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O Meu 1.º de Maio de Diazá

Brito-Semedo, 31 Mar 12

 

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Casa de esquina onde nasci, Chã de Cemitério, Mindelo. Foto Maria Catela, 2010 

 

 

“A memória nostálgica dos lugares encantatórios […], a vila da infância. Dessa infância, donde vêm as imagens e as emoções que norteiam a vida. Toda a vida: não há flecha que não tenha o arco da infânica” - Manuel Alegre, in Alma, 1995

 

O parto, ocorrido na casa da Chã de Cemitério, na cama da Nha Liza, foi muito difícil e trabalhoso – só viria a acontecer muito tarde da noite, eventualmente de madrugada, depois de muito trabalho – porque o menino era muito gordinho e preguiçoso e a mãe, inexperiente, não ajudava muito.

 

A Nha Júlia, nossa vizinha e minha parteira, contava-me este último episódio vezes sem conta, dizendo naquele seu jeito maroto, que eu tinha “maltratado” muito a Xanda e que, até ela (Nha Júlia) morrer, eu não lhe poderia pagar pela canseira que teve comigo.­ É que ela ficou com o pescoço intriço[1] por quinze dias, pela forma como a Xanda a agarrou durante as contrações e na hora da expulsão da criança!

 

Sempre fui uma criança muito agitada, com “bicho-carpinteiro no corpo” como diziam, e a Xanda relacionava isso com o facto de eu ter nascido nas vésperas da festa de Santa Cruz (1.º de Maio), na Salamansa, dia de muita trupida[2], do tocar-tambor, do colar[3] e de muita confusão, seguida das festas juninas de Santo António e São João, na Ribeira de Julião, e de São Pedro, em São Pedro.

 

Nha Juninha.jpeg

Nha Joninha de Nha Néné d' Virisse, Mindelo. Foto Maria Catela, 2010

 

Anos mais tarde, contou-me a filha do Nhô Virisse, a Nha Joninha, colega da minha mãe e minha madrinha de registo, juntamente com o irmão Casimiro, que, nesse tempo, eu acordava muito cedo e saía logo para a rua, nuzinho, a comer um pão inteiro, pois dizia que não o queria “sem tampa”, ou seja, sem tirar nenhum pedacinho.

 

Como eu era muito gordinho – louvar-a-Deus, esconjurava a Mãi Liza, que me achava bonito assim – o Nhô Virisse divertia-se em espirrar-me água fria para me ver correr, assim rechonchudinho, o que eu fazia com a dificuldade das minhas perninhas roliças (verdade, eu era um tchuquin!).

 

Volta e meia, Nhô Virisse dizia a frase que a Nha Joninha me tem repetido ao longo dos anos, sempre com grande orgulho e muito apreço: – Escrevam o que eu digo: Êss m’nine ta dá gente![4]

 

N´ê ke k’el m’nine dá gente[5]?! – diz-me ela, hoje, toda sorridente.

 

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Minha escola da Chã de Cemitério, Mindelo. Foto Maria Catela, 2010

 

"Como é bom fazer anos! Ter velas acesas e força ainda para as apagar. Eu, que dos anos perdi a conta, em vez de velas preferia estrelas. Pudesse tê-las sobre o bolo, coloridas e acesas sempre! O Destino, porém, que nos deu o fogo e o dom de o acender, de ano a ano nos oferta velas, mas quer que as apaguemos" - Arménio Vieira, in O Poema, A Viagem, O Sonho, Lisboa, Caminho, 2009

 

in Na Esquina do Tempo – Crónicas de Diazá, Praia, 2009

  


[1]Inteiriço (tradução literal), ficar com torcicolo.

[2]Movimento de muita gente.

[3]Cantar ou falar em voz alta.

[4]Este menino vai dar gente (vai ser alguém na vida)!.

[5] E não é que aquele menino se fez gente?!

