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Foto Neu Lopes, Blogue Boca de Tubarão

 

Feliz coincidência esta de o Tchalê fazer a apresentação dos Contos de Basileia no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas neste espaço emblemático, que é a Réplica da Torre de Belém. Maior coincidência ainda é o facto de, neste dia, se assinalar também o nascimento de um dos nossos grandes poetas, o santantonense Januário Leite (Paúl, 1865-1930), cultor do soneto, considerado a encarnação da alma poética caboverdiana”. O que já não é coincidência é a escolha do lugar, a Ponta de Praia, que, a meu ver, é uma grande homenagem às suas gentes.

 

Esta Rua da Praia é, no dizer de Joaquim Saial, “o coração mais genuíno da cidade do Mindelo”. Já foi sítio de catraeiros, de lojas de aprestos marítimos, de vendedeiras de fruta e legumes, de botequins típicos com cheiro a grogue, a peixe frito e a tabaco (cigarro smart, negrita e falcão, tabaco de mascar, de cheirar e mesmo sirê), pescadores e seus botes, plurim d'pêxe, contrabandos vários, patifes de navalha afiada e também muita gente boa.

 

A Rua da Praia, a praia da cidade onde, de facto, ninguém toma banho, começa na Marina/Ponte d’Água e acaba aqui, na Réplica da Torre de Belém ou, baralhando os tempos e as toponímias, a Rua da Praia de Bote começa na ponta do Cais da Alfândega e acaba aqui, na Capitania, ou ao contrário, começa aqui na ponta do Capitania e acaba no Cais da Alfândega.

 

“A Praia de Bote sempre me fascinou com suas estórias e suas riolinhas. Passava ali devagarinho, para poder desfrutar do que contavam, imaginando os factos, no espaço e no tempo, como se fosse eu o protagonista porque assim tinha mais piada”. Gostava de ter podido expressar o meu sentir desta forma bonita, mas o escrito é de um outro mnine de Tchã de Cemitêr, mais velho que eu, Valdemar Pereira ou Val de Nhô Hermínio de Telegraph.

 

Neste local e neste fim-de-tarde ou de boquinha-da-noite, mesmo ao lado da estátua de Diogo Afonso, o navegador português descobridor da ilha, convido-vos a recuar à origem das coisas, à nossa, a do Tchalê Figuêra e minha, à nossa mninénsa, melhor, aos anos 50/60, antes de vos falar dos Contos de Basileia.

 

A minha relação de amizade com o Tchalê vem de diazá na mund, sendo praticamente da mesma idade (por sinal, eu pouco mais de um ano mais velho), vivendo ambos nas imediações da Praça Estrela, eu, na Chã de Cemitério, ele, nesta Rua da Praia de Bote, circulando nós pelos mesmos sítios e participando das mesmas brincadeiras e traquinices. Uma coisa que só vim a descobrir, mas muito mais tarde, é que o Carlos Alberto Silva Figueira “roubou-me” a minha professora querida da 1.ª e 2.ª classes, a Menina Lourdes de Matos Serradas, colocada no ano seguinte na Escola Camões, de quem já falei em outras ocasiões. Ai que inveja!...

 

É essa amizade, que retomámos já adultos, cerca de 30 anos depois, que fez com que o Tchalê, generosamente, se dispusesse a fazer as ilustrações do meu livrinho de Crónicas de Diazá (2009), dedicado à minha Mãi Xanda.

 

Foto Tchalê Figueira

 

Com base nesta nossa relação de amizade e em afinidades culturais, o Tchalê e eu falámos, aqui há tempos, na ideia ­da criação de uma associação, cuja sigla será “ASBA 50” – “Associação da Safra Boa dos Anos 50”. A dificuldade que temos estado a enfrentar é a de nos encontrarmos para, juntos, definirmos os critérios de admissão. Avanço já os de inteligência, independência de pensamento, sensibilidade, charme e bom gosto.

 

A esta altura, penso já ter dado razão mais do que suficiente que justifique eu estar aqui neste acto de partilha e de apresentação dos Contos de Basileia.

 

Adiante! Vamos aos contos, que é para isso que eu cá vim! E vou abordá-lo nestas três perspectivas – o conto: o género, o Eu de enunciação e o tipo de linguagem; a Cidade de Basileia: o espaço e o tempo; e as mulheres: as incendiárias do coração, enquanto personagens das estórias.

 

Impõe-se, em situações destas, fazer uma referência, ainda que breve, à pessoa do Autor. Neste caso é dispensável mas, como está no guião, vou ter de seguir o script.

 

O artista plástico Tchalê Figueira, nascid e criód na Rua da Praia de Bote da cidade do Mindelo e cidadão do mundo, é, para além de pintor, poeta e ficcionista, tendo já editado Todos os Naufrágios do Mundo (1992), Onde os Sentimentos se Encontram (1998) e O Azul e a Luz (2002), poesia; Solitário (2005), Ptolomeu e a sua Viagem de Circum-Navegação (2005) e, agora, Contos de Basileia (2011), ficção.

