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Senhóra, Tem Lata?!

Brito-Semedo, 16 Jul 11

Foto de Jorge Martins

 

 – Jorge Martins, Fotógrafo

 

A Ilha São Vicente e a sua cidade, Mindelo, eram e com toda a propriedade, consideradas por todos quantos as visitavam, um modelo de asseio. Fosse pelas suas ruas limpas, a despeito de algum vento aliás, constante, fosse pelas suas casas sempre arranjadas.

 

As mais abastadas, pintadas com cores bonitas – tinta d’bord – e, as de pobreza, caiadas de um branco resplandecente, com a excelente Cal da Boavista, ou então, com um Ocre – cal a que se juntava corante, à base de óxido de ferro, ou de um azul clarinho, em virtude do Anil, corante muito utilizado, até para diluir na água onde se lavavam as camisas de saquinha...

 

Garrafas de vidro eram coisas de gent bronc – não que o fosse na cor da pele – por possuir algum desafogo financeiro. Universal mesmo, eram os mais diversos artefactos feitos em Esmalte, Folha de Flandres e, o excelente aproveitamento que se fazia das latas, de proveniências as mais variadas. 

 

As “latas” das comidas de lata – corn-beef, salsicha, compota, doce, ervilha, banha, manteiga, leite em pó e condensado, etc. – eram tão apreciadas como o conteúdo que lhes dava o nome.  Havia-as de vários tamanhos e feitios.

 

Os mais antigos, tarimbados pela carestia d’vida, quando queriam testemunhar a qualidade de alguma iguaria, até diziam: – Amdjor que c’mida d’lata!  

 

As outras latas, maiores, de 20lt, ou mais, eram normalmente d’pitrol e de qualquer outro tipo de combustível, ou então, as que as grandes casas de importação, comercio e distribuição de produtos alimentares, que as recebiam com víveres para posterior venda a retalho. Essas eram as mais difíceis de arranjar.

 

Sendo as mais valiosas, eram, por isso, muito disputadas e geralmente só ao alcance ou de quem trabalhava nessas casas, ou então da clientela mais abastada.

 

Também, com muita procura, eram os tonéis que traziam vinho, que depois de serrados ao meio, davam as celhas, para lavar a roupa ou, em certos casos, uma banheira improvisada.

 

E as latas serviam para quê?!

 

Vou ver se não me escapam algumas utilidades:

 

  • Em 1º lugar, caneca d’pot. Feita geralmente de uma lata media, do tipo salsichas, esse instrumento sagrado, só tinha uma serventia. Retirar o precioso líquido do não menos precioso pote de barro - da Boavista – e verter para um outro recipiente e assim, mitigar a sede. Era expressamente proibido beber por esse utensílio. Nem mesmo os donos da casa.

Ficava sempre sobre a tampa do pote e com a asa presa por um cordel que se prendia também à boca do pote. Emborcada por causa de moscas e poeiras, estava sempre tapada com um paninho, de forma a garantir o asseio.

  • Uma 2ª caneca, geralmente de tamanho idêntico à 1ª, que estava também devidamente higienizada e que servia para matar a sede a um qualquer estranho que nos batesse à porta, solicitando um pouco de água. No meu tempo era uma obrigação que se aprendia, ainda antes de saber ler e contar. Água não se nega a ninguém.
  • A lata que transportava a ága d’Maderal ou d’Vascona.
  • Panela d’pobreza, assente num fogão Primos, num fogareiro, ou, em três pedras, cozinhava um catchupa c’um cabeça d´peche.
  • Recipientes para transporte do leite de cabra que, em altura de boas’águas abundava e, as respectivas medidas. Cada casa/zona tinha a sua fornecedora que era gente de confiança, para evitar mixórdia.
  • Formas, das mais diversas, para os bolos, que se faziam em casa e, se mandavam cozer na padaria.
  • Lata para s’bi cuscuz, servia para assentar o bind e, até deixar de servir, não se lhe conhecia outra utilidade.
  • Cander de pitrol d’pobreza, ou cafotche, a que se juntava um pedaço de trapo ou uma torcida para alumiar a casa antes de todo o mundo ir para a cama. A sua luz, fraca e tremelicante, alongava as sombras e fazia muito Hom ver Gongom, principalmente se estivesse forrado com um bom ¼ litre de Grog. Servia também para a pesca pois uma vez aceso, não se apagava facilmente e, também para derreter coltara, que se utilizava para tapar e estancar os botes.
  • Uma lata de 20lts, nas mãos de um bom f’niler, podia transformar-se num chuveiro, com torneira e tudo, que garantia dois banhos – 10lts por cada – de água quentinha, previamente stemperod, e pendurada num gancho na parede ou no tecto;
  • O jarro que ficava no WC, com água para se lavar as mão e a cara.

 Conta-se que um professor de St.º Antão dizia assim, logo pela manhã à filha: – Oh minha fia Q’tera, traz-me uma c’niquinha d’éga pr’eu lavar esse f’cin.

  • Lata d’c’mida d’onj.
  • Lata de 9h, de cabunga, ou de esgoto aéreo.
  • Os carrinhos de arame, feitos com latas de sardinha e com rodas de tampa de lata de graxa.
  • Os aros dos bidões, transformados em arcos de correr que ficava sempre estacionado ao lado do portão do quintal e que nos fazia ir e voltar mais depressa, quando era preciso fazer um mandod.

Não havia tara perdida, por isso, tudo era reutilizado. As garrafas de vidro serviam para guardar mantega d’terra, pontche, mel, grog, ramed d’terra e, com o advento dos frigoríficos, para manter a água fresca ou um sumo de tumbarina.

 

As latas de tabaco, drops, bolachas, talco, etc., transformavam-se, depois, em latas de utensílios vários e, com certeza que me esqueci de muitas mais coisas, mas podem acrescentar se quiserem e, se se lembrarem...

 

... e a Nory Alves lembrou-se, de um "must",

 

  • Lata d'cmida de tchuc e eu, de repente, lembrei-me de uma outra.
  • Latinha de p'di esmola na porta d'igreja ou como uma lata d'azet doçe dólivera, nas mãos de um artista, se tornava num lindo camião com caixa basculante que, à escala, permitia o transporte de terra e pedra.

 

Assim se reciclava e se contribuía para uma Cidade mais limpa, porque lixo era mesmo lixo e o plástico ainda não tinha invadido as nossas vidas.

 

 

 

 

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Suspende fragmentos na câmara escura, que se revelam à luz da lembrança...

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Jornalista e Poeta Eugénio Tavares

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