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“Cabo Verde – Visto por caboverdeanos”, do Programa 'Arco Íris', da Rádio Barlavento  

 

Governador Serpa Pinto, Jardim do Presídio

 

A Ilha do Fogo e a sua Cidade

 

Há um aspecto da cidade de S. Filipe que salta logo à vista do visitante: - é o desfasamento entre as realizações do município e as iniciativas particulares. Uma coisa não acompanha a outra. Este desencontro entre a construção duma cidade e a incapacidade dos cidadãos em corresponder aos propósitos progressivos da Câmara Municipal, pela edificação de novos prédios ou melhoramento dos antigos sobrados, constitui sem dúvida a nota essencial do panorama urbanístico de S. Filipe. A própria elevação da vila principal do Fogo à categoria de cidade, representa um passo desacertado com relação ao teor estacionário das possibilidades privadas contemporâneas.

 

Em toda a parte, pelo menos chamada civilização ocidental, os agentes desencadeadores do progresso municipal são os próprios munícipes com as suas iniciativas, as construções particulares, as construções várias em matéria habitacional, comercial, industrial, recreativa, etc. Na ilha do Fogo, muito pelo contrário, é a entidade municipal que se enerva com a inércia ou a impotência dos pacatos cidadãos que continuam a ocupar as mesmas casas, a sentar-se atrás dos mesmos balcões, a consumir as mesmas quantidades de água e de electricidade, a repetir em suma os mesmos gestos, quantas vezes inúteis.

 

Este desfasamento entre urbanismo e o estilo de vida, passou-se outrora no sentido inverso. Quando se construía a maior parte dos antigos sobrados, a vila era uma trapalhada de espinheiros, ravinas e pedregulhos. De tal forma que se andava de cartola aos pontapés em latas velhas. Ainda conheci esse S. Filipe arranjado no interior das casas e caótico nos seus largos e ruas. E era assim ainda quando um seu ilustre filho, então Ministro das Colónias, lhe concedeu categoria de cidade.

 

 

Os tempos eram outros, e outra a maneira de encarar a vida. Enquanto nos sobrados tudo corria pelo melhor, o recheio era bom e de mesa farta, em matéria de melhoramentos e embelezamentos urbanos foram precisos muitos anos para que S. Filipe começasse a experimentar certa arrumação e higienização dignas dum centro populacional com cerca de dois mil habitantes. Estes melhoramentos e embelezamentos começaram de há pouco mais de vinte e cinco anos, numa altura em que os particulares não podiam acompanhar o ritmo do Município.

 

S. Filipe passou então, a partir de 1930, a conhecer paulatinamente melhor ordem e limpeza por fóra dos seus sobrados. Foram arrancados os arbustos que arranhavam os transeuntes e as pedras que faziam saltar a unha aos pés descalços. Foram enchidas as ravinas onde se despejavam lixo e objectos inutilizados. Ergueram-se paredões para suster as terras e armar os tabuleiros que constituem uma das notas mais pitorescas da cidade, duma cidade feita de escadarias e pequenos plateaux. As ruas começaram a ser arranjadas e empedradas. Montou-se luz eléctrica, construi-se um hospital, um edifício novo para escola, etc. Os casebres cobertos de palha que existiam no limite norte da cidade foram expropriados, destruídos e transferidos para áreas mais distantes.

 

Tentou-se o ajardinamento dos largos e ruas mas aí a Câmara esbarrou com uma enorme dificuldade: - a falta de água. Era preciso esperar mais uma dúzia de anos pela magnífica obra de captação e condução da água da Praia de Ladrão para que a Câmara pudesse retomar a tentativa de espalhar umas manchas vedes aqui e além.

 

Dentro da modéstia dos recursos camarários, S. Filipe foi-se compondo lentamente sem que todavia, sob o ponto de vista económico, a cidade tivesse subido de importância. Esse carácter estacionário do desenvolvimento do principal centro populacional do Fogo, é reflexo de factores de maior âmbito, ligados uns à economia da própria ilha e outros à evolução do arquipélago em geral.

 

O interesse por parte do Município em melhorar e embelezar a cidade cada vez mais, exprime-se com realidades insofismáveis. O jardim do Presídio, sobranceiro ao mar, obra de Silva Rendall, é belo em qualquer parte. Infelizmente não abundam localmente olhos que dêem o justo apreço a este magnífico miradouro onde nas tardes cálidas de verão há sempre uma brisa fresca que vem do mar, e onde o largo hemicírculo do horizonte, interrompido pela silhueta da Brava, é um cenário, de sonho para quem a isso se possa entregar.

 

Normalmente, fóra um ou outro par de namorados, os confortáveis bancos do jardim estão vazios e as amorosas acácias balouçam tristemente as copas com um ar de frustração que até confrange.

