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“Cabo Verde – Visto por caboverdeanos”, do Programa 'Arco Íris', da Rádio Barlavento
 

 

 

Com este post, o “Na Esquina“ conclui a reedição da série de crónicas da rúbrica “Cabo Verde – Visto por caboverdeanos”, do Programa 'Arco Íris', da Rádio Barlavento, emitido em 1957. Lamentavelmente, não houve um programa sobre a Ilha do Maio, com pena nossa, pois esta ilha foi a única a não ficar retratada nesse conjunto.

 

Esta recuperação da memória da Rádio Barlavento só foi possível graças à preciosa colaboração do amigo Artur Mendes (Sintra, Portugal), um português e também m’nine de Soncent.

 

 

 

A Ilha Brava

 

Brava sombria,

cinzenta e esbatida

Como a campa silenciosa

onde na noite fria

das tardes sem fim

adormeces a vida…´

 

És um jardim

de estranhas flores debotadas

onde a alma branca dos lírios chora,

pela noite calada

o longo martírio

de não ver o sol…

 

E andam mulheres descoradas

como o alvo lençol

que mortalhou Jesus

de olhos parados

fitando a luz

duma esperança distante

que ficou lá fora…

como no inferno de Dante!

 

Há sem dúvida alguma verdade nestes versos, mas uma verdade deformada por um espírito doentio e nostálgico.

 

A Brava, com a sua neblina e as suas flores, as suas mulheres brancas como nórdicas, a sua música, mais sentida e dolente que em qualquer das outras ilhas, e o sentimentalismo amorável dos seus naturais, é um lugar de sonho onde a vida parece ter parado para dar lugar à quimera.

 

Quem, pela primeira vez, chega à Furna não pode deixar de se sentir desiludido – mais do desiludido, ousarei mesmo dizer oprimido: em frente do barco pitorescamente amarrado à terra como animal que se receia ver fugir, ergue-se uma rocha, enorme, ameaçadora.

 

A Furna em si não diz nada da Brava: é uma pequena povoação mais ou menos árida à beira-mar, sem maior encanto que qualquer outra aldeia de pescadores. Porém à medida que vamos subindo a caminho da Vila, vai-nos penetrando o estranho encanto da ilha: por toda a parte flores e verdura sobressaindo no nevoeiro, frescas, orvalhadas, seja qual for a estação do ano. A beleza da vista faz-nos esquecer que o caminho é longo e íngreme.

 

A Vila de Nova Sintra é um deslumbramento: não é apenas beleza; é também o mais rigoroso asseio – nas casas, nas ruas, por toda a parte.

 

Nova Sintra, Foto Djibla

 

As flores fazem parte das coisas necessárias à vida: vêm-se nas janelas, nas praças, nas ruas … não há casa, por mais pobre, que não tenha à frente um pequeno jardim com roseiras. Há crisântemos de cores esbatidas que vão do branc ao lilás escuro, passando pelo rosa; amores-perfeitos, viletas – uma imensidade incrível numa terra cuja fama de aridez corre mundo.

 

Há anos havia ainda o costume, talvez eco do remoto culto pagão da Deusa Flora – de florir cada porta no primeiro de cada mês.

 

Nesta terra-jardim, sob uma permanente primavera, a luz tamisada pela cortina translúcida do nevoeiro, como poderiam nascer criaturas que não fossem meigas, amáveis, serenas e lindas como princesas dos contos de fadas?

 

Ali cada mulher do povo é uma senhora pelos seus hábitos, pela elegância do seu porte, pela delicadeza instintiva que põe em cada palavra, cada gesto…

 

Nada nos choca porque tudo é belo e essa beleza é tão natural e instintiva que não consegue surpreender-nos senão quando, já num ambiente diferente, a recordamos…

 

Porém, os homens da Brava não podem escolher o seu destino e têm que partir em busca de vida que, ali, não lhes oferece possibilidades de futuro. Mas partem sempre para voltar.

 

Por isso as mulheres de olhos cor de mel e expressão docemente resignada, passam a vida fitando o horizonte à espreita da vela que lhes há-de trazer notícias, do barco que lhes há-de trazer o que foi para voltar um dia…

 

Fitando a luz

duma esperança distante…”

 

In Boletim de Propaganda e Informação, Ano VII. N.º 96, Setembro de 1957

 

 

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2 comentários

De Am a 06.05.2012 às 06:55

" Descoberta num dia 24 de Junho, chamaram-na ilha de S.João. Depois, a natureza selvática da sua orografia, o bravio dos seus vales emmaranhados de vegetação hostil, e o abandono a que foi relegada durante muitos anos e ainda depois de habitada, deram-lhe o nome de Brava..."

Assim começa Eugénio Tavares, a crónica sobre a colonização da Ilha Brava...
Nascida de uma bela e drmática história de amor...

Merecia ser narrada...

De am a 06.05.2012 às 18:12

" As sua mulheres como nórdicas"... Terão vindo da Escandinávia?
Ou
"Minhotas" ... como as caracteriza  Eugénio Tavares?

Eu aposto nas portuguesas.... a menos que a autora não as considere brancas... ( essa era a anologia)


 

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    Muito bom o livro! 

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    Muito obrigada por nos presentear com estas inform...

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