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Nhô Pina, Velho marinheiro encalhado

Brito-Semedo, 22 Out 13

 

A cronista e colaboradora da Esquina do Tempo, Suzana Abreu*, acaba de publicar Crónicas à 6.ª. Cinco dessas crónicas aconteceram em Cabo Verde, repartidas entre as suas duas últimas visitas à terra onde viveu. Em jeito de apresentação do livro, fica aqui a crónica da página 70, "Nhô Pina, Velho marinheiro encalhado".

 

"Como é terrível saber, quando o saber de nada serve a quem o possui."

in Édipo Rei, Sófocles

 

Salamansa, velha memória de uma praia da infância.

 

Salamansa, onde as montanhas majestosas de Santo Antão emergem como fantasmas por detrás das rochas nos dias de bruma seca, os recortes semi-apagados pelo pó e areia fina que o vento traz do deserto do Saara.


Praia de nortada, com ondulação frequente, águas de um azul forte, areia branca. Para trás, muito ao longe, ficava o casario, aldeia pobre de pescadores que nunca se deixavam ver. Apenas as crianças, muitas, em grandes grupos, magras e despidas, que surgiam do nada para pedir comida e umas moedas, agarrando-se, rindo e trepando pelas cordas dos pequenos botes de borracha com que a miudagem da minha idade costumava cavalgar as ondas.

 

Muitas vezes, ao domingo, saíamos de casa cedo, já com o sol a ficar inclemente, com uma saca cheia de sandes e bolachas para um picnic repartido, que nunca era suficiente, cada vez mais crianças surgiam misteriosamente por detrás das dunas.


Estas são as memórias que preservei de um lugar e de um tempo já muito distantes.


Passou uma vida e uma geração.

 

Voltei a Salamansa há três dias apenas. Regressei ali com um jovem padre cabo-vediano e duas sacas de roupa e calçado dentro de uma pic-up. Pelo caminho, inúmeras paragens para dar boleia a velhos, novos e crianças regressando da escola ao longo daquela estrada seca e esburacada, de paralelipípedos gastos, aqui e ali ladeada por acácias raquíticas torcidas pelo vento.

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Suspende fragmentos na câmara escura, que se revelam à luz da lembrança...

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