Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

 
“Cabo Verde – Visto por caboverdeanos”, do Programa 'Arco Íris', da Rádio Barlavento
 
 

 

 

Santo Antão

 

A ilha de Santo Antão, descoberta por Diogo Afonso a 17 de Janeiro de 1461, foi doada por El Rey D. Afonso V em 1462 a D. Fernando, sobrinho do Infante D. Henrique e filho primogénito do Duque de Bragança, tendo voltado por sua morte aos domínios da coroa.

 

Em 1489, El-Rey D. João II fez doação de todas as ilhas de Cabo Verde, entre elas portanto a de Santo Antão, ao Duque de Beja.

 

Em 1493, figura Santo Antão num dos documentos mais importantes do século XV, pois por ela passa a linha em que pelo tratado de Tordesilhas, Portugal e Espanha com a sanção do Papa, dividiram entre si o Mundo.

 

Em 1548, para premiar os serviços prestados na Índia pelo capitão da Fortaleza de Diu, D. Manuel de Sousa, doou-a D. João III a um sobrinho daquele capitão Gonçalo de Sousa, já no reinado de Filipe I, foi doada em 1593 a D. Francisco de Mascarenhas que também foi agraciado com o título de Visconde de Santa Cruz de Santo Antão.

 

Filipe II conservou-a na posse da família Mascarenhas doando-a em 1608 a D. Martinho de Mascarenhas.

 

Em 1685 D. Pedro II doou-a ao Conde de Santa Cruz, tendo passado depois aos descendentes deste, Marquez de Gouveia e Duque de Aveiro, em cuja posse se encontrava em 1750, quando no reinado de D. José, em consequência dos acontecimentos na execução do Duque de Aveiro, dos Távoras e Autouguias, passou novamente à coroa.

 

Apesar de dotada de condições para óptimas culturas, e de um clima excepcionalmente bom, Santo Antão não teve de início grande importância devido ao alcantilado das suas montanhas que dificultavam a penetração do interior e à falta de portos que não permitia o desenvolvimento do comércio externo.

 

Só no século XIX foram construídos os caminhos transitáveis para animais que ligam a Ponta do Sol à Ribeira Grande e ao Paúl e a Ribeira Grande aos Carvoeiros pelo Delgadinho da Corda.


Foto 1001scribbles.wordpress.com
 

Compreende-se bem o isolamento em que devem ter vivido os habitantes de Santo Antão se hoje, com a situação melhorada quanto a caminhos, não me parece que haja mais uma centena de pessoas que conheçam a ilha em pormenor.

 

Extraordinário o trabalho que terão tido os verdadeiros artistas que nos procederam e que com uma visão e bom senso que gostaríamos de ver seguidos por alguns técnicos modernos, construíram aquelas maravilhas que são as primitivas levadas de Santo Antão.

 

E foram de facto artistas admiráveis os homens que dispondo de pouco mais do que níveis e fios-de-prumo, enxadas e picaretas, conseguiram captar e distribuir as águas das ribeiras, irrigando os férteis vales da ilha.

 

Quando em 1940 voltei à ilha natal donde saíra criança de 9 anos, desembarquei no Porto Novo para seguir a cavalo até à Ponta do Sol.

 

Porto Novo, devo confessá-lo, foi para mim uma decepção. Pelo seu nome fazia-me pensar em porto e novo e francamente nada tinha nem de uma nem outra coisa. Quatro ou cinco casas de alvenaria e casebres de pedra e barro cobertos de colmo. À volta, tudo aridez e miséria.

 

A mesma impressão nos acompanha nos primeiros quilómetros de estrada a percorrer, mas à medida que nos aproximamos do cimo das montanhas, um ar leve e macio, uma sensação de bem-estar e frescura nos penetra e, já quase a deixar a vertente Sul, deitamos uma vista de olhos para vermos ao longe S. Vicente, brinquedo pequeno e lindo encolhido perante o colosso.

 

Que mundo de sensações nas montanhas, porventura as mais lindas do mundo! À medida que nos aproximamos da Ribeira Grande, tudo se vai modificando na tonalidade da paisagem que passa do queimado a amarelo para os mais surpreendentes e inesperados tons de verde.

