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Com este post, o “Na Esquina“ dá início à reedição de uma série de crónicas da rúbrica “Cabo Verde – Visto por caboverdeanos”, do Programa 'Arco Íris', da Rádio Barlavento, emitido em 1957.

 

Esta recuperação da memória da Rádio Barlavento só é possível graças à colaboração do amigo Artur Mendes (Sintra, Portugal), um português e também m’nine de Soncent.

 

Abertura

 

A Rádio Barlavento, pelo seu programa ‘Arco Iris’, realiza hoje uma tentativa que, além de ser grata ao nosso coração, é uma das formas de se efectivarem os objectivos que motivaram a criação do nosso posto emissor.

 

De tentativa se trata, porque outra coisa não é esta recolha de colaborações desinteressadas que vão procurar, cada qual no ângulo que escolheu, captar que há de significativo, ou de básico, nas nossas nove ilhas habitadas. Ninguém se admire, pois, de ouvir uma ou outra perspectivação de que discorde, porque é esta precisamente uma das nossas necessidades: – a discordância útil, que exerça sobre as nossas virtualidades de civismo acção estimulante de um salutar debate de ideias…”. (Foto do Grupo da Rádio Barlavento).

 

Foto Estúdio da Rádio Barlavento

 

Comentário

 

Deserto, 30 de Maio de 1957

 

Prezada Roupa de Pipi:

 

Sinto não poder ir hoje ao Povoado conversar contigo, como te prometi na semana passada, porque temos muito que fazer no Deserto, principalmente em meditações.

 

Meditar profundamente é um dos trabalhos mais pesados da vida; todavia, bem recompensado.

 

Como nunca meditaste, nunca estiveste 5 minutos com o teu melhor amigo, factos comprovados pelo teu modo de agir, é claro que não poderás avaliar o trabalho da meditação.

 

Agir sem meditar é coisa fácil, sem dúvida nenhuma, mas transforma o homem em menino e, às vezes, até em fera – Se quiseres uma certa prova do que te digo é só fazeres uma rotação completa e observar o o que viste à tua volta, a começar pelo centro.

 

Mudemos de assunto, pois não desejo aumentar a confusão em que vives.

 

Ouvi a Rádio Barlavento durante a exibição da sua festa e confesso que foi para uma autêntica revelação.

 

Foram momentos verdadeiramente emocionantes que me trouxeram as lágrimas aos olhos – Lágrimas de alegria e tristeza.

 

Alegria por ver a luta valorosa do Bem, à conquista da sua sobrevivência, contra uma forma muitíssimo superior, a força da Roupa do Pipi – Tristeza, por ver tantos valores no Povoada, tantos, tantos, quase que postos à margem – A tua principal força está precisamente nesses valores que não queres aproveitar.

 

Não perturbes os teus filhos, Roupa do Pipi. Deixa-os à vontade para glória da tua casa.

 

Precisamos fazer uma aliança, Roupa do Pipi. Acaba de uma vez para sempre com tanta coisa que só serve para perturbar, tem sentido das proporções, e verás que, juntos, encontraremos a Paz. É preciso que o ladrão nos encontre a todos reunidos no quarto de entrada, defendendo encarniçadamente o nosso património comum: a mobília da nossa casa. Não te esqueças de que nós que labutamos juntos, por cima da mesma terra, nós é que descansaremos juntos, por baixo da mesma terra.

 

Constou-me que vários homens ilustres vão à Casa da Rádio Barlavento discutir os problemas respeitantes às casas do Povoado.

 

Escuta-os com atenção e procura tirar das suas palavras o melhor partido.

 

Alguns deles vivem absolutamente integrados no Povoado; outros, com um pé no Povoado e ouro no Deserto; e, ainda outros, no Povoado, mas com o pensamento fixo no Deserto. Julgas que estes últimos são menos teus amigos? – Estás absolutamente enganado. Procura por todos os meios, reuni-los a todos no Povoado, de alma e coração. E, nessa altura, também voltarei ao Povoado, com todos os meus companheiros, para cantarmos a uma só voz: Glória a Deus nas alturas, Paz a todos nós.

 

Com a toda a lealdade,

 

Bom Senso

 

In Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação, Ano VIII, nº 95 de 1 de Agosto de 1957

 

NB - Mais informações sobre João Cleófas Martins, Nhô Djunga

 

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2 comentários

De Adriano Miranda Lima a 11.03.2012 às 22:44

 A primeira vez que tomei verdadeiro conhecimento da figura humana e da obra de Nhô Djunga foi por leitura do livro "Coisas do Djunga", de 2002, de Arsénio de Pina.  Foi uma leitura deliciosa, essa que o livro me proporcionou. As  crónicas radiofónicas de Nhô Djunga, carregadas de ironia e recados políticos subtis, preencheram maravilhosamente umas férias que passei em S. Vicente, em 2003. Tenho a agradecer isso ao Dr. Arsénio de Pina, que coordenou, integrou, introduziu e comentou o conteúdo das crónicas, prestando um notável contributo à memória desse ilustre mindelense.

De Jose F lopes a 13.03.2012 às 16:25


Lembrando Nho Djunga: Roupa de PIPI ah ah ah

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