 

O restauro e a ampliação da instalação eléctrica com um motor mais potente e maior número de horas de luz, não se mostraram concordantes com as necessidades do burgo. Às dez da noite já tudo dorme a sono solto, numa autêntica narcose biológica que sugere fuga e evasão duma realidade dramática. Não vejo outro motivo para se dormir tanto em S. Filipe onde não há sirenes de fábricas chamando pelos operários mal rompe a manhã. Apesar disso sei que a Câmara se prepara para adquirir corrente alterna e para um aumento ainda maior de horas de fornecimento de energia eléctrica. Acho bem, e a Câmara vai cumprindo assim com os seus deveres.

 

A canalização da água ao domicílio constitui sem dúvida uma das obras mais importantes da municipalização foguense, sobretudo quando nos lembramos do tempo em que o precioso líquido era transportado em odres da nascente mais próxima, através de um percurso de cerca de dez quilómetros distante da vila. A cidade possui hoje água até para hortas e jardins.

 

Um particular teve há anos a iniciativa de utilizar a água do abastecimento público para fazer uma horta a fim de fornecer verduras à cidade. Poucos meses depois havia couve, tomate, cenoura, etc.. O proprietário acabou porém por desistir porque estes produtos não tinham saída e os lucros não compensavam as despesas. A cultura das hortaliças esbarra sempre em Cabo Verde com dois escolhos: - com o fraco poder de compra da população e com os hábitos alimentares locais que excluem semelhantes alimentos do consumo diário.

 

Brevemente vai haver uma rede de esgotos em S. Filipe. Poderão todas as casas proceder à instalação sanitária mesmo em condições modestas? A menos que a Câmara possa fornecer os materiais necessários que serão pagos em prestações suaves pelos munícipes pobres que são a maioria, à semelhança do que fez, se não me engano, com utensílios eléctricos.

 


 

Acho bem, repito, que se continue arranjando as ruas, a higienizar a cidade, a pensar numa biblioteca, numa casa de espectáculos, mas que a par e passo se promova a elevação do padrão de vida dos cidadãos, que mal podem consertar a fachada dos seus prédios. Este último problema evidentemente não compete à Câmara resolver. É assunto que diz respeito ao fomento e à economia da ilha e que ao Governo da Província deve interessar resolver com a colaboração, é certo, dos governadores, os quais têm de se espevitar mais na obtenção de melhores proventos. A governação é acto que não pode dispensar a cooperação dos cidadãos de forma a que os esforços se conjuguem nas várias soluções necessárias.

 

Um dos grandes males desta terra, já se disse e redisse, consiste precisamente na ausência dum plano de conjunto para o fomento das ilhas. Daí acontece progredir-se por vezes demasiado depressa num determinado sector sem articulação imprescindível com os restantes domínios. Não se constrói um barco começando pela superestrutura. Faz-se primeiro o casco e só depois se executa o resto.

 

O caso da cidade de S. Filipe é um exemplo típico dessa arritmia que caracteriza a evolução de Cabo Verde. A perfeita e eficiente valorização das ilhas inclui todas as iniciativas tomadas e em projecto, mas deve incluir ainda as realizações basilares que são os alicerces duma vida futura mais desafogada. As obras de fomento que as circunstâncias requerem, é que criam a necessidade duma nova superestrutura. O continente deve estar de acordo com o conteúdo se não quisermos inverter valores e desencadear desequilíbrios que só causam o mal-estar e descrença no progresso.

 

Não quero com esta crítica atingir os dirigentes da Câmara Municipal do Fogo pois, pela sua parte, vai trabalhando com devoção e honestidade. Lamento apenas que se esteja a construir uma cidade, embora modestíssima, que excede as exigências dos respectivos cidadãos. Até certo ponto o que se está a fazer no Fogo, é um excelente teste para aquilatar do nível, de vida da respectiva população.

 

Uma demora dalguns dias em S. Filipe, mesmo ignorando a sua história económica e social, permite-nos apreender que a vila (mais tarde cidade) teve uma poussée de desenvolvimento, estacionou e entrou em seguida em franca decadência. Esta conclusão pode ser aduzida apenas de testemunhas mudas que são inúmeras casas velhas caindo aos bocados e que os donos não podem consertar. Se formos a passear até lá abaixo à Praia da Nossa Senhora, deparamos ali com dezenas de ruínas que foram outrora armazéns e escritórios comerciais. Estas ruínas dizem-nos simplesmente que a ilha era visitada por mais barcos que iam descarregar e carregar maior número de toneladas do que hoje, e daí a necessidade de ter armazéns no porto senão apenas o armazém da alfândega meio desmantelado e vazio de qualquer recheio, forçoso é concluir que diminuíram as actividades de exportação e importação, que são sem dúvida o índice mais evidente da decadência da ilha.

