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Porto Grande.jpeg

Foto Arquivo Histórico Nacional (AHN), Praia

 

 

É com um misto de orgulho e "basofaria de menino de SanVicente" e do Largo Jhon Miller que vejo a minha cidade ser elevada a objecto de estudo por um investigador da craveira de António Correia e Silva. Refiro o nome do largo porque este é indicador da presença significativa dos ingleses no desenvolvimento do Mindelo através do seu porto, o Porto Grande, com os barcos das companhias carvoeiras inglesas, questão que é espelhada na obra em análise. Isso, a amizade e o gosto pela "partilha da coisa cabo-verdiana" levaram ao meu envolvimento na apresentação desta obra. Obrigado António Correia e Silva por esta distinção e por mais esta prova de muita estima.

 

Permitam-me, antes de mais, destacar duas datas que o estudo Nos Tempos do Porto Grande do Mindelo nos fazem evocar: 1838, cujo Decreto de 11 de Junho [1]constitui a génese político-jurídica da cidade do Mindelo; e 1998, o ano da elaboração da monografia, também em Lisboa, passados que foram 160 anos sobre a primeira data.

 

1838

Causando gravíssimo prejuizo e transtorno á Administração publica da Provincia de Cabo Verde o retirarem-se em certos mezes do anno as principaes authoridades da Ilha de Santiago, aonde presentemente se acha fixada a sede daquelle Governo, para se sbtrahirem ás molestias, que periodicamente se desenvolvem na mesma ilha; e não sendo por outra parte justo, nem conforme aos principios da humanidade o obriga-las a stricta residencia naquelle local insalubre e maligno, com manifesto risco de suas vidas, sacrificadas sem nenhum proveito para o Estado; por estes ponderosos motivos, e por existir felizmente n'aquelle Archipelago uma outra ilha, a de S. Vicente, que gosa do melhor clima, e de outras vantagens, entre as quaes merece a maior attenção o possuir um porto dos mais espaçosos e seguros da Monarchia: Hei por bem Determinar que as principais Authoridades do governo Geral de Cabo Verde assentem residencia permanente na sobredita ilha de S. Vicente, e que para a construção dos edifícios do Estado, necessarios ao serviço da mesma ilha, sejam applicados aquelles meios pecuniarios, que se deveriam consumir na reedificação de taes edificios, que se acham em ruina na de Santiago, além de outros de que se possa dispôr sem detrimento do serviço publico. E em comemoração do desembarque das Praias de Mindello, do Exercito, a cuja frente Meu Augusto Pai veio Libertar estes Reinos da oppressão em que se achavam, e Restituir-Me o Throno usurpado.

 

Hei outrosim por bem Determinar, que a nova Povoação, que se levantar em S. Vicente, tenha o nome de Mindello, Reservando-Me Dar-lhe a cathegoria que lhe competir, quando, pelo augmento da população e mais circunstancias o merecer. O Visconde de Sá da Bandeira, Presidente do Conselho de Ministros e Secretario d'Estado dos Negocios Estrangeiros, interinamente encarregado da Pasta dos Negócios da Marinha e do Ultramar o tenha entendido, e faça executar.


Paço das Necessidades em onze de Junho de mil oitocentos trinta e oito.-

 

RAINHA.

 

Visconde de Sá da Bandeira

 

Fazendo nossos os belos versos de Jorge Barbosa, ao "descrever" o "Prelúdio"[2] de Cabo Verde – nessa hora então/ nessa hora inicial/ começou a cumprir-se este destino ainda de todos nós.

 

1998

 

Nos Tempos do Porto Grande do Mindelo – se me permite o seu autor aqui acrescentar como subtítulo "Os Tempos de Sabura de Sanvicente" – contém uma riqueza de informações sobre um período pouco estudado e, por isso, pouco conhecido da nossa História. A amplitude da consulta e a originalidade das fontes utilizadas por Correia e Silva, que não apenas as portuguesas, permite uma visão alargada e uma análise envolvente. S. Vicente, aparece, assim, inserido no contexto da História de Cabo Verde e da expansão europeia, não só a portuguesa, já que vários outros países, nomeadamente, a Espanha, a Holanda, a França e mesmo a América Inglesa, hoje Estados Unidos, usavam o porto como ponto de escala e inundavam a vila de pessoas de diversas origens, costumes e falares.

 

Não cuidem os prezados leitores que, por ser um trabalho de investigação histórica, o texto seja hermético, desinteressante ou fastidioso e apenas para pessoas iniciadas neste tipo de leitura. Longe disso. O estilo peculiar do autor de permanente questionamento prende qualquer um, levando-o a fazer uma leitura em ritmo acelerado à qual sente necessidade de voltar depois, por diversas vezes, para confirmar informações ou as usar em outros trabalhos.

