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Com este post, o "Na Esquina" dá início a uma nova rúbrica, Do Outro Lado da Esquina do Tempo, onde dará a conhecer textos de diazá de figuras consagradas da nossa cultura. Mais uma parceria com o colaborar amigo Artur Mendes, Sintra, Portugal.
 
 

 
 

A Ilha da Brava

 

Descoberta num dia 24 de Junho, chamaram-na ilha de S. João. Depois, a natureza selvática da sua orografia, o bravio dos seus vales emaranhados de vegetação hostil, e abandono a que foi relegada durante muitos anos e ainda depois de habitada, deram-lhe o nome de Brava.

 

Em 1680 houve uma grande falta de chuvas na ilha do Fogo; e aventa-se que muitos casais, (não escravos, que esses, jungidos à tirania dos senhores, não podiam mudar de terra), buscaram refúgio na Brava; mas já a encontraram povoada por colonos brancos, os quais coisa de cem anos antes, se tinham estabelecido na costa noroeste da ilha, constituindo o fundo dessa admirável raça de homens fortes, pacíficos e bravos e de mulheres perfeitas, com o lídimo tipo moral da mulher portuguesa.

 

A suposição de uma colónia negra vinda do Fogo, escravos arremessados pela fome às praias de uma ilha deserta, os quais, depois vieram a realizar a maravilha de uma descendência branca, enérgica, dotada de tradições e virtudes que não têm, evidentemente, o seu habitat no continente africano, essa lenda inconsequente, não podia ajustar, quanto mais prevalecer.

 

Naqueles tempos estava o renome lusíada no seu apogeu: tínhamos ocupado a costa oriental da África; Duarte Pacheco acabava de se imortalizar na defesa de Cochim; havia nove anos que Vasco da Gama chegara à India. As velas gloriosas que o espirito forte de D.João II enfunava, devassam os mares, e deixam, na fronte torturada dos velhos oceanos, esteiras de sangue, desse sangue impetuoso que ia levando a todas as margens a semente imortal da Civilização.

 

Perdidas na vastidão das águas desertas, as caravelas, pequeninas como medusas (portuguese men of war), na intensa ironia sobrevivente ao antigo ciúme dos povos que acordaram mais tarde) – irizavam-se com radiações de fama mitológica, na crista de todas as vagas, desde o Atlântico ao Índico, e o do Índico ao Pacifico, levando aos extremos do globo, a Santa Cruz de Cristo, enquadrada nas legendas da glória lusitana.

 

Entretanto, a colonização das terras ia-se realizando. A língua, os costumes, as tradições, irradiavam da acção desses homens extraordinários e se fixavam na história num relevo que o próprio tempo respeitaria.

 

Foi por esse tempo que se fez a colonização da pequena ilha de S. João, à qual uma vaga tradição empresta cores dramáticas, como dramática é, ainda hoje, a vida tempestuosa do povo bravense.

 

Os donatários, das terras descobertas enviavam caudais de sangue português para os seus domínios. E assim foi que, de uma vez, viera para a ilha do Fogo, uma das mais prósperas, entre mais colonos, uma família vassala, gente da mediania adstrita ao serviço das casas senhoriais, a qual devia ter caído em desagrado dos senhores, passando das isenções de amádigo para o mal da proscrição, pelo facto de o primogénito da casa se ter enamorado, até à vertigem, de uma das filhas do velho criado.

 

Numa das caravelas teria vindo a família alvejada pelos preconceitos de sangue; e em outra, clandestinamente, o jovem fidalgo enamorado, que tudo abandonara para seguir a formosíssima plebeia que se fizera estrela do seu destino.

 

Era, então, capitão-mor da ilha do Fogo, um famoso atravessado, amorudo e de índole bárbara. À chegada dos proscritos, deslumbrado pelos encantos da rapariga, o capitão-mor sentiu-se ferido: incendiou-se lhe a víscera mais nobre, e pensou em pôr em prática, servindo sua paixão, as recomendações que de Portugal lhe tinham chegado com relação à família degredada.

