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“Cabo Verde – Visto por caboverdeanos”, do Programa 'Arco Íris', da Rádio Barlavento

 

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Sal

 

Muitos dos nossos irmãos das ilhas, aqueles que nunca realizaram uma viagem ao redor desse mar salgado tão perto de nós, tão dentro de nós, certamente (quem sabe?) envolvem um desejo profundo algumas interrogativas à procura de uma explicação convincente.

 

Estamos mesmo a antever essa curiosidade, para tantos muitas vezes quase saciada com a infinidade de histórias e narrativas que vão passando de boca em boca: histórias espalhando às vezes dúvidas e receios; narrativas trazendo à nossa presença realidades desconhecidas a até pormenores cheios de encanto e beleza.

 

Estamos mesmo a pressentir essa ansiedade quando descobrem um mapa do nosso Arquipélago, mesmo uma simples folha de papel colorido de dimensões reduzidas, trazendo espalhados como pedras de um quebra-cabeças impossível os desenhos de variados contornos representando as nossas ilhas crioulas.

 

Pois bem.

 

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Temos pela certa olhado para muitas direcções, traduzindo o seu significado com as convenções que as cartas geográficas trazem sempre anotadas. Vejamos agora para mais outro recanto. Afastemo-nos, por exemplo, em direcção às costas da África. Chegaremos logo a mais uma ilha – a mais afastada do grupo Barlavento, no quadrante leste. E surge um contorno alongado, estreito e muito plano, uns 30 quilómetros de comprimento e cerca de 10 de largura, formado por baías, pontas, costas pedregosas e praias cobertas de areia muito branca e muito fina. Essa ilha é a Ilha do Sal.

 

Mal se ouve pronunciar esse nome é natural que venha logo a pergunta: Mas porque teriam habitado uma ilha que apenas produz sal? A resposta: Pois é precisamente esse sal, tão procurado em diversas paragens, que contribui para a importância da ilha e originou o seu desenvolvimento.

 

Imaginemos um visitante vendo o traçado das cartas a transformar-se em terra firme e aproximando-se dela cada vez mais, na marcha lenta de um veleiro ao fazer a última bordada a caminho do fundeadouro. Estaremos entrando no porto de Santa Maria.

 

Acompanhando a linha da costa mesmo em frente poderemos ver: no extremo à nossa direita, a ponta do Leme Velho; a oeste, aponta Sinó; e mesmo a meio a vila, sede do Concelho. O porto foi, durante muitos anos, o mais importante da ilha desde a sua descoberta pelas caravelas do Infante de Sagres. Santa Maria encanta-nos logo com o sossego acolhedor das vilas pacatas. Tem o seu cais de desembarque e praias que talvez fizessem concorrência a muitos nomes espalhados pelos cartazes de turismo. Os prédios, na generalidade de bom aspecto, estão dispostos em alinhamentos regulares e proporcionados. Uma igreja de construção muito recente indica-nos no topo da sua torre altaneira que a Fé também ali chegou levada pela cruz dos mareantes. Diversos são os estabelecimentos: há uma fábrica de conservas de peixe, uma companhia salineira e algumas lojas. A uns 3 quilómetros, a norte, estão situadas as salinas da Companhia do Fomento de Cabo Verde, ligadas à vila por um caminho-de-ferro que se diz ser o mais antigo existente em território português.

 

Outro porto importante é o da Pedra de Lume. Ali estão localizadas as instalações da companhia francesa Salins du Cap Vert, uma das mais antigas no fundo da cratera de um vulcão extinto e sem comunicação visível com o oceano, estão a salinas, descobertas segundo se diz em 1796.

 

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Há já uma dezena de anos que foram aproveitadas as magníficas condições para a construção de um aeroporto no planalto do Espargo. A principio as companhias italianas “Alla Littoria” e “Lati” é que faziam as ligações coma América do Sul. Hoje as obras ali levadas a efeito fizeram do Espargo um aeroporto de fama internacional, escalando quase diariamente por ele aviões de várias nacionalidades das carreiras aéreas para o Brasil, Argentina, Venezuela, Cuba, México, Espanha, Itália, Continente, etc. O aeroporto, com as suas instalações bem como as do pessoal ali em serviço, ocupa uma área já considerável e cada vez alargando-se mais. À volta situam-se o bairro residencial, o Morro Curral e pequenas povoações como Preguiça, Boa Vista, Hortelã, etc.

 

A Ilha do Sal é muito árida na maior parte da sua superfície. Essa aridez chega até a ser desoladora, confundindo certos recortes da paisagem com a secura ardente dos desertos africanos. Contudo, à custa de esforços, conseguiu-se fazer despontar a verdura que caracteriza certos recantos do interior. Nos sítios do Algodoeiro, Palha Verde, Fontona, Feijoal e outros mais, a vegetação estende-se à volta de poços abertos no leito das ribeiras, alegrando as planuras secas e arenosas que se distanciam cada vez mais.

 

A falta de braços sempre surgiu como problema de maior importância. Par solucioná-lo recorre-se à mão de obra de outras ilhas, nomeadamente S. Nicolau e Boa Vista.

 

As salinas sempre representaram um papel de relevo na economia da ilha. As exportações têm sofrido um aumento progressivo nos últimos anos, sendo o sal muito procurado nos mercados estrangeiros do Congo Belga, costa ocidental da África, etc.

 

A indústria da pesca também contribui para que as receitas mantenham o ritmo cada vez mais crescente. A sua exploração é hoje feita com uma utilização de métodos modernos e que melhores resultados têm dado.

 

Muito se espera do desenvolvimento dessa ilha, uma das mais importantes do nosso arquipélago.

 

Depois de uma visita feita um pouco à pressa poderemos mesmo assim ficar com uma convicção segura de tudo o que os nossos olhos puderam descobrir. E agora só nos resta fazer um gesto de cortesia e amizade: desejar um futuro cada vez mais próspero e risonho aos nossos irmãos da Ilha do Sal.

 

E na hora da partida ficará por certo nos nossos corações a saudade dessa ilha prisioneira do mar. Recordaremos então as paisagens, os recantos, os caminhos, enfim tudo o que ficou longe de nós … tudo o que ficou na Ilha do Sal.

 

In Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação, Ano VIII, n.º 95 de 1 de Agosto de 1957

 

 Mais informações sobre Jorge Pedro Barbosa

  

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