Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Dia do Pai, Saudades do Velho!

Brito-Semedo, 19 Jun 11

Por Álvaro Ludgero Andrade, Jornalista

 

Hoje é Dia do Pai, nos Estados Unidos, onde me encontro, e em vários outros lugares. Republico aqui um post que escrevi há três anos por ocasião do dia de aniversário do meu pai, caso ele estivesse vivo. Uma homenagem!

 

20 de Novembro de 1915, nascia o meu pai, Álvaro Barbosa Andrade, em Cabeça de Carreira, Santa Catarina. Quando vim ao mundo ele tinha 48 anos e, portanto, não pude aprender com ele a nadar, como aconteceu com os meus irmãos Lidia e David, ou jogar futebol, que ele tanto sabia, como me contaram alguns amigos dele. Por ser um defesa inultrapassável, ele ganhou a alcunha de "Tubarão".

 

Álvaro Barbosa Andrade

 

Na minha adolescência, senti o peso da sua forte presença na educação e formação do meu carácter, mas quando regressei dos estudos no exterior, com 22 anos, ele já se tinha reformado. Olhando para trás, gostaria de ter compartilhado mais tempo com ele na infância, na adolescência e na juventude. Uma lição que aprendi e que procuro, a todo o custo, colocar em prática com os meus filhos.

 

Aqueles que nos conhecem, dizem que me pareço muito com o meu pai, tanto no físico, como em determinados aspectos da minha personalidade, o que para mim é um "orgulho". Gosto muito dele e tenho guardado algumas lembranças que me deixaram profundas marcas.

Nununo, como era conhecido pelos mais próximos, era o humor em pessoa. Para ele, o humor era um estilo de vida e não um simples momento alegre ou de contar anedotas.


A frontalidade era uma das suas principais características. Nunca o vi mudar de opinião devido às transitórias circunstâncias da vida. Talvez o tenho feito – quem não o faz!!?? – mas a memória que tenho dele é de uma pessoa cuja palavra era mais importante do que a posição social, conta bancária ou pretensões.

 

Álvaro, Isaura (esposa) e Alvarito Andrade


Nununo sabia entender as pessoas, via na alma, dizem alguns. Às vezes a paciência não abundava – que o digam a Lidia, o David e a suas pernas –, mas no meu caso, talvez devido à idade avançada, encontrei nele alguém que me entendia, embora não estivesse sempre de acordo. Muitas vezes batemos de frente em conversas sobre política, futebol e religião.


Por exemplo, engoliu a seco a minha opção pelo jornalismo e não poucas vezes me pediu que tivesse cuidado, principalmente na cobertura de assuntos políticos. Quando critiquei a invasão do Panamá pelos Estados Unidos, em 1999, ele ouviu da boca do cônsul americano que eu nunca entraria no país. Outra vez, mostrou-se preocupado, mas nada mais.


Os seus colegas, principalmente os mais novos, sempre encontraram nele um amigo, um conselheiro. As conversas eram longas, mas produtivas, segundo me contaram alguns. E, ao contrário do que acontece, os jovens gostavam de estar junto dele e como sempre o futebol era o cartão de visita para um bate-papo.

 

Poderia escrever páginas e páginas de recordações do meu pai, mas vou deixar aqui apenas duas referências que considero marcantes. Em Outubro de 1999, eu estava em Moçambique e ele adoeceu. Nesse período comentou com um familiar: "o Alvarito não vem todos os dias visitar-me, mas sei que posso chamá-lo a qualquer momento".

O segundo episódio aconteceu no seu último ano de vida. Depois de uma discussão banal, ele me acusou sem razão. Quando à tarde fui apanhá-lo na Pracinha da Escola para levá-lo para a casa, a primeira coisa que fez foi pedir-me desculpas. Aos 83 anos! Um pai pedir desculpas ao filho??!!


Isso não é para qualquer um. Só para homens com H grande e tamanha verticalidade.

 

Por isso, Deus lhe concedeu aquele que talvez foi o seu último pedido. No dia 31 de Dezembro de 1999, disse que tinha terminado a sua missão aqui na terra e que se Deus quisesse podia levá-lo em paz. Três dias depois ele falecia, sem chorar nem sofrer.

Chorei pouco com a partida dele porque sabia que ele estava feliz onde se encontrava. Mas depois de tantos anos tenho saudades do pai! E sinto falta das suas orações, sempre às 3 da manhã!

in Blog do Álvaro 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Adquirí em Mindelo, em sistema de troca, o livro do patrício e vizinho da Chã de Cemitério a viver na terra-longe, Valdemar Pereira, O Teatro é Uma paixão, A Vida é uma Emoção. Pela temática – o teatro do Conjunto Cénico Castilhano (1948-1954) – e pelo propósito – os lucros provenientes da sua venda destinarem-se aos 'meninos de rua' da ilha de S. Vicente – saúdo efusivamente o seu autor e destaco a sua obra, aqui no "Na Esquina do Tempo" como "o livro da semana".

