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Foto Daniel Monteiro Júnior

 

 

Em nome da Universidade de Cabo Verde e em representação da sua Comunidade Académica é com muito prazer e honra que os recebemos neste Auditório e é com desmesurada honra recebemos os Novíssimos e excelentíssimas famílias.

 

A Universidade Pública de Cabo Verde é concebida como um projecto de ensino superior com a missão de capacitar a nação cabo-verdiana de modo a vencer os grandes desafios de desenvolvimento e modernização do país.

 

Através de programas de ensino, investigação e extensão a Uni-CV procura contribuir para o progresso sustentável e a inclusão social dos cabo-verdianos para o reforço da identidade cultural da nação, bem como para a competitividade da economia cabo-verdiana.

 

Nesse sentido, a Universidade de Cabo Verde tem como um dos eixos de intervenção o reconhecimento de escolas científicas, literárias e artísticas dum modo geral, que se desenvolveram e se desenvolvem em Cabo Verde e que assumem a missão e os valores defendidas pela academia pública, entre as quais a liberdade, a equidade e a solidariedade, como caminhos para uma sociedade justa e dinâmica.


A sessão de hoje é o reconhecimento do movimento SELÓ como escola e tem lugar no âmbito do “2012, Ano da Língua Portuguesa”. Uma escola literária, uma escola de intervenção, de cultura e de emancipação. Amílcar Cabral disse que a luta para a independência era (e foi) um acto de cultura. Essa consciência certamente foi a que presidiu ao surgimento da cadeia de movimentos literários em que SELÓ se insere, integrada por cabo-verdianos que fizeram da cultura a arma para a independência.

 

Estamos aqui para comungar momentos de Evocação e Celebração duma geração de jovens que como simples cabo-verdianos decidiram saldar a sua dívida para com o seu povo e viver a sua época, para tal tendo-se munido de todas as armas de que dispunham: as palavras, o engenho e a arte.

 

Com efeito, cinquenta anos atrás, no alvor da sua consciência social como cabo-verdianos, duma época diferente da dos claridosos ou das gerações seguintes (Certeza e Nova Largada/ Suplemento Cultural) – consciência essa que lhes trouxe o sentimento de dívida e a necessidade de intervenção – os Novíssimos perceberam que os problemas sociais dos cabo-verdianos mantinham-se: eram recorrentes. E perceberam também que as armas disponíveis eram as mesmas. Mas que a forma teria que encontrar novas vias, novas eficácias.

 

Hoje, meio século após a publicação da primeira página dos novíssimos no número 321 do Notícias de Cabo Verde, estamos aqui, enquanto Universidade da Nação Cabo-verdiana, para retribuir aos Novíssimos a homenagem que prestaram a esta Nação ao darem o melhor de si para denunciar a situação de repressão, miséria e fome, em que se encontrava na época o povo das ilhas.

 

Queremos reconhecer que somos vossos tributários. Toda a Nação Cabo-verdiana e a sua/nossa Universidade.

 

Queríamos vivamente dizer-vos:

Seló!

 

The sails are on: as velas estão abertas!

 

Queríamos anunciar ao Arménio que já sentimos o mar.

 

Não o mar azul
De caravelas ao largo…
Mas um mar que nos abraça e nos une e nos alimenta de água doce, de peixes, algas, medicamentos, energia…

 

Ao Jorge,

 

Queríamos afiançar que,
Se ao emigrante perguntarem porque partiu,
Não negará o destino da sua terra,
Mas dirá que nela se formou e que vai cumprir o destino de também colocar Cabo Verde no Mundo;

 

Ao Rolando,

 

Que depois da Hora Grande, as paixões continuam a amontoar-se nas praias longas das nossas ilhas.
Na areia já só chispam abraços, de amor e morabeza…

 

Dizer à Maria Margarida

 

Que os filhos de Cabo Verde já nascem com dignidade de cidadãos e que Cabo Verde tem um lugar e um projecto para seus filhos: educação, saúde, protecção social, e muitas oportunidades de participar na construção da terra. Já não se vive e se morre esperando… egídiamente…

 

Ao Mário

 

Que o balaio/vida do cabo-verdiano hoje está cheio
De produtos da nossa terra: milho de barragens, alfaces de hidroponia, batatas de águas tratadas em ETAR;

Os pilões a ressoar são aviões nos aeroportos internacionais, porta-contentores nos portos, fábricas, aerogeradores…

Que notre pais est une musique espaiód na mund inter. As gargalhadas de escárnio já não têm mais lugar porque foram silenciadas pelo concerto polifónico das ilhas.

 

Ao Manuel Duarte,

 

Dizer apenas que continuamos com os pés fincados na terra, mas a Terra agora é o Planeta.

 

Ao Oswaldo dizer que,

 

As tabancas já estão assentadas nas achadas floridas
Ao ritmo do batuque das máquinas
Do passado de que triunfámos apressamos o nosso dom de homens
Dominamos a terra criamos vida
Guindamos de submetidos a dominadores
Possuindo a terra que nos possuía
Frutificando-a com o espasmo novo que brota dos nossos rins
E o desígnio da consciência iluminada
Porque continuamos a ser a geração doadora da esperança
Da seiva nova que ri das lestadas com fartura de sementes nos dedos lavrados
Dos poemas do som comunal e do enterro do lirismo inadequado
Porque por vós, foram desmontados os mitos
E no regresso à pureza original
Possuídos estamos ainda de amor e construção
Batuque de gozo em nossos ternos braços
Batuque no regaço por amor conquistado
Batuque espasmódico no dia da posse da Mamãe-Terra

 

Seló, o infinito se detém em nós!

 

Que continuem as novas gerações na esteira que lançastes.

No fim da jornada, quando acreditarmos em nós, terão passado mais cinquenta anos, e não estaremos no ponto de partida,
Porque convosco descobrimos a origem das coisas…

 

Seló! Seló! Senhores Novíssimos!

 

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Foto Daniel Monteiro Júnior

 

- Paulino Lima Fortes, Reitor da Universidade de Cabo Verde

 

  Praia, 25 de Maio de 2012

 

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