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Sobrados Djar Fogo (3)

Brito-Semedo, 22 Ago 11

Sobrado Álvaro Adolfo Avelino Henrique, conhecido por Dr. Arbi, antes de recuperado

 

Escadaria e Balaustrada Vistas do Quintal

 

Pinturas do Sobrado, que datam de há cerca de 200 anos, de autoria do alemão Ernest Albert Koenig 

 

Fotos gentilmente cedidas por Amélia Sacramento Monteiro, Portugal

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Comentário recebido da Colaboradora Amélia Sacramento Monteiro:

 

Contou-me a minha prima Dinah Barbosa Henriques, que o Senhor Ernest Albert Koenig, de nacionalidade alemã chegou à Ilha do Fogo num barco, vindo da Alemanha. O barco teve um problema, não se sabe se naufrágio ou avaria, e os passageiros desembarcaram foram prontamente acolhidos de acordo com a morabeza caboverdiana. Um ficou só, passeando à deriva pelas ruas de S. Filipe. O Dr. Álvaro achou estranho o comportamento do senhor e prontamente acercou-se dele e depois de alguma conversa, conseguiu levá-lo para a sua casa de campo, em Maria Chaves.

 

Está claro que o Dr. Álvaro, quis logo ajudá-lo a voltar à pátria, ao que este negava sempre. Aos poucos, foi descobrindo que o senhor triste e ausente tinha muito talento para pintar, mas não tinha material. Depois de muita conversa, o alemão deve ter ganho a confiança do Dr. Álvaro e então contou que tinha estudado Belas Artes na Alemanha, mas que teve que fugir da sua terra pois, sem querer, feriu mortalmente o irmão com uma arma de fogo. O Dr. Álvaro, questionou se se confirmou a morte, mas ele não queria saber da confirmação, de tal maneira que vivia apavorado com a ideia. Com muita diplomacia o Dr. Álvaro obteve dele o nome e o endereço duma irmã e então escreveu a saber das notícias do irmão, sem mencionar que o senhor Koenig estava com ele. A irmã respondeu dizendo que o irmão se tinha recuperado bem, mas que a preocupação da familia era agora com o outro irmão desaparecido.

 

Instalado em Maria Chaves, casa de campo de Dr. Álvaro, o senhor Koenig mandou vir da Alemanha tintas e pincéis e deu início a um trabalho maravilhoso de pintar o lindo casarão de Maria Chaves, desde paredes até aos tectos, numa pintura linda, que ainda chegou á nossa geração. Lembro-me das pinturas como se fosse hoje.

 

Depois veio para a cidade e pintou também o sobrado do Dr. Álvaro com lindas pinturas, as fotos de hoje. O sobrado possui lindos vitrais também pintados por ele.

 

O senhor Ernest Albert Koenig casou-se com a nha Mariquinha e tiveram dois filhos. Segundo sempre ouvi dizer, não sei se verdadeiro ou não, partiu depois para os Estados Unidos e nunca mais voltou ao Fogo. Escreveu uma carta à esposa, afamada costureira, mandou-lhe uma máquina de costura e até hoje não se sabe o fim dele. Conheci os dois filhos, os netos e os bisnetos.

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Comentário recebido de Vladimir Koenig, Neto de Ernest Albert Koenig, Brasil

 

Aquele sobrado foi meu e da minha irmã até há 3 anos quando a vendemos, depois de 100% recuperado. Há uma inversão do nome do meu avô que é ERNST ALBERT KOENIG. Tenho a certidão de nascimento dele. Ele era pintor e músico e chegou a reger a orquestra sinfônica de Viena no final do século XIX. Realmente foi para EUA e nunca mais se soube dele. Alguns acham que ele voltou para a Alemanha, para a cidade natal dele, Meherane. Estive lá e um Koenig de lá me disse que um túmulo lá é dele. Não pesquisei a respeito. Ele, quando chegou ao Fogo, não se sabe como, vinha da Alemanha de onde decidiu sair por causa de uma desavença na família motivada por um duelo com o irmão mais novo. Como ele era exímio esgrimista, feriu o irmão (mas não matou) que era o “codé” da família. Meteu-se num barco, não se sabe qual e foi dar com os costados no Fogo. Agora, o sobrado, não foi dele. Foi o meu pai que o adquiriu em 1947 e o reformou completamente, sem modificar, absolutamente nada e eu vivi nela até 1961, quando fui para a Guiné. Vai de uma rua a outra e tem 18 cômodos. Não havia como modificar a estrutura porque as paredes têm uns 80 cm de espessura e feitas de cal, cimento, areia e gordura de baleia. Me lembro da trabalheira que deu para reparo quando o pedreiro disse ao meu pai que “aquele emboço é impossível de quebrar”. Foi quando o meu pai falou com o amigo dele, Nhô Nelinho Sacramento Monteiro (pai da Amélia), mestre de obras, e este falou sobre os materiais de que eram feitas as paredes. Há no quintal, térreo, um “tronco” de ferro para amarrar escravos que está lá até hoje. Quem conhece bem e escreveu sobre a família, é o Jorge Brito, professor universitário, na Praia.

 

Um abração amigo do VKoenig

 

 

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