 

O Conto – O Género, o Eu de Enunciação e o Tipo de Linguagem

 

Segundo Edgar Allan Poe (1809-1849), o primeiro teórico do género “conto”, citado por Edgard Cavalheiro na introdução de Maravilhas do conto universal, publicado em 1958: "Temos necessidade de uma literatura curta, concentrada, penetrante, concisa, ao invés de extensa, verbosa, pormenorizada… É um sinal dos tempos… A indicação de uma época na qual o homem é forçado a escolher o curto, o condensado, o resumido, em lugar do volumoso".

 

Nestes Contos de Basileia, em resposta ao sinal dos tempos, que exigem “uma literatura curta, concentrada, penetrante e concisa”, Tchalê Figueira produz um texto em que a personagem principal, Silva, conta a sua história. Sendo este um narrador que se limita ao saber de si próprio, fala da sua própria vivência, confundindo-se, porém, com a vivência do autor, que existe fora da obra e tem uma identidade e vida próprias. Fica, pois, por vezes, difícil fazer a distinção entre a realidade e a ficção.

 

Fruto das suas vivências e convicções pessoais, Tchalê Figueira, aproximando-se da casa dos 60 anos, na versão 5.7, homem maduro e com um percurso invejável de artista, dá-se ao luxo de ser irreverente e de dizer o que pensa sem meias palavras. São assim estes Contos, onde, em linguagem forte e, de certa forma, erótica, aliás como faz nas suas pinturas, dedica à “Cidade de Basileia e a todas as mulheres, naquela cidade, que incendiaram o meu coração com Amor, Arte e Sabedoria”.

 

Nestes Contos de Basileia, Tchalê Figueira monta as suas estórias em três grandes paixões: as mulheres, as artes plásticas e a literatura, o que não quer dizer que tenha que ser por esta ordem.

 

Há coisas que só a idade permite, como essa de falar de mulheres, dos amores da juventude, das brigas, dos excessos, das extravagâncias e das irresponsabilidades.

 

A Cidade de Basileia – O Espaço e o Tempo

 

Antigo Centro da Cidade de Basileia

 

A década de 70 foi a época em que aconteceu a crise do petróleo, o que levou os Estados Unidos à recessão, ao mesmo tempo em que economias de países, como o Japão, começavam a crescer. Nesta época, surgia também o movimento da defesa do meio ambiente e um crescimento das revoluções de comportamento da década anterior. Muitos a consideram a "era do individualismo". Eclodiam nesta época os movimentos musicais do Rock and Roll, das discotecas e, também, do experimentalismo na música erudita.

 

É, pois, no início desta década, “imberbe e loiro”, como soe dizer, com apenas vinte anos, que o Autor se instala em Basileia, a terceira maior cidade da Suíça, depois de Zurique, o centro financeiro do país, e de Genebra, a capital da República, com uma população hoje de cerca de 170 000 habitantes, considerada a sua capital cultural.

 

“Descortina-se uma Basileia cosmopolita, com exilados de várias partes do mundo. Estão lá peruanos, turcos, brasileiros, colombianos, nigerianos e outros que compartilham suas experiências nas lutas contra o imperialismo, marcas de uma época de utopias”, como se pode ler do Prefácio dos Contos, de Ricardo Riso (p. 7).

 

Germano Almeida é quem, no Prefácio de Ptolomeu e a sua viagem de circum-navegação (2005), nos leva a imaginar a vida desse jovem, que emigra nos anos 70 para a Europa e se faz homem nesse ambiente de Basileia:

 

“Imagine-se, pois, o deslumbramento e as possibilidades de um jovem ilhéu curioso e irreverente, de repente saído de um meio de repressão familiar, social e política para se confrontar para um mundo onde tudo é permitido em termos de liberdade de cultivar e exprimir e inventar, não sem riscos de qualquer sanção, mas, pelo contrário, acarinhado com desvelo, quer pelo público quer pelos poderes” (p. 6).

 

É o Silva, o narrador/personagem, que melhor exprime o seu estado:

 

“Temos ambos vinte anos uma libido em chamas e a pequena Basileia lado proletário da cidade como o nosso território de caça” (p. 57).

 

Um dos grandes méritos destes Contos de Basileia é o facto de registar aspectos das vivências da diáspora caboverdiana lá na terra longe, de uma maneira geral ausente na literatura caboverdiana. Compreende-se, até certo ponto, esta falha na nossa literatura, que se justifica, por um lado, por a nossa emigração ser, na sua grande maioria, constituída por homens trabalhadores e não por homens de pena, e por outro, ser preciso uma certa distância física e temporal para se reflectir sobre os factos e as vivências e decantá-las, para se poder produzir arte, quer seja literatura, pintura ou música.