 

Facto que não deve passar despercebido é a dedicatória que Correia e Silva faz à memória de Luís Loff de Vasconcelos, pela sua "coragem intelectual e cívica". Para quem não o conhece, apresento-o: L. Loff de Vasconcellos, nascido na Brava e falecido em S. Vicente em 1923, advogado e periodista, director e proprietário da Revista de Cabo Verde (S. Vicente, 1899), director de A Opinião (S. Vicente, 1902-1903) e proprietário de O Independente (Praia, 1912-1913), autor de A perdição da Pátria (Lisboa, 1900) e O Extermínio de Cabo Verde: Pavorosas revelações (Lisboa, 1903), entre outros, foi um patriota e um dos homens que mais batalhou pelo progresso de Cabo Verde e, particularmente, de S. Vicente. O seu nome fica ligado à consciência política e ao nativismo cabo-verdiano, pelo que o gesto de Correia e Silva é louvável e de reconhecimento do seu inquestionável valor histórico.

 

Nos Tempos do Porto Grande do Mindelo, surge, segundo Correia e Silva, no "desdobramento do esforço empreendido pelo seu autor na compreensão do papel desempenhado pela posição geográfica na definição do percurso histórico do povo cabo-verdiano", propósito já enunciado em Histórias de um Sahel Insular, publicado em 1995.

 

A monografia possui uma estrutura interna coerente e forte, cujos capítulos parecem ter sido elaborados como quatro ensaios autónomos.

 

O primeiro capítulo – S. Vicente deserta e marginal – é uma elucidativa revisitação da história de S. Vicente e de como a ilha era antes do Porto. Numa primeira fase, não mais do que campos de pastagem onde se desenvolvia actividades agro-pecuárias. Aliás, crê-se que é devido a esse tipo de actividade, a criação de gado, aí lançado por gente da ilha vizinha de Santo Antão, que o sanvicentino é pejorativamente chamado de "sampadjudo", que é o mesmo que dizer, "são palhudos", enquanto estes se vingam chamando os naturais de Santiago de "badios" ou vadios, remetendo-os a escravos fujões.

 

Seguiu-se uma segunda fase, com várias tentativas de colonização agrária, sendo seu principal impulsionar o Governador António Pusich, antes dos anos vinte, com secas e crises, até que, na década de trinta, sendo Governador o Conselheiro Pereira Marinho, o regime liberal projecta para S. Vicente a construção de um espaço comercial e cria a povoação do Mindelo.

 

No segundo capítulo – A conjuntura atlântica resgata o Porto Grande do Mindelo – Correia e Silva põe em evidência como a alteração da conjuntura atlântica, com as mudanças tecnológicas, económicas e políticas ocorridas em 1850, possibilitou a emergência do Porto Grande do Mindelo, "passando de um espaço marginal, semi-habitado e periférico a um dinâmico pólo de crescimento económico, e de crescimento demográfico, social, administrativo e económico". São elas: (i) o surgimento de Estados-Nações na América sob denominação Ibérica, o que faz enriquecer a sociedade e a economia internacionais com novas unidades de interacção; (ii) o declínio dos antigos fluxos comerciais, com a repressão ao tráfico de escravos e a abertura à emigração europeia, o que provoca o alargamento do mercado nos países sul-americanos e favorece a expansão das trocas internacionais; e (iii) a modernização da tecnologia de transporte na constituição de uma rede portuária de suporte à rápida circulação de bens, serviços e informações.

 

No terceiro capítulo – A Hora do Porto Grande do Mindelo – o ponto central deste trabalho, escrito numa linguagem empolgante e num estilo literário, inicia-se em 1850, quando o Governo de Lisboa autoriza ao cônsul britânico, John Rendall, o estabelecimento de um depósito de carvão de pedra necessário à navegação a vapor entre a Inglaterra e o Brasil, iniciando-se a partir daí o seu desenvolvimento.

 

A actividade do Porto Grande transcende o círculo restrito de S. Vicente ou das ilhas vizinhas de Santo Antão e São Nicolau, envolve todo o arquipélago e ultrapassa as fronteiras atraindo firmas inglesas, italianas, alemães e portuguesas.

 

A análise sociológica da cidade-porto feita por Correia e Silva é rica, inovadora e abrangente. O autor disseca a composição da sua população, analisa a sua demografia e explica, de forma científica, o processo de formação do seu proletariado urbano-portuário.

