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“Cabo Verde – Visto por caboverdeanos”, do Programa 'Arco Íris', da Rádio Barlavento
 
  

 

S. Vicente

 

 

Falar de S. Vicente é um caso sério. É assunto muito delicado.

 

Não o faço, porém, de ânimo leve.

 

Sei bem as susceptibilidades que vou ferir.

 

Ao apontar o lugar que lhe compete na vida de Cabo Verde, vou desagradar à queles que teimosamente se obstinam em lhe negar o direito do seu lugar.

 

Mas, quando me referir às suas deficiências e ao seu atraso, em alguns aspectos, vou incorrer na desgraça dos próprios mindelenses.

Terei, pois, contra mim gregos e troianos.

 

E não me esqueço de que estamos em vésperas de nova campanha eleitoral.

 

Se arrosto, pois, com a possibilidade, como diria, é porque, em boa verdade, entendo que não tem razão de ser tais melindres e que o que vou dizer não constitue, como se diria em linguagem forense, uma petição de acção reivindicatória e muito menos um libelo acusatório e representa apenas um simples depoimento de quem conhece um pouco a sua terra e sinceramente anseia pelo seu progresso.

 

Os que se indignarem ao escutar-me meditem tranquilamente no que eu disser e estou certo de que, ao cabo, me darão razão.

 

Matiota, 1939, Foto propriedade de Jorge Martins

 

Se, como todos sabem, ponho o maior cuidado em tratar os outros com respeito e cortesia e sinto verdadeiro prazer em ser agradável, não é, todavia, o propósito de agradar que orienta o meu procedimento e, se me convenço de que é necessário fazer ou dizer alguma coisa, assim procedo, doa a quem doer.

 

Desta vez, estou certo de que haverá muitas pessoas a quem não agradará o que vão ouvir, mas tenho também a certeza de que pensando bem, eles próprios se hão-de convencer da sua sem-razão da sua atitude.

 

Já em 1891 o Dr. João Augusto Martins, um dos mais formosos espíritos que a terra cabo-verdiana tem visto nascer, afirmava ser S. Vicente a mais importante de todas as ilhas do arquipélago, a única porta que o põe em contacto com o mundo, o pulmão por onde respira e o cofre donde se alimenta a província inteira.

 

Apesar dos seus fracos progressos, S. Vicente continua ainda a ser a ilha mais importante e aquela que mais contribue para o Tesouro Público, embora isso não conste claramente das publicações estatísticas.

 

A nossa ilha tem, sem contestação, o primeiro porto e a primeira cidade do arquipélago.

 

Por essas razões, pensam alguns que para ela deveria ser transferida a capital.

 

Por mim, julgo que o remédio para o que chamo o “paradoxo político-administrativo de Cabo Verde” não está na mudança da capital que, embora teoricamente defensável, viria criar embaraços e suscitar ressentimentos que a ninguém aproveitariam. O que é necessário é que se dê a S. Vicente o lugar que a sua importância lhe dá direito; mas, para isso, não é forçoso que se mude a capital, cuja existência aliás me parece imprescindível.

 

O processo, quanto a mim, é outro e eu, por mais de uma vez, me referi a ele, não interessando, pois, voltar agora ao assunto.

 

O que, de momento, importa frisar é que S. Vicente precisa de ser olhada com mais carinho não só pelo Governo da Província como pelos seus próprios habitantes.

 

A falta de atenção por parte dos poderes públicos não é de agora.

 

Já o Dr. João Martins contra ela se insurgia e todos sabem que, de há muito ninguém em S. Vicente vive satisfeito com a forma como somos tratados.

 

Manda, porém, a verdade que se diga que nós próprios não fazemos aquilo que só de nós depende para a elevação e progresso da nossa terra.

 

Mostramos pouco interesse pela administração pública e só de longe em longe damos sinal de vida para protestar e criticar, muita vez, valha a verdade, sem razão nenhuma para isso.

 

No entanto, quanta coisa, necessária, ainda por fazer!