 

Foto Brito-Semedo, 2010

 

Ainda na subida, adiante, ao perfurarmos o nevoeiro, um dos espectáculos mais belos que pode ser dado contemplar a um humano – o mar dos franceses. Um autêntico mar de nuvens no qual sobressaem como ilhas de extraordinária beleza e encanto quais fantasias de Walt Disney os picos mais altos das montanhas.

 

E são ilhas verdes e risonhas umas, outras ásperas, severas, imponentes.

 

Sensação realmente estranha, e se a isto juntarmos que a frescura ambiente é de tempos a tempos varrida por baforadas de vento que aquecido na fornalha do Sahara, chega até ao alto destas montanhas distantes, temos a impressão de um mundo novo e diferente.

 

Iniciada a descida e de novo atravessado o nevoeiro, a paisagem é completamente outra. Vales profundos, gargantas apertadas, maciços de rochas nuas umas e verdejantes outras numa desordem caótica duma beleza máscula e forte que nos faz sentir pequenos. A nossos pés dum e doutro lado do caminho, abismos horrivelmente belos.

 

Terminada a descida, eis a confluência de duas Ribeiras, a Povoação, com o casario rodeando a Igreja Matriz e bordejada pelos seus magníficos quintais de bananeiras.

 

Finalmente por uma estrada diferente, de arrojada concepção passando quase a pique a algumas dezenas de metros sobre o mar que quando em fúria bate contra as rochas levantando montanhas de água e espuma, Ponta do Sol, a minha querida terra Ponta do Sol, terra onde decorreu a minha infância.

 

Que mundo de recordações… A velha escola de Nho Jon Lelei com a sua terrível palmatória de pele de sarda, as fugidas de casa para ir à pesca ou simplesmente contemplar as jóias vivas que habitam as poças que o mar forma na rocha da praia … Um mundo de beleza e encanto que ainda hoje recebe a minha primeira visita ao chegar à Ponta do Sol.

 

Recordação das batalhas que fazíamos imitando os feitos gloriosos que íamos aprendendo na escola, os companheiros que vinham de Fontainhas esperados ansiosamente por que em troca da bolacha da nossa merenda nos trariam pardais caçados pelo caminho.

 

As lindas histórias que à noitinha nos contava a tia Antónia e os docinhos de batata que a Maria d’Ana nos guardava quando saíamos da escola …

 

Santo Antão a terra mais linda do Mundo, Ponta do Sol, querida do meu coração.

 

A base da riqueza de Santo Antão, o que torna a ilha de extraordinária importância, é o regadio que além das culturas alimentares, produz a cana do açúcar e a banana que, com o café, constituem os três produtos à volta dos quais gira a economia da ilha.

 

Tudo em Santo Antão depende da produção, cotação e transporte dos seus principais produtos agrícolas.

 

E é bem interessante notarmos a evolução: primeiro a urzela e o algodão, depois a vinha, seguida do café, da cana e da banana, sobre a qual, em nosso entender, assentará nestes anos mais próximos a economia da ilha.

 

A produção depende do aproveitamento da água que, como há vinte anos, está por fazer. O transporte depende de estradas hoje inexistentes e a cotação é função destes dois factores.

 

Santo Antão será rico e próspero se forem aproveitados os seus riquíssimos mananciais de água e se se abrirem estradas que liguem os centros produtores aos exportadores. O exemplo está à vista, em 3 anos, contando-se somente com alguns hectares de regadio junto à costa, a exportação anual de subiu de zero para 4.000 contos de bananas.

 

O que não seria estando os principais vales ligados por caminhos de penetração à estrada principal, verdadeira espinha dorsal da ilha que se estenderia da Ribeira Grande ao Porto Novo?

 

Em 15 anos de transformação se se pudessem explorar todos os seus recursos!

 

O Porto Novo, indiscutivelmente a futura capital da ilha, seria uma encantadora cidadezinha com as suas vivendas rodeadas de jardins e pomares irrigados pela água da Mesa e de outras nascentes ainda por explorar. Pela estrada alcatroada de ligação com o interior, veríamos a todo o momento chegar camiões carregados de bananas e tomates que o no seu novo porto convenientemente apetrechado viriam encher os porões dos barcos especiais que os levariam para S. Vicente. Ao lado destes barcos, outros carregando a pozolana dos inesgotáveis filões que estariam em franca exploração.