 

Nesta linha seguiram os acontecimentos o seu curso, até que, à beira de um precipício pavoroso, por uma desabrida noite de Setembro, os vigias de serviço nas eminências sobranceiras à praia, não enxergaram, sequer, duas lanchas que se despegavam da sombra da rocha e lançavam para o mar arrebatadas como plumas nas asas do sueste que fazia galopar, canal abaixo, bandos de tritões de esparsa crina luarenta.

 

Ao amanhecer, as lanchas aportavam ao remanso da Fajã d’Água, na sombra protectora do Garbeiro. E quando o sol se derramou em cheias, pelas vertentes abaixo, encontrou os fugitivos ajoelhados na areia húmida, rendendo graças a Deus, no mesmo sítio em que vieram a construir a primeira igreja, cujos alicerces ainda hoje lá estão atestando a veracidade deste facto histórico.

 

 

 

Entretanto, na ilha do vulcão, ninguém sabia do destino dos fugitivos arrebatados pela fúria da tempestade. E para Portugal mais não devia ter seguido a notícia do desaparecimento dos rebeldes.

 

Eis a razão por que em 1680, a gente livre do Fogo, que pudera fugir às assolações da estiagem, encontraria a Ilha já habitada. Seus pacíficos colonos cultivavam o fértil delta da ribeira, cujas águas, precipitando-se dos altos do Encontro, correm rumorosas para o mar.

 

A família desterrada, pai, mãe, filhas, o fidalgo e os marinheiros fiéis que o tinham seguido, formaram esse núcleo de população que em breve se desenvolveu e prosperou.

 

As asperezas dos terrenos, pouco a pouco foram vencidas. Serpeavam já trilhos abertos a machado pelas aspérrimas gargantas ensombradas de espinheiros de caules duros e ramagens eriçadas de pequenos punhais em guisa de folhas; de figueiras bravas, de cujos troncos se fazem pratos, desnatadeiras e mais utensílios domésticos, e de favateiras colossais umbelando a paisagem com suas altas sombras.

 

Romperam através do inextricável emraranhado de lacacans e de ouris e de mormulanos; e, depois transmontar as cristas dentadas, de transpor os cimos enevoados, uns grupos derivaram pelos declives úberes de Senhora do Monte, e outros tomaram à esquerda, e desceram e essa encantadora bacia, onde hoje imerge do seu ninho de laranjeiras e roseiras, a lindíssima Vila de Nova Sintra.

 

Assim, se é facto que em 1680 alguns casais do Fogo se refugiaram na Brava, indubitável é que já encontraram a ilha habitada por famílias brancas.

 

Mesmo admitida a hipótese dos advenas fogueteiros de 1680, impõe-se a negação de terem sido eles escravos; porque estes não podiam quebrar as cadeias da sua condição para passar à Brava com mulheres e filhos; nem seus senhores, cupidos e despiedosos, malbaratariam o seu preciso ébano em holocausto a sentimentos que então floresciam em almas de santos.

 

E não é maravilhoso que, de uma colónia de escravos negros, proviesse esta raça branca, perfeita, de linhas físicas, elevada de perfil moral, dotado das eminentes qualidades dos povos superiores, que é o fundo étnico da Brava? E não é inexplicável que dessa colónia retinta não tenha ficado sinal, de tal jeito que já em 1879 apenas conhecessem duas ou três famílias de pretos, como o disse, em relatório oficial, o general Sérvulo Medina?

 

Não, não há dúvida que os supostos escravos dessa colonização, ou mudaram de cor e natureza ao tocar as plantas na santa terra bravense, ou então em algum abismo desconhecido se afundaram para que deles não ficasse notícia, nem na epiderme do bravense, nem no folclore, nem nas festas, nem nos descantes, nem na sua indumentária de motivos fortemente minhotos, nem nas típicas palhoças de tectos cónicos, dos quais, na Brava, jamais se teve notícia.

 

Todo este arrazoado para trazer à história a confluência de um veio de verdade; e não porque essa sonhada origem guineana nos importe deressão, pois que a dignidade humana não está na cor da epiderme.

 

Antes, honra insigne seria descender de escravos e ter subido a senhores… já que ninguém ignora que, na ilha Brava, cada homem é um senhor independente e livre em toda a acção social.

 

In Boletim da Agencia Geral das Colónias, Lisboa, 1929

 

 

Eugénio Tavares, Brava, 18.Outubro.1867 - 01.Junho de 1930

 

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