 

 

Um dos maiores handicaps de S. Filipe é a inexistência dum porto seguro para escoamento dos principais produtos. Quando as comunicações marítimas eram quase exclusivamente feitas por veleiros de grande tonelagem, estes demandavam qualquer enseada ou fundeadouro sem a preocupação do tempo de demora. Desta sorte as exportações e importações faziam-se a maior parte das vezes directamente para e do exterior sem a necessidade dos portos de baldeação de S. Vicente e Praia (Santiago). A purgueira, o café, o milho, o feijão, eram exportadas com encargos muitíssimos menores do que nos nossos dias. Havia portanto mais facilidades e entusiasmo na obtenção daqueles produtos, cuja saída beneficiava não só a classe proprietária como a trabalhadora.

 

Os grandes veleiros foram desaparecendo dos mares de Cabo Verde sem que em substituição surgisse uma frota de barcos de chaminé para os mesmos serviços. Os pouquíssimos vapores de carreira que passaram a escalar Cabo Verde, acabaram por reduzir o itinerário apenas aos portos de S. Vicente e Praia, ficando os restantes fundeadouros à mercê dos pequenos veleiros de cabotagem inter-insular. Desapareceu desta arte a ligação directa com o exterior por falta em S. Filipe dum porto suficientemente apetrechado para garantir uma demora mínima aos vapores de carreira.

 

As várias tentativas para desviar os barcos da linha de Bissau, abortaram sempre precisamente por falta dum fundeadouro seguro e dum cais de embarque. Deste facto provém um dos principais factores da decadência da Ilha do Fogo.

 

Torna-se absolutamente necessário dar um porto ao Fogo, por ser uma das ilhas mais importantes do arquipélago sob o ponto de vista agrícola e emigratório. E este porto, pouco falta para existir.

 

Há cerca de quarenta anos começou a ser construído um desembarcadouro a poucos quilómetros da cidade, no sítio impropriamente conhecido por Vale dos Cavaleiros. As obras ficaram a meio do caminho talvez por falta de dinheiro ou de visão administrativa. Para ser fundeadouro abrigado apenas carece dum quebra-mar do lado norte. A estrada de ligação com a cidade, é a melhor via de comunicação terrestre que conheço em Cabo Verde. Construída em 1915, e sem nunca haver recebido qualquer beneficiação, acha-se em perfeito estado de conservação tanto no que diz respeito ao piso como às suas várias pontes em arco, feitas em alvenaria. Com um quebra-mar dumas escassas dezenas de metros, entendem os técnicos, o problema portuário resolvido, e quantos outros problemas dependentes deste porto!

 

A seguir ou concomitantemente com a construção do porto do Vale dos Cavaleiros , lançava-se na abertura duma rede de estradas equilibradamente espalhadas por toda a ilha de molde a poder-se carrear economicamente para a cidade, e sem perda de tempo, toda a purgueira, todo o rícino, todo o café e variadíssimas outros produtos destinados à exportação e ao abastecimento de S. Filipe.

 

Com estes dois melhoramentos apenas, um porto e uma rede de estradas, estou convencido de que a ilha sairia do ponto morto em que se encontra, e não faltariam assim incentivos para o alargamento das culturas de rendimento como as das oleaginosas, do café, do amendoim, etc.. Só então a cidade de S. Filipe poderia aspirar uma importância comercial e mesmo industrial capaz de a fazer sair do marasmo reinante onde nada luz e frutifica por mais obras que faça o seu progressivo Município. Teríamos desta sorte uma cidade simultaneamente virada para o interior e para o mar, numa simbiose híbrida de actividades comerciais e agrícolas como nunca conheceu a ilha mesmo nos seus melhores tempos.

 

In, Boletim de Propaganda e Informação, Ano VIII, N.º 96, Setembro de 1957

 

 

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3 comentários

De Gláucia a 29.04.2012 às 18:21

Interessantíssimo, como tudo do TS!

De jose lopes a 29.04.2012 às 19:46


Linda cidade S. Filipe e excelente artigo do Dr Teixeira de Sousa. Bravo Brito-Semedo por nos fazer conhecer estes pedacinhos de Cabo Verde através deste excelente programa velho 50 anos.
“Cabo Verde – Visto por caboverdeanos”, do Programa 'Arco Íris', da Rádio Barlavento

 Mindelo tinha uma grande Rádio

Não conheço Fogo pelo que não posso fazer uma avaliação deste artigo à luz de 2010 mas parece-me que o Fogo ainda padece de problemas similares.  

 

De M Conceição Fortes a 30.04.2012 às 00:39


 
Conclui-se ainda hoje que o país só progride quando os governantes tomarem umas noções básicas de geografia. É que CV é um arquipélago constituído por 10 ilhas e que cada uma tem a sua especificidade e as suas carências. Concentrar o desenv...olvimento só numa, não é política, económica e socialmente correcto, já que uma das principais riquezas de um país é o seu povo e este ainda está sendo tratado de forma desigual. Falei e disse!

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