 

As Mulheres – As Incendiárias do Coração

 

Nestes contos, dez ao todo, as personagens femininas são marcantes. Chamam-se Bárbara, Cristina, Zola, Bia, Feli, Brigite, Rita, Flora, Liza, Cláudia, Zoe, Kristel, Rachel, Marta. São bonitas, inteligentes, cultas, bibliotecárias, artistas, suíças, espanholas, caboverdianas, americanas. Estas mulheres, cada uma à sua maneira, irão incendiar o coração do jovem Silva e ensinar-lhe a amar, a deslumbrar-se com artistas de renome no domínio das artes plásticas e da literatura latino-americana, a tomar contacto com a música clássica e o jazz, a apreciar o champanhe e o bom vinho, a degustar novos pratos, enfim, a abrir os seus horizontes e a refinar os seus gostos, numa palavra, essas mulheres são as responsáveis, directas ou indirectas, pelo seu desenvolvimento intelectual e cultural.

 

Respigo pequenos trechos, em jeito de trailer, que ilustram o que acabo de afirmar (tchantachantchantachan):

 

“Estou deitado com a Barbara numa cama estilo século XVIII e estamos a ler os dois o mesmo livro (…) de Jorge Luís Borges numa tradução em alemão ela e eu na língua original do grande mestre Argentino.

(…) Finalmente concluo deslumbrado a incrível descrição que Borges faz (…) coloco o livro na banca da cabeceira e com o coração a bater rodo lentamente à procura dos olhos da Barba que tem a tonalidade azul do mar do mar do mar de Cabo Verde.

(…) Continuamos a conversa mas de repente o diálogo azeda. (É sempre igual estou farto destas discussões patéticas que se repetem cada vez que falamos sobre literatura)” (pp. 13-15).

 

“ – Queres algo Silva! “ – Uma cerveja Rita”. Dirige-se à cozinha (…) enquanto cita uma máxima alemã. “Se beberes primeiro cerveja podes logo beber vinho. Mas se beberes vinho antes nunca bebas cerveja depois”.

(…) Regressa (…) carrega uma garrafa de champanhe num balde de prata repleto com cubos de gelo e entre seus dedos finos e longos dois copos. Convida-me para abrir a garrafa por instantes fico sem jeito… mas como não sou pateta solto o arame da garrafa saco a rolha e abro a coisa.

(…) Molhando os lábios poisa lentamente o seu copo na mesa e vai à aparelhagem por música. Merda!... Ópera!... Odeio!... (…) Não sei porquê mas momentos depois começo a “gostar” da música.

(…) Sábia vendo-me morto de vergonha abraça-me com carinho e suspira: “Vem… vem aos meus braços meu mulato cheirando a leite. Dá-me a tua mão e sente” (pp. 68-69).

 

“Num ápice de resignação afirmo que eu não gosto de jazz e ah pois ela separa o seu corpo do meu levanta-se da cama sem dizer palavra e vai ao estéreo por um disco que escolhe entre muitos outros que cobrem uma das paredes do quarto. “ – Esta aqui é música Silva!... Escuta-me com atenção e depois comenta”. (…) “ – Mas… É maravilhosa Cláudia! Nunca pensei que fosse tão próximo de mim…” (p. 96).

 

“Agradeço com um beijo de malandro (…) e casualmente mirando para a esquerda vejo o romance de Alejo Carpentier El Siglo de las luces e digo-lhe comovido: “ – Caramba! Há tempos que desejo ler este livro mulher!” Solto-a e agarro o romance com entusiasmo (…). “ – Obrigado minha linda… é de facto uma grande surpresa” (p. 105).

 

Façam o favor de ler o resto em casa, que a minha função aqui é de apenas criar o gosto pela leitura destes contos!

 

Deixo para o final uma nota e uma referência ao livro, enquanto objecto de arte.

 

A Dada Editora, surpreende neste seu terceiro livro – o primeiro foi A Sexagésima Sétima Curvatura, do Poeta Oswaldo Osório, editado em 2008 – pela inovação e ousadia gráfica, introduzindo as assimetrias na arrumação dos textos e nas ilustrações e alterando a própria dimensão do livro, criando um todo moderno e de agradável apresentação visual. Felicito, por isso, o Designer Gráfico, Edson Custódio, pela leitura feliz e interpretação visual do conteúdo da obra. Parabéns ao Autor e à Dada Editora e votos dos melhores sucessos!

 

Termino convidando-os a que deixem que o Tchalê Figueira os leve em excursão a visitar Basileia, não para incendiarem os corações (não ponham na minha boca palavras que eu possa ter pensado, mas não disse), mas a lerem os Contos de Basileia!

 

Posto isto, vamos ao botequim “Boca de Tubarão”, mesmo aqui ao lado, celebrar com um bom grogue de santanton! Paga o Tchalê, que deve ter lá crédito!

- M. Brito-Semedo

 

Título: Contos de Basileia

Autor: Tchalê Figueira

Editora: Dada Editora

Edição: 2011

 

 

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'PORFesta', Acontece... na Praia

Brito-Semedo, 10 Jun 11

 

 

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