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Tiremos a Boca do Morto

Brito-Semedo, 17 Set 14

 

Mindelo.jpeg

Foto de "Ratrote", Hélder Doca, Abril.2013
 

 

 

Para o Amigo Abraão Vicente, uma Voz Crítica

 

 

Na SonCente, sempre que se fala ou se invoca um defunto, usa-se a expressão nô trá bóca de môrto e aproveita-se para tomar uma bebida, o que se entende como deixar de falar no dito, com o enxaguar da boca, e esconjurar a própria morte.

 

Até aos anos sessenta de mil e novecentos, altura em que se passou a implementar o projeto de urbanização do descampado por trás da Chã de Cemitério, conhecido entre nós por “terra d’ índio, por ser de terra solta vermelha, abrindo a Avenida da Holanda e dando origem à Chã de Monte Sossego com construções de prédios de apartamentos, havia dois “cemitérios velhos”, um deles dos ingleses e um outro de gente da terra, desactivado desde que se construiu o “cemitério novo” no seguimento da estrada para a Ribeira de Julião, o nosso dezoito-dois-oito ou o Nha Marquinha.

 

A nossa casa ficava numa renque de casinhas pequenas situadas nas imediações desses dois cemitérios, virada para a estrada que desemboca no cemitério novo, baptizada de Avenida Manuel de Matos (1907-1962), em homenagem a esse benemérito sanvicentino e um dos donos da Fábrica Favorita.

 

Vivendo a portas-meias com os mortos, melhor dizendo, com o lugar dos defuntos, chegando, inclusivamente, a saltar os muros do cemitério para ali ir brincar, em companhia de outros coleguinhas (nunca sózinho nem ao fim do dia, credo!), era habitual, quase que diariamente, ver passar cortejos fúnebros e, no regresso, ajudar a lavar os cálices da aguardente que a minha Mãi-Dona vendia para os homens e as mulheres mais velhas trá bóca de môrto – “tirar a boca do morto” – muitas vezes com a desculpa de estarem com a garganta seca e com a poeira do cemitério.

 

Hábito antigo esse que ficou em que, sempre que numa conversa se fala ou se invoca um defunto, usar-se a expressão trá bóca de môrto e tomar um gole, que é como quem diz, deixar de falar no dito, enxaguar a boca e esconjurar a própria morte.

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