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Fotografia Oval

Brito-Semedo, 24 Jul 10

Foto Oval.jpeg

Foto do Google, Autor Desconhecido

 

Por Manuel Faustino, Psiquiatra

 

Na Esquina do Tempo – Crónicas de Diazá é um assumir de aspectos importantes da construção da personalidade do autor que, ao procurar situar o diálogo consigo mesmo num dado espaço e num tempo determinados, confere a esse processo uma dimensão que claramente ultrapassa essa perspectiva intimista para se tornar num pedaço muito vivo da “Geração do Madeiral” e não só.

 

 A vivência do afecto, ou melhor, o modo como ele se inscreve na memória de Brito-Semedo é, sem dúvida, a linha de força do texto, não apenas devido à sua presença constante explicitada ou intuída, quando fala bem das pessoas ou nas raras vezes em que se contém para não falar muito mal, mas também quando se debruça sobre cada pedaço da sua rua, do seu largo, da cidade da sua m´nineza  E também  do Mindelo de hoje, como autêntico M`nin de Soncent.

 

O estilo escolhido pelo autor coaduna-se perfeitamente com a relação que procura estabelecer com o tempo e o espaço em períodos marcantes para a estruturação da sua personalidade. A sua bela escrita, ricamente temperada por uma soberba e elegante utilização do crioulo, é fotográfica. A fotografia fixa um espaço num tempo determinado, ainda que não estáticos. Apesar da importância quase transcendental que ele (e praticamente todos os seus contemporâneos) atribui ao cinema na sua juventude, as imagens do livro, com a excelente ilustração de Tchalê Figueira, são muito mais fotográficas do que cinematográficas.

 

Apenas uma linguagem fotográfica permite captar um ritmo necessariamente lento (comparativamente aos ritmos de hoje) de recriação e revelação de pormenores a partir de vestígios escondidos numa intimidade mnémica adubada por uma profunda afectividade, herdada da personagem luz, Mãi Liza.

 

Os espaços que adquirem vida própria (e que vão da pontinha ao largo, à rua, à cidade, à Terra-Longe, ao cinema) e que, pela pena de Brito, sem se despojarem da sua materialidade, passam também a ser parte das relações humanas que acontecem e da cultura que entranha a alma, dificilmente poderiam ser tão bem revelados sem uma abordagem que considero, fotográfica. Mas a fotografia é tão real, o entrelaçar de pessoas e situações é tão concreto, a proximidade e intimidade tais, que às vezes temos a sensação de que é necessário desviarmo-nos para não nos esbarrarmos num dos personagens.

 

Apenas a excelente fotografia permite que a lentidão do ritmo, a riqueza de detalhes, possam ser apreendidas na sua profundidade, tacteadas, manipuladas, esmiuçadas e revistas, para contemplar outros espaços e personagens, imaginar um tempo diferente, ainda que próximo. O texto acaba tendo o sabor do manusear de um álbum de fotografias ou da contemplação de uma sequência de slides que se pode parar a qualquer momento, diferentemente do filme que tem, na velocidade, aspectos importantes da sua essência.

 

Este aspecto não estará muito distante da forma como o próprio cinema era vivenciado pelo autor e seus pares. Na verdade o cinema, elemento essencial para a ampliação do exíguo espaço real e virtual em que ele e os companheiros se moviam, não se confinava ao espaço físico onde os filmes eram exibidos e ao qual a maior parte não tinha acesso. Os filmes eram vistos por um ou outro e depois recriados (socializados) para o grupo e reinventados por todos. Ainda que na recriação, até o sonoro e os movimentos estivessem presentes, os “espectadores” tinham direito a pedir para parar, para repetir, como se da reconstrução de uma fotografia imaginária se tratasse.

 

De entre as figuras imponentes, que no fundo dão corpo a personagens presentes nos “tempo e espaços” do Brito e em outros tempos e espaços similares, sobressai do álbum a Mãi Liza que marcou de modo muito particular o autor, assumindo pela sua presença constante, carácter firme aliado a um afecto experimentado como incondicional e à função de “homem da casa”, o papel da grande referência para ele.

 

A avó materna, figura central do trabalho e grande homenageada, emerge como a mulher, esteio da família em gerações diferentes, que teve de assumir as irmãs aquando da morte dos pais, as consequências dos desaires amorosos da filha para além do seu próprio desaire, situação muito comum na nossa terra.

 

A mãe Xanda que viveu a dramática situação de uma gravidez tumultuada encontrou na Mãi Liza o porto de abrigo, o que seguramente contribuiu para ter um papel menos proeminente no percurso do Brito.

 

O autor, que teve “duas mães”, viveu a infância e a juventude em ambiente marcadamente feminino, capitaneado pela avó materna que provavelmente terá contribuído muito para o aguçar da sua sensibilidade artística.

 

Os homens estão presentes na obra, mas de forma muito discreta. Talvez a ausência (ou melhor a não presença) do pai e o facto da avó materna ter de alguma forma assumido também o papel de pai, expliquem essa realidade.

 

As referências ao tio Lalela, figura por quem nutre inegável simpatia, ao Pa Lela, de quem gostava muito, apesar de ter trocado a sua tia-avó por outra mulher, o esforço aparente que faz para não falar muito mal do pai, não alteram essa percepção. Contudo, Brito-Semedo não se coibiu de imortalizar uma das suas referências masculinas, Nho Viriss, numa linda… Fotografia oval.

