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“Cabo Verde – Visto por caboverdeanos”, do Programa 'Arco Íris', da Rádio Barlavento
 

 

 

 

S. Nicolau

                                                          

 

Na evocação da ilha berço, uma imagem se fixa logo, como baliza de uma paisagem: a do Homem – rural nas raízes mais profundas. Este enraizamento transmitiu ao homem da ilha virtudes medianas, mas seguras. Deu-lhe o equilíbrio, a boa têmpera moral, a ética de sedentário; deu-lhe o talento de saber viver com pouco e, o que mais importante de conseguir obter quase sempre esse pouco.

 

Homem medíocre, no sentido de que ele encontra instintivamente a bitola adequada para os seus problemas de rotina; mas, para quando a roda sai fora das calhas da rotina, há nele, ao que me parece, qualquer coisa de castelhano não na sobranceria, mas na resistência moral, que logo salta como amortecedor do embate das revezes e como garantia de que o dia de amanhã há-de amanhecer.

 

Creio estar certo ao falar da ligação, dir-se-ia que placentária, do Homem à Ilha. É uma espécie de casamento telúrico, que nunca se consumará, talvez pelo próprio vigor das forças que o comandam. É que, como todo o homem profundamente vinculado à sua gleba, ele adquiriu de há muito a consciência de que é portador de uma herança, de qualquer coisa como sentido de espécie, de um destino que o acompanhará durante a sua vida individual e se estende, pelos tempos fora, á vida dos filhos dos seus filhos.

 

Onde quer que esteja, as preocupações para a construção ou consolidação da concha não calam a sua voz, baixa, mas persistente. É a mulinha de jornada, os casais de terra a comprar, a boa casa a levantar, os filhos a mandar para a escola-do-Rei, à sua maneira, residente na ilha, ou lá nessas terras longe aonde de quando em quando lhe acontece aportar, numa tentativa  inútil de ser nómada, ele harmoniza a paisagem que o recebeu quando abriu os olhos do entendimento.

 

Curioso é que este homem mesurado e de pés tão solidamente grudados à terra se dá ao prazer de uma, possivelmente, insuspeitada, aventura intelectual: - ele tem um agudo sentido de sátira, de mão um tanto carregada. Mas, quem sabe se ele não transferiu para a expressão satírica o cabedal de lirismo com que todos nascemos, e que uma espécie de pudor, ou de seriedade, vinda da sua estrutura rural não permite que se manifeste na sua forma mais pura?

 

Rba. Brava.jpeg

 

Outra raiz da ilha, parece-me ser a religiosidade. Nutrida secularmente da vida religiosa do arquipélago, a ilha aferra-se às práticas católicas, não com ardor místico, mas com tranquilidade de alma de pessoa por quem nunca roçou a asa da dúvida.

 

Ela matiza as suas festividades consagradas nas efemérides católicas com um colorido que constitui uma das poucas fugas ao diapasão que sintoniza o seu dia-a-dia.

 

Por outro lado, o Homem ainda crê na prenda, isto é, para a sua concepção pragmática de valores, na virtude da aristocratização intelectual. Este dualismo (o culto do telúrico e a ambição intelectual) é uma característica muito sua.

 

No resto, como, aliás, nas facetas apontadas, ele nunca se afasta do homem das outras ilhas e do comum da humanidade.

 

No seu quotidiano, às mesmas motivações correspondem reacções idênticas às observáveis em outras partes, mais humanizadas, talvez, essas reacções, pela feliz falta do instinto de violência que tantas desgraças tem causado.

 

E isto, se quisermos centrar este ponto minúsculo no mundo a que pertence, é exemplo a confirmar o dito das Escrituras:

 

“Tu fizeste sair da boca dos infantes um louvor perfeito”.

 

In Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação, Ano VIII, nº 95 de 1 de Agosto de 1957

 

Escola Secundária BLS.jpeg

 

 NB - Mais informações sobre Baltasar Lopes da Silva

 

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