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Viagem Cósmica

Brito-Semedo, 31 Mai 12

 

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- Jorge Martins, Oeiras, Portugal

 

Sem qualquer outra explicação – nem a pretendo encontrar – que não o deleite de martirizar a saudade, nestes últimos tempos, última semana mais propriamente, tenho escutado muitas vezes o último CD do compositor, músico e interprete, de CV, um grande amigo e homónimo, Jorge Humberto.

 

De voz, quase gutural, que mais parece um sussurro cantado, Jorge Humberto, um dos poucos que se pode dar ao luxo de, escrever, compor e interpretar, as suas criações. Um verdadeiro Cantautor, que não escreve canções, antes, canta poemas.

 

Não é de rimas fáceis, muito menos óbvias. Preocupado com os reais problemas de uma sociedade, onde faltam referências e rumos - como em grande parte, também à da cidade de Mindelo/São Vicente – que vive num emaranhado de trocas e favores, sejam eles de que índoles forem, dizia eu, essas preocupações fazem com que a sua obra seja apenas conhecida/reconhecida por poucos.

 

Avesso a guindar-se em bicos de pés, mas firmemente estribado no seu real valor, não é do agrado dos empresários que dominam a cena musical de CV.

 

Quem pensa pela sua cabeça, normalmente não tem muitos amigos e, quem não dobra a espinha para agradar aos intermediários (leia-se agentes), verdadeiros parasitas do meio artístico, que a despeito de possuírem contactos, fazem-se valer deles, para a troco de alguns e-mails ou telefonemas, arrecadarem a parte de leão nos eventos, onde colocam os seus amigos (leia-se, novos escravos), Jorge Humberto, não vem conseguindo a visibilidade e/ou reconhecimento do seu verdadeiro talento.

 

Ontem na minha deslocação diária a Lisboa no comboio da linha do Estoril, apreciando como sempre o lindo percurso entre Oeiras e Lisboa, estava a escutar no meu iPod, precisamente a morna de Jorge Humberto – "Nu, Nostalgia" – em que canta:

 

'Na bô sorriso tem um raio de Sol
Que tá lembram Sol de nhâ Terra
Na bô corpo tcheu rotcha nu
Nu, nostalgia…
Bô é um criola
Bô é’nê fantasia
Bô é d’mar de nha Terra...
Bô tem um ar de criança
Q’ um cá incontrá na nh’infância...

 

... e, ela sentou-se à minha frente, tal qual a letra dizia. Crioula linda, jovem e capaz de nos fazer acreditar que a perfeição existe.

Sorriu, pediu-me desculpas por me ter tocado com a sacola... sentou-se, olhou-me e voltou a sorrir, um tanto envergonhada... fiquei naquela impressão incómoda mas ao mesmo tempo agradável, de ter à minha frente alguém, que me reportou a um passado não muito distante e, que, sem querer, me faz estremecer tentando conter uma certa emoção.

 

Olhei pela janela, e vi desfilar o Tejo, calmo e esplendoroso. Por breves instantes, fui e, regressei do meu local de infância e adolescência, como na coladeira, "Estrela Cadente" do mesmo autor:

 

Na luz d’um coladera
Um viajá dínfinito tê Terra
Moda um estrela cadente
um traçá nha rumo
Nhâ destino era Soncente

 

Um abraço Jorge Humberto e, obrigado pelo voucher, para essa minha viagem na tua "Estrela Cadente", até à minha "Nostalgia", num percurso entre Oeiras e Santos...

 

Oeiras 2012-05-31

 

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2 comentários

De Anónimo a 31.05.2012 às 16:29

Obrigado Lalela por este Quadro de Honra. 


É como passar no exame da 4ª Classe, com Distinção :)


Mantenhas

De Brito-Semedo a 31.05.2012 às 17:16

Nada a agradecer, Bróda ! O "Na Esquina" só promove aquilo que vale a pena! Braça e bom fim de semana!

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Suspende fragmentos na câmara escura, que se revelam à luz da lembrança...

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