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“Cabo Verde – Visto por caboverdeanos”, do Programa 'Arco Íris', da Rádio Barlavento

 


 

A Ilha da Boa Vista

 

A ilha da Boa Vista, inicialmente designada por S. Cristóvão, foi descoberta no dia 3 de Maio de 1460, por Diogo Gomes e António da Nola, acompanhado dos seus sobrinhos Bartolomeu e Rafael da Nola.

 

Atravessou uma quadra florescente, durante muito tempo após o início da colonização, tendo conquistado o lugar de primeiro centro comercial do Grupo de Barlavento, antes do aproveitamento do Porto Grande de S. Vicente de abastecimento de navios, que só começou na segunda metade do século 19.

 

Traçado um plano de execuções devidamente estudado, estou certo de que viria a recuperar o seu lugar de relevo, no conjunto económico do Arquipélago.

 

Considerada pobre, por não se encontrarem à mão de semear os proventos oferecidos pelos seus recursos naturais, estes surgiriam por via de investimento de capitais no maneio sistematizado das suas possibilidades.

 

A natureza arenosa de grande parte do seu solo e a contingência das chuvas não significam que a agricultura seja relegada para um plano secundário, como opinam muitos. Justifica-se o sistema de irrigação dos terrenos, pois, a poucos metros de profundidade se encontra água capaz de assegurar a produção de cereais, legumes e fruta que abasteçam o mercado local, até com superavit para a exportação, uma vez empregues os sistemas modernos de cultura, adubos, químicos, máquinas de lavoura, etc. … – Necessário se tornaria, para tanto, o adestramento do natural da ilha, despertando no mesmo o interesse pelo amanho das terras, quebrando o fatalismo e a crença arreigada de que sem “ chuva do Céu “ – no dizer do povo – a terra não produz.

 

 

Perguntará o ouvinte: Sendo o fatalismo uma característica ancestral de ordem psicológica, de que modo quebrá-lo como se tratasse de um acto físico de quem emprega a força muscular para partir uma noz, por exemplo? Em nosso parecer, a partilha gratuita de terrenos do Estado, com dispensa de contribuição durante um certo número de anos, até produzir bom rendimento, e os ensinamentos transmitidos por feitores, nomeados pela Repartição dos Serviços Agrícola representariam grande incentivo e levariam o lavrador à verificação do resultado dos seus esforços, fazendo desaparecer o cepticismo a pouco e pouco.

 

Temos um exemplo vivo das possibilidades agrícolas daquela ilha, realizada na obra ali realizada pelo industrial Sr. Patrício Correia que conseguiu, por meio de regas, fazer medrar muitas centenas de magníficas bananeiras com vista a uma possível exportação para o mercado europeu.

 

A intensificação da cultura da purgueira e a sua consequente exportação em grande escala, seria mais uma fonte de receita a favor da sua economia.

 

Em síntese: Será mister:

 

1º. Criar o interesse pela agricultura dentro dos moldes modernos;

 

2º. Promover a preparação técnica do agricultor e facilitar-lhe os meios de acção.

 

No campo industrial a Boa Vista oferece um panorama interessante:

 

O primitivismo da sua olaria, substituída por cerâmica mecanizada, assim como o fabrico de cal, abandonada a rotina em que se circunscreve, merecem ser incluídos no programa das realizações de utilidade.

 

A indústria da pesca, que ultimamente tem evoluído, enferma ainda da ausência de um plano científico, que esperamos venha a nascer com os trabalhos da útil Missão de Estudos de Biologia Marinha, em boa hora destacada para esta província.

 

A pecuária, aliada à pesca, constituindo a base sobre a qual assenta a vida do boavistense também grita por um amparo que vise a conservação e aperfeiçoamento das espécies animais.

 

Medidas como a sementeira de ervas de pasto em campos de rega, postos veterinários que combatam as epizootias, flagelos frequentes do gado, defendido apenas por mézinhas que o curandeiro vai aplicando a esmo, seriam salutares e conduziriam ao aumento das criações e depuramento das raças. Tomadas tais mediadas poderíamos pensar numa indústria de lacticínios cientificamente organizada por técnicos a solicitar ao Governo, sempre atento às nossas justas aspirações e empenhado e dar-lhes solução.

 

Das suas salinas, invadidas pela areia, o sal praticamente já não é exportado e quedamos de braços inertes, por falta de disponibilidades para cortar o mal pela raiz e promover o renascimento deste produto de modo a competir com o de outras regiões.

 

 

Do progresso da agricultura e da indústria advirá, ipso facto, o do comércio e demais actividades, com reflexo no nível de vida do povo, que ainda não está acomodado convenientemente, com os requisitos indispensáveis a um viver compatível com a nossa época, isto é, servido com abastecimento de água, iluminação eléctrica, etc.

 

No campo da arte, é notável a condição de música inata do baovistense. O seu viver é expresso na morna, a cuja maternidade se atribue a Boa Vista. A sobriedade e a índole pacifica do seu povo, moldada pelo marulhar plangente das ondas nas alvas praias, fazendo dele, um sonhador, paradoxalmente resignado e aventureiro, reflectem-se em ingénuas mornas misto de alegria e tristezas e repositório dos factos e sentimentos mais vincados do dia a dia. Hoje, porém, estas afastaram-se um pouco da feição humorística primitiva, surpreendida ainda, todavia, em muitas composições actuais.

 

Nos tempos de grande prosperidade, quando afluíam ao porto de Sal Rei inúmeros navios brasileiros, carregando ali importantes partidas de urzela, e os chefes de família podiam dar boa instrução aos filhos, existiram cidadãos que deram o seu contributo intelectual às letras de Cabo Verde, muito embora em modestas publicações dispersas no velho Almanaque Luso-Brasileiro, onde aventaram ideias e expenderam pontos de vista consentâneos com a época.

 

A vida social é ordeira. Os conflitos são raros e os folguedos repetidos, nos anos em que as águas e a pesca proporcionam uma existência menos preocupada.

 

As sugestões apresentadas, poderão, à primeira vista, parecer pura miragem, mas se considerarmos o interesse que o Governo Central e da Província vêm dedicando à nossa terra, servindo-se do Plano de Fomento para brindá-la com realizações de vulto, afigura-se-nos não ser despropositado o gizar de problemas que redundem em proveito da comunidade cabo-verdiana e Nacional.

 

In, Boletim de Propaganda e Informação, Ano VIII, Setembro de 1957

 

 

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