 

Um automóvel nos conduziria por uma das mais lindas estradas de montanha do mundo à Pousada de turismo do Campo de Cão no magnífico Vale do Paúl onde dificilmente encontraríamos acomodações pois apesar dos seus 50 quartos, estes estariam cheios de gente das ilhas, da Guiné e de Dakar que aproveitando um clima maravilhoso e a modicidade de preços, aí reservaram quartos para passar as férias. E que férias inesquecíveis.

 

Dois cortes de ténis e uma magnífica piscina de água sempre renovada. Frutas tropicais e europeias. Na ribeira a emocionante laçada de camarão. Excursões a cavalo à Bordeira onde o mais exigente se extasiaria com paisagens de maravilha.

 

Dum e doutro lado do vale as casinhas todas caiadas e com os seus telhados vermelhos semelhariam rubis encaixados nos vários tons de verde do bananal, do cafeeiro, das árvores de fruto e do canavial.

 

E à noite os que preferissem sentar-se no terraço da Pousada a entregar-se aos prazeres da dança, contemplariam o presépio iluminado que seria o Vale do Paúl …

                    

 

                            

In Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação, Ano VIII, nº 95 de 1 de Agosto de 1957 

 

Aníbal Cohen de Morais Lopes da Silva, nasceu a 19 de Junho de 1915, natural de Ponta do Sol, Santo Antão, faleceu a 29 de Março de 2009.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

6 comentários

De José F Lopes a 04.04.2012 às 18:45

Este artigo do Dr Aníbal é uma uma actualidade surpreendente, 50 anos passados. Bravo Brito Semedo por essas relíquias do passado que vais desencovando e nos brindando.

De Brito-Semedo a 04.04.2012 às 23:12

Caro Amigo, Nada a agradecer. Isto é serviço público e o "Na Esquina" assumiu que deve fazer essa partilha das coisas da nossa terra. Braça rija e votos de Feliz Páscoa!

De Adriano Miranda Lima a 04.04.2012 às 23:05

Textos destes constituem um património imaterial e dá-los a conhecer é um valioso acto de serviço público. Na verdade, adorei ler este relato sobre S. Antão, que eu desconhecia por nunca se me ter proporcionado a oportunidade de o ler. Só agora, mas ainda a tempo de me deliciar. A ilha de S. Antão é, com efeito, uma maravilhosa obra da natureza, gerada por um sopro cósmico no meio do mar oceano para pasmo dos homens mas também para macerar a sua coragem e a sua imaginação. 
O comentador José Lopes diz bem sobre a actualidade deste relato. Mas infelizmente, pois o contrário significaria que as palavras do narrador tiveram algum eco no espírito dos governantes. Só uma regionalização bem feita estimulará os naturais de cada ilha a darem o seu melhor em prol do seu desenvolvimento.

De Brito-Semedo a 04.04.2012 às 23:09

Caro Amigo, É bom sabê-lo por estas bandas. Aguardamos voltar a lê-lo no "Na Esquina". Não se faça de fiteiro, rsss !!! Braça e votos de Feliz Páscoa!

De Adriano Miranda Lima a 04.04.2012 às 23:46

Amigo Brito Semedo, não é por "fita" que não tenho aparecido, ah-ah-ah, pois vontade não me falta. O problema é que, sem saber como, vi-me comprometido com uma série de blogues, além de outros encargos, o que me não deixa tempo para tudo. Mas vou estar atento.
Boa Páscoa também para si e sua família.

De Luís Urgais a 20.07.2012 às 11:15

É com imenso prazer que tomo conhecimento e me deleito com estes textos e com estas imagens

Comentar post

Esquecer!? Ninguém esquece…
Suspende fragmentos na câmara escura, que se revelam à luz da lembrança...

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Jornalista e Poeta Eugénio Tavares

Comunidade

  • Djack

    A primeira medalha faz-me muita "manha", porque nã...

  • Manuel Brito-Semedo

    Caro Zé Hopffer, Excelente! Terei isso em consider...

  • Anónimo

    Esqueci-me de me identificar no comentário anterio...

Powered by