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Hospital da Praia (Arquivo Histórico Nacional, Praia) 

 

 

Em vão! Em vão ansiamos a ventura!

Somos na terra qual viajante exausto!

Que ouve o sussurro d'escondida fonte

E morre à sede sem poder tocá-la!...

 

(Soares de Passos)

 

__

 

 

(Continuação)

 

 

II

 

 

No dia seguinte, ou fosse efeito da singular predisposição de espírito que de nós se apodera ao entrarmos no hospital, ainda mesmo de perfeita saúde, ou que perfeitamente me não desse bem com aqueles ares, amanheci com a cabeça turva e pesada, nervoso, sentindo um incómodo geral e uma irritação de espírito que aumentou com a entrada do servente dos quartos, com o qual comecei por embirrar solenemente por me levar chá em lugar de café, a que estava habituado pela manhã.

 

– São as ordens! Disse-me o tratante com a maior placidez, poisando a bandeja em cima de uma cadeira à cabeceira da cama.

 

– Pois chame já o Sr. enfermeiro!

 

– Presente! Disse uma voz de falsete.

 

Era o tio Olifus, que tinha deslizado no quarto atrás do servente.

 

– Faça favor de mandar trazer-me café.

 

– É preciso pedir primeiro ao doutor. A sua dieta é chá...

 

Ouvindo isso, acabei de perder as estribeiras.

 

– Levem os diabos o chá, mais a dieta e o doutor!... O Sr. sabe...

 

Chiton! Fez-me o enfermeiro com um gesto expressivo, indicando o servente.

 

Engoli em seco... e para disfarçar fui também engolindo o chá, com as competentes fatias.

 

O criado saiu levando a bandeja, e eu comecei a queixar-me ao enfermeiro da indisposição que sentia.

 

Parece-me que estou realmente doente! Concluí, com voz lamentosa.

 

– Tanto melhor! Respondeu-me o tio Olifo, sacudindo a cinza do cachimbo. Pois não era o que o Sr. queria?...

 

– Não, Sr. ... entendamo-nos! O que eu quero é a licença.

 

– Não se pescam trutas a bragas enxutas... É preciso pelo menos que o Sr. se queixe de alguma coisa ao doutor...

 

– Sem dúvida, mas...

 

– Mas... que mais quer o Sr. Cunha?... Segundo os sintomas que dá, temos doença pronta, uma gastrite magnífica!...

 

– Hein!?... exclamei eu, assustado.

 

– Deixe lá as calças, homem!... Olhe que não deve levantar-se antes da chegada do doutor...

 

– Mas, Sr. sargento... isso de gastrite...

 

– E então?... Cura-se logo e depois apanha a sua licença, um mês pelo menos, para tomar águas férreas na Brava...

 

– Com esta perspectiva resignei-me a de uma gastrite, tanto mais que só o anúncio dela como que me curou por milagre das veleidades nervosas que sentia.

 

Chegou a hora da visita clínica, e tendo o enfermeiro dado conta do caso ao facultativo... bem entendido, somente o caso da gastrite... o doutor formulou, contentando-se apenas com tomar-me o pulso, olhando-me de revés com aquela vista de águia de certos facultativos, que parecem dizer-nos nas bochechas:

 

– Ah! Seu maganão!... Você o que tem é uma grande manha no corpo: mas espere, que já lho digo...

 

Zás! Um purgante que nos põe logo fracos e mansinhos, que nem uns cordeirinhos.

 

Abstenho-me de contar ao leitor as demais peripécias deste primeiro dia do hospital, empregado exclusivamente em não fazer coisa nenhuma e em aborrecer-se de morte, com a única distracção da palestra de alguns enfermeiros meus conhecidos e a visita de um ou dois dos meus amigos e colegas que foram saber da minha importante saúde e causticar-me com fartos epigramas, pois acreditava tanto na minha doença como nos milagres de Mafoma.

 

O facto é, porém, que fui buscar lã e vi-me tosquiado, pois, efeito do purgante, provavelmente, na manhã do segundo dia acordei com falta de respiração e o fígado inchado... o que fez esfregar as mãos de contente ao maroto do tio Olifo.

 

– Bravo! disse ele. Agora temos hipertrofia do fígado! O amigo não apanha menos de dois meses de licença...

 

– Dois dardos que o atravessem, malvado! gritei eu exasperado. Se você sabia que o purgante me faria mal, porque mo deixou tomar?...

 

– Para o limpar... é boa! Pois um purgantezinho faz lá algum mal?...

 

Tive tentações de esganar aquele maldito, mas contive-me, esperando não ter de aturá-lo senão uns três dias, tempo suficiente para poder apresentar-me à Junta.

 

Desta vez, o doutor fez-me deitar a língua de fora e receitou cataplasma de linhaça, e outra coisa... que rejeitei redondamente no nariz do tio Olifo.

 

Basta de brincadeiras! Disse-lhe eu. Antes quero ir-me embora e ficar sem licença, do que deixar a vocês embutir-me no bucho toda a trapalhada, e afinal apanhar alguma doença a valer... Nada! nada!... E depois, já estou morto de aborrecimento! Se ao menos pudesse levantar-me e passear por aí...

 

O velho diabo expeliu umas poucas baforadas do seu inseparável canhoto, e retorquiu-me com toda a placidez:

 

– Como quiser... Mas lhe digo que o Sr. tem medo e se aborrece muito depressa... Olhe, se estivesse aqui há três meses, sempre de cama, e de mal a pior, como esse pobre D. João...

 

Ora até que afinal entra em cena o D. João! Exclamará neste ponto o leitor, atalhando o meu espanto e as explicações do tio Olifo.

 

Que perspicácia a do leitor! E há que tempos terá ele adivinhado que D. João era meu vizinho de quarto, e que mais hora ou menos hora havíamos de travar conhecimento, e chegar às confidências!

 

Já não se pode fazer fortuna, hoje, com surpresas de romance! E decididamente... não conto mais!

 

(Continua)

 

 

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