 

Fase de construção do Cais acostável de S. Vicente, 1959, Foto propriedade de Jorge Martins

 

Somos, é certo, uma cidade com mais de 20 mil habitantes, mas temos ainda por resolver problemas, capitais para qualquer aglomerado populacional, como sejam a distribuição de água e esgotos.

 

Todavia, vamos alargando inconsideradamente a cidade sem pensarmos que estamos tornando cada vez mais a difícil a solução desses problemas, como também o da iluminação, o da pavimentação das ruas e até o policiamento.

 

Intermináveis rebanhos de caprinos atravessam as ruas da cidade duas vezes por dia, oferecendo aos visitantes um espectáculo que não dignifica, quando é certo que, reconhecida a sua indispensabilidade, poderiam recolher a apriscos que se construísse, nos bairros excêntricos, como o Monte Sossego, a Ribeira Bote e o Madeiralzinho.

 

S. Vicente faz, assim, lembrar aquelas meninas arrebicadas que pintam as unhas, usam rouge e baton e se vestem de seda, mas esquecem o sovaquinho ou evitar a caspa que lhe cai sobre o vestido.

 

Temos, como se diz na cantiga, dezenas de botequins e de bares e, no entanto, não temos um hotel digno desse nome.

 

Temos uma igreja onde, mesmo nos dias vulgares, os fiéis se acotovelam para poderem assistir às cerimónias religiosas.

 

Culpa do Governo?

 

De modo algum. Culpa de nós próprios que nos desinteressamos daquilo que está em nossas mãos remediar e perdermos tempo a discutir assuntos que poderão ter muito interesse mas cuja solução não depende exclusivamente de nós e a reclamar, também muitas vezes com razão, contra aquilo que poderíamos ter evitado se o nosso procedimento fosse outro.

 

A leviandade só pode gerar o desprestígio.

 

Se queremos ser respeitados, temos que mudar de processos, temos que ser razoáveis nos pedidos e reclamações que fazemos e mostrar a todos que, a par do conhecimento dos nossos direitos, temos também a consciência dos deveres que nos cabem.

 

A tal respeito, atrevo-me mesmo a supor que estamos caminhando com demasiada pressa num sector muito delicado da vida pública – o da política social. A nossa gente não está ainda suficientemente educada para compreender que a conquista de certas regalias tem de ser acompanhada da noção perfeita dos deveres que sobre nós impendem, como elementos de ordem. E, se assim não acontece, é fatal a anarquia e a subversão dos princípios em que se baseia a sociedade.

 

Meditem um pouco sobre o assunto os dirigentes sindicais e todos os que têm responsabilidades…

 

Mas, agora noto que me afastei muito do tema para que fui solicitado e estou a dissertando sobre o problema social quando me haviam pedido que falasse da nossa ilha. É que S. Vicente é das ilhas de Cabo Verde a menos característica, direi melhor, aquela que se caracteriza pelo cosmopolitismo: tem, de todas, um pouco e muito de estrangeiro.

 

Daí, a dificuldade de dar, em poucas palavras, o panorama da sua vida.

 

Creio, porém, que não fui um Frei Tomás e, de depois de vergastar a nossa propensão para a crítica fácil, me limitei a apontar defeitos. Atrevi-me mesmo a dar conselhos que me não pediram.

 

A intenção, porém, é a melhor.

 

Desculpem, pois…

 

In Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação, Ano VIII, n.º 95 de 1 de Agosto de 1957

 

NB - Mais informações sobre Adriano Duarte Silva

 

 

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2 comentários

De Amendes a 24.03.2012 às 11:54


Infelizmente, há muito que não "navego nessas águas"...

Fica,porém, a pergunta -: O Mindelense ainda pensa desta forma... ou será que  mudou?

De José F Lopes a 24.03.2012 às 13:23


Adriano Duarte Silva – Memórias da Rádio Barlavento: Texto de uma grande actualidade

aqUI VÊ-SE A ENVERGADURA DE ADS ESTE HOMEM TÃO ESQUECIDO EM CABO VERDE

BRavo E UM GRANDE OBRIGADO BRITO-SEMADO

JOSÉ F LOPES

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