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A Medicina Alternativa em Cabo Verde

Brito-Semedo, 7 Mai 12

  

Medicina Tradicional.JPG

 

Antes de mais, permitam-me que faça uma declaração de fé como forma de reduzir quaisquer expectativas a respeito da minha pessoa ou do que vou dizer. Sou Antropólogo, com especialidade em etnologia, com trabalhos desenvolvidos no âmbito da etnohistória de Cabo Verde.

 

Não sendo, portanto, da área da etnomedicina, voltada para a conservação e a recuperação da saúde, nem da área da etnobotânica, que lida com a utilização de plantas medicinais, com práticas que têm sido transmitidas oralmente ao longo dos séculos, trarei algumas notas, mais em jeito de evocação que de reflexão, sobre alguns aspectos da medicina popular e familiar, praticada pelos membros das nossas comunidades, enquanto manifestação cultural.

 

A verdade é que a medicina popular ou tradicional existiu desde sempre em Cabo Verde como uma alternativa, algumas vezes até como complemento à medicina científica, por ser simples, acessível, rápida e barata para responder às necessidades das comunidades das ilhas, sobretudo as mais frágeis economicamente.

 

As minhas infância e adolescência, anos 50 e 60, foram repartidas entre Mindelo e Praia, que é como quem diz, entre “mótes de chá” da Mãi Liza, e “ramédis di tera” da Nhanhã, as mezinhas caseiras usadas na altura para curar as maleitas da miudagem.

 

Convém explicar que o meu conceito aqui usado para definir “mótes de chá” (Mindelo) compreende palhas de chá, as mais diversas, xaropes, plantas, produtos animais, óleos e unguentos, idos de Santo Antão e vendidos no Pelourinho de Verdura / Mercado Municipal. Da mesma forma, o meu conceito de “ramédis di terá” (Praia), refere-se a folhas de chá, xaropes, plantas, produtos animais e óleos, trazidos do interior da ilha, e também minerais, estes, vindos do vulcão do Fogo, vendidos numa secção própria do Mercado Municipal, com a réplica no Mercado de Santa Catarina e do Tarrafal.

 

O tabaco ou o rapé era usado para curar e ajudar a cicatrizar o umbigo; os ‘mótes de chá’ ou ‘fódjas di chá’, para as cólicas abdominais dos bebés, as febres, as dores de estômago e intestinais; as pílulas da babosa como laxante, para ajudarem a ’obrar’; o óleo de fígado de bacalhau, para eliminar os parasitas intestinais; as teias de aranha e as folhas da 'bombardera' (planta da sumaúma), para cobrirem as feridas na canela; o ‘leite de bombardera’, para curar os entorses provocados pelo jogo da bola; o grogue queimado com açúcar, para os resfriados e a rouquidão; os xaropes de cenoura, de agrião e de cebola, para a tosse; o sabão de terra (óleo da purgueira), para a sarna e demais problemas da pele; e por aí fora, com grande eficácia, diga-se.

 

Já nas minhas adolescência e juventude, anos 60 e 70, conheci em S. Vicente o Nhô Djack de Cinema, homem de São Nicolau com cerca de dois metros de altura, um ‘endireita’ que, com delicadeza e depois de desinfectar as mãos com 10$00 de grogue, fazia maravilhas para levar os ossos deslocados ao lugar. Falava-se então do Nhô Anton Julinhe, em São Nicolau, um verdadeiro “doutor de ossos”, que também conhecia as propriedades da areia quente da praia do Tarrafal e dos banhos de folhas de plantas para a cura do reumatismo. Havia também o ‘grogue de drago’ ou o ‘grogue de sangue-de-drago’ (sangue de dragoeiro), para as dores de corpo.

 

Nessa mesma altura, falava-se à boca pequena de homens mais velhos que arranjavam raparigas novas e que tomavam regularmente o seu calicezinho de grogue de percebes ou de ‘bargadjo’ (pénis) de tartaruga, de efeitos afrodisíacos, dizia-se.

 

Reconheço que a medicina popular ou tradicional é um assunto muito mais complexo do que aqui foi dito, que há uma enorme variedade de métodos utilizados para o tratamento de doenças e que estes métodos são baseados no conhecimento compartilhado ao longo de muitas gerações, ocasionalmente enriquecido pela experiência pessoal.