 

Há um ano atrás, a 09-05-2010, na sequência do seu lançamento em Lisboa, o blogue-confrade ”Café Margoso”, do amigo João Branco, postou uma matéria sobre o livro. Dado à pertinência e à actualidade do texto, ele é agora aqui reproduzido, com a devida vénia.

 

 

Foi uma cerimónia emocionante. E geralmente é assim quando alguém que fez teatro em Cabo Verde resolve deixar o seu testemunho, mais a mais, em forma de livro. Lançado no passado Sábado em Lisboa [o texto é de 09.05.2010], na muito simpática Associação dos Antigos Alunos Liceais de Cabo Verde, o livro de Valdemar Pereira intitulado «O teatro é uma paixão, a vida é uma emoção» provoca diversas perplexidades e convoca múltiplos estados emocionais.

 

Em parte substancial desta obra, um documento precioso, o autor relata a criação do Conjunto Cénico Castilhano, criado com o objectivo de reactivar o futebol do Grémio Sportivo Castilho, que pela primeira vez no seu historial associativo, se viu metido em tais andanças teatrais, tendo sido percursor neste género de actividades. Depois do Castilho, seguir-se-iam o Amarante, a Académica, o Mindelense, a desenvolver actividades cénicas ligadas aos clubes desportivos, uma realidade que marcou décadas do teatro Sanvicentino e originou um novo tipo de comédia popular crioula (e em crioulo).

 

Fotografia de Alexandre Conceição, 2010, Lançamento do livro: João Branco cumprimentando Valdemar Pereira 

 

O livro foi apresentado por Joaquim Saial, numa sede pequena para tanta gente, de várias gerações. Associados, familiares e amigos assistiram com emoção a mais este evento, e homenageram o autor Valdemar, grande percursor e dinamizador deste teatro popular.

 

Aliás, como sabemos, o teatro vive da sua própria natureza, ou seja, do contacto directo entre quem vê e quem faz, e como arte do efémero, tem a sua historia dependente de testemunhos e documentos. Mais ainda se considerarmos o teatro de tempos idos, quando não havia forma de fotografar, filmar, enfim, registar, em forma de documento testemunhal, o objecto cénico.

 

Essa será a principal razão porque este testemunho de Valdemar Pereira é absolutamente precioso. Explica o autor: «recorrendo ao pouco que restava nas abissais da memoria e com a ajuda de alguns amigos, consegui consagrar numa pequena brochura elementos que vos transportarão aos primeiros teatros do Grémio Castilho.» Modéstia do Valdemar, digo-vos. Isto que nos foi apresentado no passado Sábado é muito mais do que «uma pequena brochura», é uma peça nuclear para se entender o extenso e fascinante puzzle que constitui a história do teatro cabo-verdiano. Em Setembro, esperamos ter o autor no nosso festival Mindelact, para apresentar a obra e dar-lhe todo o valor e aplauso que eles (obra e autor), sem dúvida, nos merecem.

 

Título: O Teatro é Uma Paixão. A Vida é Uma Emoção

Autor: Valdemar Pereira

Edição do Autor, 2010

_______

 

NOTA: Depois da saída do post, Valdemar Pereira fez uma nota-circular aos amigos, que, com a devida permissão partilho com os leitores:

 

O meu livro não foi lançado na cidade da Praia, capital de Cabo Verde, por razões que não sei explicar. Até que apareceu o dr. Manuel Brito Semedo que dele ia falar no seu blog e lhe disse, contando também para quem se destinava o dinheiro da venda. E ele vai encarregar-se de estudar a sua divulgação.
 
A obra chegou depressa aos amigos do Brasil e ainda não chegou na nossa capital. Curioso, né?

***
Manuel nasceu no meu bairro e sua Mamã Xanda, da minha idade, era uma das crioulinhas mais bonitinhas e sorridentes e nos encantava. Cada um de nôs esperava quando passava para ...ver, até ela dobrar a esquina. Depois, ficávamos de trás da esquina, espreitando, até ela desamparecer.

E um dia veio um marmanjo de outra ilha, rapaz muito mais velho, jà homem, e quando soubemos que a pediu em namoro, a decepção foi geral. O mais ousado chegou a dizer: - Vou-lhe esperar aqui na esquina, na boca da noite, e dou-lhe uma pedrada.

Não houve nenhuma pedrada e houve muitas tristezas.

Ele era Policia e levou-nos uma das nossas riquezas...

Bom fim de semana a todos os amigos a quem mandei a circular.
 
Abraços,
Valdemar

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Esquecer!? Ninguém esquece…
Suspende fragmentos na câmara escura, que se revelam à luz da lembrança...

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Jornalista e Poeta Eugénio Tavares

Comunidade

  • amendes

    Viva Nhô Balta - Sempre!Nos muitos discursos que, ...

  • Joaquim ALMEIDA

    Falando deste " fazedôr de milagres " , que era Dr...

  • FERNANDA BARBOSA

    Depois de tomar conhecimento do conteúdo do texto,...

subscrever feeds

Powered by