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Bosquejos dum Passeio ao Interior

Brito-Semedo, 26 Jul 10

 

 

Bosquejos é, como o próprio nome indica, uma reportagem-pintura, ou "as impressões de [uma] viagem caseira" que o autor [Guilherme Dantas] realiza a seguir a ter regressado a Cabo Verde, em 1869, depois de uma longa ausência em Mafra.

 

Na impossibilidade de reproduzir este texto aqui, por ser extenso, cerca de setenta páginas A4, apresento uma súmula desse precioso documento.

 

Embora publicado em primeira-mão em 1878, no Independente (Praia, 1877-1889), o jornal mais antigo a ser publicado em Cabo Verde, este texto foi escrito, segundo o próprio autor, Guilherme da Cunha Dantas, por volta de 1869, e retocado em 1886, que é o mesmo que dizer, dois anos antes da sua morte.

 

A data da escrita do texto, melhor, as datas, os nomes de alguns Governadores e de outras personalidades, e a referência a um "desmazelado Governo" indexam para uma época específica que importa conhecer, pois que serve de pano de fundo a toda a narração.

 

Cunha Dantas, ao criticar os governos da Província, criticava, em última instância, o governo monárquico da Regeneração, assumido em 1851 pelo Marechal Saldanha.

 

Vila do Tarrafal, Foto de Autor Desconhecido

 

O Capitão-de-Fragata e cabo-verdiano Senna Barcelos (1912) informa que os maiores benefícios que a província experimentou começaram em 1859, graças à boa vontade e energia de alguns governadores e à melhoria das receitas depois que se estabeleceram os depósitos de carvão em S. Vicente. Com essas receitas desenvolveram-se, com regularidade, os trabalhos públicos, sendo, contudo, no fim do século o período em que as ilhas beneficiaram de grandes melhorias. "De melhoramentos anteriores [explica Senna Barcellos] escassa memória se encontra nos archivos e poucos vestígios no terreno, e apenas fortificações, mal construídas e o hospital civil e militar da Praia".

 

Bosquejos é, como o próprio nome indica, uma reportagem-pintura, ou "as impressões de [uma] viagem caseira" que o autor realiza a seguir a ter regressado a Cabo Verde, depois de uma longa ausência em Mafra.

 

Sob a influência literária do romantismo, Bosquejos dum Passeio ao Interior da Ilha de S. Tiago é uma edição cabo-verdiana de Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett, publicada em 1846.

 

Parece ter sido moda na época, mesmo em Cabo Verde, fazer tais "viagens" pois Senna Barcellos nos dá conta que, em 1868, O Governador-Geral Sebastião Lopes Calheiros de Menezes da Costa (1864-1869) enviara ao Ministro do Ultramar um "interessante relatório", dando conta da digressão que fizera ao interior da ilha de Santiago, descrevendo fielmente tudo quanto viu desde que saiu da Praia até que a ela regressou, tendo feito um percurso de aproximadamente cem quilómetros.

 

Enquanto o romântico português, Almeida Garrett, denuncia na sua Viagem a oligarquia portuguesa, os "barões" e os "frades", Cunha Dantas, no seu Bosquejos, vai denunciar o "governo da província" e os "morgados".

 

Os Bosquejos encontram-se estruturados em três capítulos – "Entre Macacos", "Capítulo dos Burros" e "Capítulo dos Diabos, Pública Forma" – compreendendo doze secções onde Dantas faz a descrição pormenorizada da orografia, da fauna e da flora da ilha, considerações de vária ordem, com elas relacionadas, e critica de forma mordaz a administração da província.

 

A viagem de passeio pelo interior da ilha, com regresso do Tarrafal, extremo norte da ilha, por mar, é feita sob o pretexto de responder a um convite de um amigo e antigo condiscípulo de Mafra, a residir em Achada Falcão, a uma dezena de léguas da cidade da Praia.

 

Este texto, escrito na localidade do Mangue do Tarrafal, tem todos os condimentos e temperos para prender o leitor, incluindo um romance amoroso entre Luís, um amigo do autor, e uma morgadinha de olhos verdes dos Picos – mais uma semelhança com Viagens na Minha Terra e a personagem Joaninha.

 

Durante o percurso, feito a cavalo, efectuam-se paragens para descanso nas localidades de Ribeirão Chiqueiro, S. Domingos e Órgãos, antes de se chegar à Achada Falcão, então centro da freguesia e sede do concelho de Santa Catarina que o autor procura descrever e registar para a posteridade. Dali, passa para a povoação do Mangue do Tarrafal, entretanto elevada a cabeça do concelho, regressando depois para a Praia por mar, aportando na Ribeira da Prata, na Ribeira da Barca e na Ribeira Grande, gastando o falucho nessa viagem oito dias!

 

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4 comentários

De Alvaro Ludgero Andrade a 27.07.2010 às 09:03

O man nakel temp ka tinha gent li? Trés capitle sobre burros, makok e diabo.... Bnitins. Mantenha

De Brito-Semedo a 27.07.2010 às 15:27

ALA, Apesar do propósito de ser uma "Viagem na Minha Terra", não faltou o condimento de um "romance amoroso entre Luís, um amigo do autor, e uma morgadinha de olhos verdes dos Picos"! É que o Crioulo não dá um ponto sem nó, hahaha !

De Ernestina Santos a 28.07.2010 às 20:15

Para quem vivia em Mafra, terra de excelência do imponente convento que deu origem a uma das obras-primas do Nobel português de Literatura, José Saramago, não me admira nada que Guilherme Dantas tenha desancado a valer o "governo da província" e os "morgados" em Santiago, que naqueles tempos se arvoravam em donos do comércio e benesses locais, enquanto o povo era sempre sacrificado...

Fico eu com água na boca a imaginar uma viagem desta envergadura à minha terra...

De Brito-Semedo a 28.07.2010 às 20:31

E com esta, acertaste o passo! Mas amanhã há mais, hihihi !
Aprecio os escritos de Guilherme Dantas e a origem da nossa literatura! No que depende de mim, estou a dá-lo a conhecer à geração mais nova!
Para além do "Bosquejos", que não publicarei aqui por ser extenso, tenho ainda mais um conto de Dantas a postar e farei isso em duas partes. Depois disso, fecho esta rubrica.
Boas leituras, muita distracção  e feliz descanso! Afinal estás de férias!

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