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© Manuel Roberto/Público

 

- Suzana Abreu, Lisboa *

 

Uma das coisas que a vida me tem ensinado é que as certezas têm uma vida muito curta.  

 

Manter crenças sem beliscadura é muito confortável, mas mudar radicalmente de opinião pode ser um privilégio e não um sinal de fraqueza de carácter.

 

Durante muitos e muitos anos, nutri pelo futebol uma indiferença comatosa. Era de todo incompreensível a graça que tinha ver 22 fulanos e 1 sicrano em calções abichanados a correr desalmados atrás de um “esférico” aos quadradinhos. Sempre que me juntava ao grupo de amigos para ver a “bola”, eu era seguramente a companhia mais enfadonha do mundo. Para ali ficava como uma múmia, sem mexer uma pestana, não fossem os malfadados bocejos que me acometiam de forma súbita… Ai, era cada um de repente que quase desencaixava os maxilares!  

 

Esta impassibilidade televisiva recordava-me sempre da minha avó Laurinda, senhora vitoriana de uma vontade indómita, fina que nem um coral, perita em achacamentos de escolha múltipla, também ela espectadora glacial e imperturbável.

 

A única diferença é que ela ficava com um brilhozinho quase imperceptível no olhar e ligeiramente arfante ao ver um desafio de boxe, um filme de cobóis e uma partida de futebol. Entredentes, articulava baixinho “toma que já levaste!”, (o que dava para o chumbo e para o knockout) e “eh lá, duas piruetas e já estás a comer relva…”. 

 

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