Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

João André Barros (Nhô Fula)

Brito-Semedo, 13 Ago 11

 

Nhô Fula.jpeg

Foto João Mello (Djundjon), Mindelo, anos 20

 

 

João André Barros (Nhô Fula)

 

(S. Vicente,  8. Fevereiro. 1894 – 20. Fevereiro. 1985)

 

 

O melhor wicket-keeper (cricket) caboverdiano de todos os tempos. Celebrizou-se por "caçar" tubarões com os quais se bateu em diversos momentos. O último tubarão por si capturado foi em 1975.

 

Nos anos quarenta e cinquenta, Nhô Fula era o grande herói de Soncente do povo de São Vicente. Era o nosso Tarzan.  Lembro-me ainda daquele tubarão que devorou aquele  italiano no Step (antiga Matiota) e que ele foi apanhar no meio da baía. Nesse dia fui com o meu irmão aos estaleiros da Pontinha, dirigida por uma outro herói de São Vicente, formador de várias gerações de técnicos em São Vicente, chamado Teodoro Gomes «o Qunque», que trabalharam nas companhias inglesas e estrangeiras com grande sucesso, assistir o nosso herói trazendo aquele enorme tubarão que policiava o Porto Grande.

 

Ninguém tinha esquecido a maior heroicidade de Nhô Fula aquando do naufrágio do navio Gaivota  numa viagem à Santo Antão em que teve de lutar com vários tubarões para salvar muitas vidas e depois regessar à nado a São Vicente. A este respeito, dizia Baltasar Lopes, numa homenagem ao Nhô Fula em 1982: “Aparentemente simples, a atitude do Fula reveste-se de uma significaçao requintada: um indivíduo em perigo mortal, numa situação pouco menos que desesperada, elimina em si os impulsos do instinto vital no sentido de prover aos mais urgentes para si, que seria salvaguardar a sua própria vida nadando livre e desembaraçado para o ponto mais próximo da terra firme e, lutando contra mar e vento e contra a ameaça dos tubarões, se dedica à faina perigosa mas gloriosa de tentar salvar a vida de quantos semelhantes seus lhe fosse possível" (Baltasar Lopes, in Subsidios para a Historia do Cricket em Cabo Verde, 1998).

 

João André Barros, nascido em 1894, mais conhecido por Fula, era um homem pacato e dum sorriso tímido, mas excelente observador. Uma das figuras mais populares do Monte onde, sob a sua infuência, cresceram os maiores jogadores de futebol, golf e cricket de Cabo Verde: Blada, Lela de Raúl, Nicolau de Pinga, Antirim (que viveu muito tempo na Guiné), Monca e Pitcha, os filhos, Eduardo e Antero Fula, Florêncio Santos. Todos cresceram à volta deste personagem invulgar na vida do desporto Mindelense.

 

Homem  de um grande coração, sabia acolher com simplicidade as pessoas na sua casa de todas as classes, principalmente nos anos das fomes. Eu e o seu neto Nhela de Nhô Fula, também um excelente desportista, admirador do avô, sentíamos uma grande felicidade em estar junto dele a partilhar o seu silêncio.  Mas é  o escritor António Aurelio Gonçalves que traça uma maior imagem dele: «Fula, não te admires que no começo desta palestrazinha eu te trate  com esta familiaridade, mas é que ha’ noventa anos que vives no Mindelo, de tal forma que adquiriste o direito de ser tomado como um dos representantes tipo do seu povo, que passaste a fazer parte da sua paisagem, que encarnaste um pouco da sua alma». Não se pode deixar de lembrar as palavras de António Aurélio Gonçalves em relação à destruição da Matiota: «será que um dia essa doca seca poderá nos dar a mesma satisfação que este  banho de mar semanal nos oferece a praia de Matiota?» O mesmo certamente diria ao ver demolida a casa do ilustre professor, advogado e Reitor do Liceu, Dr. Adriano Duarte Silva.

 

Lembro-me de o ver participar no arrastão dos barcos na Companhia Wilson: metia umas peúgas pretas e ia devagar no bote até aproximar-se  do navio afim de o colocar em posição de entrar no plano inclinado. Mergulhava várias vezes até conseguir colocar o barco na posição de ser arrastado para o plano. Desta função nobre e importante para a sociedade pouco se fala: sem esse homem corajoso esses barquinhos não poderiam ir às outras ilhas nem à costa da África buscar o sustento para a população do Mindelo. Foi assim herói na verdadeira acepção do termo, como o define Baltasar Lopes (Ponto e Virgula, n.° 9, Maio/Junho, 1984).

 

Ele não falava de si próprio e nem dos filhos, que eram verdadeiros atletas do desporto Mindelense. Ele ia ver os jogos de cricket como se nunca tivesse sido o maior  wicket-keeper de todos os tempos, ao lado do inglês Maunsell. Ainda se falava dos seus boudaries (bombreis) nos tempos da Salina (actual Praça Estrela), que Nhô Damatinha considerava como a grande universidade do desporto caboverdiano. Constava-se que uma vez  ele deu uma tacada e a bola foi cair numa caldeira de cachupa na Quintalona.

 

Ao contrário do que acontece actualmente, a intelectualidade mindelense dos anos quarenta e cinquenta estava virada  para o desporto. Tanto o Dr. Adriano como o Dr. Luís Terry, Baltasar Lopes, Antero Barros, todos reitores do Liceu Gil Eanes, foram bons praticantes do desporto e incentivaram-no bastante na vida Mindelense. A saída para Angola em 1955, quase obrigatoria, do Daniel Leite (Danielim), que foi professor de Educação Física no Liceu Gil Eanes e treinador-jogador da Académica do Mindelo, foi uma enorme desgraça para todos os desportos em São Vicente.

 

Se o Antero Barros, filho de Nhô Fula,  um dos melhores golfistas caboverdianos em Cabo Verde e Portugal, Baltasar Lopes e Aurélio Gonçalves foram campeões de quatrocentos e oitocentos metros em Portugal e, de regresso à Cabo Verde, fizeram parte da direcção de alguns clubes desportivos e incentivaram o desporto no Liceu onde muitos jovens se distinguiram, hoje, quando observamos o curriculum e o comportamento de alguns reitores dos liceus em Cabo Verde, no  caso especial de São Vicente, facilmente podemos compreender as causas do declínio do desporto em Cabo Verde.

 

Nhô Fula merece uma estátua, uma avenida, em Mindelo. A rua onde viveu toda a vida no Monte devia ter o seu nome, mas toda a gente diz rua de Nhô Fula. As autoridades municipais de há muito deviam ter atribuído às ruas do Mindelo os nomes das figures mais sonantes de São Vicente.

 

Saudações monteanas.

 

Luiz Silva, Paris, 13/7/2011

 

Fotografia de autoria de Raul do Rosário Ribeiro, Anos 50/60.
Tubarão que, segundo Djô Martins, no seu Fotolog Page, foi pescado por Nhô Fula.

 

 

"Nhô Fula - Amdjôr Wicket-Keeper D’tud Temp (Cricket)", Zizim Figueira, in Liberal Online

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Esquecer!? Ninguém esquece…
Suspende fragmentos na câmara escura, que se revelam à luz da lembrança...

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Jornalista e Poeta Eugénio Tavares

Comunidade

  • Reyan

    Só música de qualidade! Instrumentos de corda real...

  • Anónimo

    Oi sou cabo-verdiano, estou aqui de passagem, esto...

  • Regiane

    Exelentes musicas . Me faz recordar o tempo do meu...

subscrever feeds

Powered by