 

Praia, Julho de 2009

 

 

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O Autor com o Dr. Manuel Faustino no acto de lançamento do "Na Esquina do Tempo - Crónicas de Diazá", Praia, 03.Agosto.2009. Foto Pingo D'Oro, 2009
 

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10 comentários

De Emilia Brito Samory a 25.07.2010 às 13:51

Adorei,mas por favor Lalela,nao para de escrever estas estorias de diaza pq eu q nao cresci em S.V estas historias tem um outro sabor...!!!bjs
Emilia Brito

De Brito-Semedo a 25.07.2010 às 15:09

Estimada Emília, como respondi no FB a uma Amiga, por sinal, a que voltou à carga neste espaço (aí respondo melhor às duas), "parece que já criei uma certa expectativa! Não sei se consigo arranjar um substituto para as Crónicas de Diazá. Contudo, se com as outras rubricas o "Na Esquina" perder interesse, fecho a loja, hihihi!

De Anónimo a 25.07.2010 às 14:22

Este ar de despedida me assusta.
Por aquilo que conheço de si, prezado amigo, sei que tem muito mais com que sustentar este blog. Por favor não fale em "fechar a loja" pois eu continuarei a passar por esta ESQUINA todos os dias e "Deus defende bo dam q porta na cara!"
Afectuoso abraço !

De Brito-Semedo a 25.07.2010 às 15:19

Cara Amiga, Está-me a fazer sentir lisongeado e isso pode ser mau porque, assim, sob "pressão" posso assumir um compromisso de que não sei se sou capaz. É que, seguindo os princípios da boa educação da minha Avó Mãi Liza, nunca vou bater a porta de "Na Esquina" na cara de uma leitora, principalmente se for filha de gente conhecida e mnina bnita!
Agora vou de férias e vou ter tempo para pensar na vida e nas coisas do antigamente e pode ser que me lembre de outras "Coisas do Tempo de Canequinha" - parece que já encontrei o título para essa nova rubrica, hihihi! - para paritlhar. A ver vamos e obrigado pelo estímulo!

De Teresa Alves a 26.07.2010 às 12:36

Espero que este post não queira dizer "Ah e tal, acabaram-se-me As Crónicas de Diazá e por isso vou deixar de publicar e..."

É que mesmo os leitores silenciosos, gostam de ler as suas crónicas, pelo que, se terminaram as de Diazá, poderão começar outras, que o conhecimento humano que se bebe nos seus textos e que terá viciado uns quantos leitores não deverá cessar assim...

... não vai, pois não?...

De Brito-Semedo a 26.07.2010 às 15:12

Acabaram-se-me as "Crónicas de Diazá" (publicadas em livro) e não sei se tenho engenho e arte para fazer outras ou uma nova série! Vou agora de férias (mas não do blog!) e vou ter tempo para pensar nisso. Obrigado, de qualquer maneira, pelo estímulo! Contudo, "Na Esquina" não é só Crónicas de Diazá, penso que há outras tags interessantes, hihihi!
Votos de boas férias!

De Ernestina Santos a 27.07.2010 às 21:50

Uma excelente apresentação do livro "Na Esquina do Tempo - Crónicas de Diazá", que eu não tive a sorte de ainda deitar a mão. É a viagem adiada a Cabo Verde, por diversos motivos, entre as quais a saúde, que não me deixam colher o que os meus patrícios têm semeado com tanto amor e talento.

Não acredito que o digníssimo autor nos deixe abandonados sem as suas crónicas, sejam sobre que assunto quiser versar. Por uma simples razão: o "bichinho" da escrita lá está, bem semeado no seu cérebro e lá terá de partilhar o seu dom com o próximo.

Férias felizes, bom descanso e até ao regresso a este convívio salutar!

De Brito-Semedo a 27.07.2010 às 22:38

Cara Ernestina, Na verdade, o Dr Manuel Faustino fez uma excelente leitura das "Crónicas de Diazá", ou não seria ele também M'nine de SonCent, Homem de Cultura e Psiquiatra!
Vou agora falar como os políticos: - "Vou de férias, vou reflectir sobre as Crónicas produzidas até então, o interesse que possam ter para a comunidade cabo-verdiana do cyberespaço e depois decido se vou continuar nesta via ou não", hihhihi!
Ah, vou de férias, mas o blog não! O que vai acontecer é o abrandamento do ritmo dass actualização dos posts! Os meus leitores assíduos (existirão!?) não podem ser defraudados! Era o que faltava, hihihi!
Boas férias pa nôs tud!

De Ricardo Riso a 02.08.2010 às 10:31

Meu caro Manuel,

tudo bem?

Bela apresentação do seu livro feita pelo Dr. Faustino!

Como todos acima, que isso não seja uma despedida!!! ahahah

Retornarei a leitura frequente dos posts.

Ah! Imensa satisfação ao identificar o seu nome entre os palestrantes do I CILLAA, em Seabra - Bahia. Tudo leva a crer que nos encontraremos por lá, espero que no IV Encontro Internacional de Professores de Literaturas Africanas em Ouro Preto, no mês seguinte. Neste, a minha presença está garantida.

Grande abraço,
Ricardo Riso 

De Brito-Semedo a 02.08.2010 às 10:44

Caro amigo,
Nossa, quanta notícia boa! Essa de ter voltado ao convívio do "Na Esquina" é uma delas!
De facto, o Manuel Faustino, como bom "Mnine de SonCent", Homem de Cultura, Psiquiatra e Amigo, fez uma boa leitura das "Crónicas de Diazá.
De facto, recebi o convite para esses dois eventos mas, primeiro, tenho de combinar isso com o Reitor e organizar as minhas aulas na Universidade. É que, se for, será por quase um mês! A ver vamos!
Um abraço!

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