 

Durante as discussões desta manhã, espero ouvir do estado do projecto de investigação e compreender em que medida estas práticas constituem alternativa à medicina convencional, quando hoje é relativamente fácil o acesso às estruturas básicas de saúde.

 

No que respeita às plantas medicinais de Cabo Verde, de que existem já alguns trabalhos etnográficos, gostaria também de saber sobre o seu uso nos cuidados de saúde primários.

 

Ressalvado o âmbito da minha intervenção expresso no início, termino agradecendo a vossa atenção a esta contribuição sobre a minha experiência participada nos costumes das gentes da nossa terra.

 

- Manuel Brito-Semedo, Pres. CD do Departamento Ciências Sociais e Humanas da Uni-CV

 

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Foto Carlos Santos, Membro da Equipa do Projecto
Legenda: Brito-Semedo, Pres. CD; Adriana Carvalho, Vice-Reitora; e Arlindo Mendes, Coordenador do Projecto.
 

NB - Texto de abertura do "2.º Seminário de Meio-Percurso sobre "As Práticas Socioculturais de Medicina Alternativa em Cabo Verde", Auditório da Reitoria da Uni-CV, 07.Maio.2012

 

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3 comentários

De Amigo de Familia a 08.05.2012 às 10:05

A propósito:

Presto a minha saudosa homenagem ao HOMEM que mais entendia do assunto:

Senhor AGOSTINHO "de Farmácia Leão" / S.Vicente...
Nena foi seu aluno!



 

De Amendes a 08.05.2012 às 10:51

Meu Caro Amigo

Se grogue + Y cura... vamos às águas que  também merecem:

..." Em Cabo Verde as ilhas de Santo Antão, S. Nicolau e Brava, apresentam fontes de águas sulforosas, gasosas e ferruginosas, com provadas qualidades curativas...
" Por exemplo em Santo Antão, além das águas minerais de menor importância: -- Tanque Vermelho, Canto da Cira, Gamboezas, Tupiminho, Ribeirãozinho, Cova da Casada, etc. conta-se a chamada "àgua da Fonte do Doutor"...que segundo observações locais do DR Cesar Gomes Barbosa, ao emergir e sob a pressão de 747 mm,60 marca 28º de temperatura, e é dum sabor adocicado-alcalino ferruginoso. Límpida na origem esta água deixa evolar finissimas bolhas gasosas... ( Boa para o aparelho digestivo)...
..." As águas do "Torno" de S.Nicolau tem também propriedades ferruginosas além de magnifico paladar as as tornam soberba água de mesa.
..." Na Brava existem as águas minerias conhecidas por " água de vinagre" devido a sua acidez e entretanto também usadas comummente para bebida e gastos culinários...
" O médico caboverdeano César Gomes Barbosa... então chefe de Saúde da Guiné Portuguesa, defendeu com cópia de argumentos, o estabelecimento de estãncias de CURA e repouso em Santo Antão...
" Analizadas as condições climáticas das ilhas após um documentado balanço de probabilidades e cotejo do meio fisico da Brava e Santo Antão, aponta-se nesse estudo a superioridade de se estabalecer de preferência um sanatório para doentes e convalescentes da costa da África Ocidental, a quem não convenha uma rápida mudança de clima, do calor tropical para o frio do inverno da Europa"

De: Crónica Quinzenal da Vida de Cabo Verde/ Panorama Termal do Império/ Sociedade Geografia de Lisboa.( 1901)

De Amendes a 08.05.2012 às 20:40

PLANTAS MEDICINAIS DE CABO VERDE

Aipo de Rocha -- lavandula rotunfolia
Erva Cidreira -- Micromeria forbesti
Gistiva -- Sarcostemma daltonili
lantisco -- Periploca chevalleri
Teixeirinha Brava - Erystimum caboverdeanua
Lingua de Vaca - Echium hypertropicum

Para que são utilizadas-- preparação e doses -- sob consulta.

Não se acanhe... fale comigo!

( Selos de Cabo Verde 1991)

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