 

Foram vários os testemunhos culturais deste período áureo. Não resisto a transcrever, por exemplo, do poema matriz que originou a célebre morna “Um vez Sancente era sabe”, aliás, invocado na obra em apreço, alguns versos de Sérgio Frusoni (1901-1975), [tradução em português de Mesquitela Lima][3]:

 

E aquele movimento no porto!...

...........................................

No costado dos barcos é que era coisa!...

Gente em barda! Botes sem conta!...

E no meio de uma algazarra,

duma afronta:

catraeiros contratando fretes...

pescadores propondo trocas...

mergulhadores juntando nas bocas,

as moedas de prata apanhadas no fundo...

e o dinheiro, o dinheiro de todo o mundo,

(xelim para mim, xelim para ti, xelim para mim)...

a passar duma mão para outra,

de madrugada até à noite...

 

O quarto capítulo – A crise do modelo de crescimento do Porto Grande do Mindelo – é a disforia. O movimento marítimo, que tinha subido até 1881, mantém-se estacionário até 1890, depois do que começa a decrescer, atingindo o Porto Grande o seu máximo em 1889, com 2.265 entradas, e uma importação de quase quatrocentas mil toneladas de carvão[4].

 

O recuo da procura externa provoca uma crise no porto, cuja lógica do desmoronamento é explicada por Correia e Silva: num primeiro momento, a crise provoca a quebra de rendimentos fiscais e a redução do nível de emprego no porto e, em seguida, atinge os rendimentos dos comerciantes fornecedores de bens de consumo popular, já que o desemprego operário reduz drasticamente o volume da procura dos produtos por não se ter com que pagar. A conjugação destes factores passa necessariamente do nível do económico para o nível do social e cria uma situação tensa e insustentável na ilha.

 

O espectro da fome abate-se sobre a cidade e, a 20 de Abril de 1891, uma multidão de mais de duas mil pessoas reúne-se nos Passos do Concelho e pede providências urgentes. Depois disso, nada será como dantes.

 

As características da vida e das gentes do Mindelo, ainda nos anos dos rescaldos do Porto Grande, são retratados por vários autores literários, de Manuel Lopes e Baltasar Lopes a Júlio Monteiro, entre outros. De facto, graças ao porto, a ilha de S. Vicente tornou-se a "sala de visitas do arquipélago"[5], na expressão de Manuel Lopes, e uma "imensa janela aberta sobre o Atlântico através da qual os ventos da civilização e do progresso refrescam estas ilhas"[6], segundo Júlio Monteiro. A sua população – a "Gente do Mindelo" – distingue-se das demais, cujas características, segundo este último, são a herança de uma ancestralidade rica e vigorosa, entre as quais destaca: "a fidalga hospitalidade do povo, o amor ao trabalho e ao progresso, notável poder de assimilação, equilibrado sentimento artístico, respeito pelos seus deveres e direitos de cidadania, e até, um fino humorismo para apreciar as coisas mais graves desta vida”[7].

 

Um melhor conhecimento do passado histórico de S. Vicente permite, portanto, compreender a "Gente do Mindelo" e valorizar o papel que a cidade, parasita do porto, desempenhou na formação da Claridade, (1936-1960), na sua importância de "contestação perante a orientação política que subjazia à administração da, então, colónia de Cabo Verde, com o seu fascismo de importação e imitação e [que] ignorava ou violava os mais elementares princípios que regem a vida do homem e do cidadão e salvaguardam a liberdade individual"[8], como foi dito por Baltasar Lopes.

 

Esta obra Nos Tempos do Porto Grande do Mindelo fez, portanto, luz sobre um período áureo da História do Arquipélago, particularmente de S. Vicente, e constitui, por isso, uma referência obrigatória para qualquer estudo sério sobre a ilha do Porto Grande, dos seus primórdios aos fins do século XIX.

 

- M. Brito-Semedo

 


[1] "1838", In Notícias de Cabo Verde, Número Especial, Junho de 1938.

[2] Jorge Barbosa, "Prelúdio", In Caderno de um Ilhéu, Praia, 1956.

[3] "Sanvcênte já Cabá na Nada" ["Sanvicente já Acabou em Nada"], In A Poética de Sérgio Frusoni, de Mesquitela Lima, Lisboa, 1991, pp. 14-15.

[4] João Almeida, O Porto Grande de S. Vicente de Cabo Verde, Lisboa, 1938.

[7]Idem, idem.

[8] “Depoimento de Baltasar Lopes e Manuel Lopes”, In Claridade – revista de arte e letras, Edição fac-similada, Praia, 1986, pág. XIII.

 

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1 comentário

De bruno a 12.03.2017 às 13:43

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