 

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10 comentários

De valdemar pereira a 01.05.2012 às 02:17

Das estórias que aqui contas só muito mais tarde vim a saber pois a Xanda andava um pouco afastada durante a gestação. Já não era a menina que conhecemos. Agora era uma senhora. Nós , os meninos da sua toada, quase que não a víamos mas de quem tínhamos raiva mesmo era do tal Policia, o safado que apareceu por ali para nos contrariar.
Mas tudo acabou por bem e o vaticinio do velho Nhô Virisse (pai do meu compadre Olavo) foi certo: "o menino deu gente gente", para o nosso orgulho.
Parabéns, Manuel, pelo dia de hoje e que este dia se repita por muitos anos e bons.
Valdemar

De Brito-Semedo a 02.05.2012 às 10:10

Fico sempre sensibilizado com as suas palavras. A Xanda gostaria de saber dessa nossa troca de confidências. Um grande obrigado e braça forte!

De José Lopes a 01.05.2012 às 08:43

Brito-Semedo parabens  pelo teu aniversário e pela linda história do teu nascimento. Afinal somos da mesma zona. Eu da Rua da Moeda -Praça Estrela tu do Chã de Cemitério ou cercanias.Abraço e que continues a trabalhar este excelente site de cultura e história

De Brito-Semedo a 02.05.2012 às 10:07

Caro Amigo e Menino de Zona, Por ser gente fina, eu já devia ter desconfiado que era dessa casta de gente esforçada e boa e enraízada no seu torrão natal! Obrigado pelos votos e braça forte!

De Anónimo a 01.05.2012 às 10:08


Ade, Manel, parabéns, Moç! Bo dá gente e bo vrá Hom de ciência, ui, nha Mãi! Parabéns à tua abnegada parteira, pelo trabalho bem feito! Parabéns a tantas pessoas como ela, que trabalham sem olhar pelo salário; que trabalham pelo amor à profissão e pelo sentimento do dever cumprido. Neste dia, lancemos um olhar  também a 200 milhões de pessoas em todo o mundo que não têm trabalho/emprego. Um olhar às pessoas que ainda trabalham em condições desumanas, em regime de escravidão ou no trabalho infantil. Parabéns a todos que hoje trabalham sem pensar que este é um dia feriado: profissionais de saúde, de segurança pública, de restauração, de telecomunicações, etc. Afinal, não faltam motivos para comemorarmos o 1º de Maio! E, se em Cabo Verde e em Portugal o 1º de Maio começou a ser comemorado em 1974, lá em Mindelo, lá na nôs Chã d' Cemitério, o 1º de Maio começou a ser comemorado em 1952! Braça!

De Brito-Semedo a 02.05.2012 às 10:26

Faltou a assinatura, mas isso só pode ser dum Chã-de-Cemiteriano do meu tempo :-)! Obrigado pelos votos! Viva o 1.º de Maio de 1952 e Viva o 1.º de Maio de hoje em dia! Braça!

De Amendes a 01.05.2012 às 10:57

... Foto :" Casa da esquina... "

De riba de porta, vejo uma placa escrita...

Será de louvor à parteira Nhâ Júlia ( pelo seu trabalho suado e abnegado) ou/ ao bebé lá dado ao mundo... hoje feito homem ... bom e bem criado'?...

Parabens!

De Brito-Semedo a 02.05.2012 às 10:03

Caro Amigo, Obrigado pelos votos! A placa em cima da porta é de homenagem à Xanda, minha Mãe, por ter estado em trabalhos... de parto, nesse 1.º de Maio de diazá :-).

De João Sá a 02.05.2012 às 07:38

Estimado, receba o meu forte abraço de parabéns, pela data, pelo texto, por este nosso espaço de partilha que me tem vindo a mostrar "o" Cabo Verde que não se prende em escolas ou escritos, o país real e o tanto que tem de fascinante.
Um grande bem haja e que seja já hoje o início de mais um ano de sucessos e realização pessoal.

De Brito-Semedo a 02.05.2012 às 10:00

Obrigado pelos votos! Feito o up grade para a versão 6.0, sinto-me (ainda) com forças e ânimo para continuar nesta senda e com esta parceria com o Sapo.cv , o que, diga-se de passagem, me tem dado muito prazer. Um abraço Amigo, B-S

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