse que até hoje ostenta no cimo do portão de ferro de entrada.

[8] Desarranjado, desorganizado.

[9] Como não havia um sistema de fossas sépticas ou outro de esgoto, as casas de banho tinham, normalmente, uma lata das de tinta ou de petróleo de 20 litros, para onde era feito o despejo e depois transportado à cabeça para para uma sentina, colocada no extremo do “caizinho”, lá para as bandas do Millers & Corys. Daí a expressão “sentá na lata” (sentar na lata).

 

 

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