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Crónicas A Manduco... (9)

Brito-Semedo, 17 Ago 10

 Foto de António Gomes, 2010 - Project "Pó de Bruma" BW and Poetry

 

O álcool, quando bebido em doses moderadas, constitui um alimento valioso, sobretudo para os que têm de executar trabalhos exigindo grande esforço muscular. Excedidas, porém, essas doses, torna-se um veneno perigosíssimo quer para o indivíduo quer para a sociedade.

 

Antes de mais nada, porém, devemos dizer que há várias espécies de álcool e cada uma delas tem a sua toxidade, de modo que umas são mais nocivas do que outras; a mais inocente e a que principalmente se usa entre nós, em virtude da sua abundância e barateza é a constituída pelo alcoolethylico ou vincolo que se bebe sob a forma de vinho, aguardente do vinho e cognac.

 

O álcool de cereais é muito mais nocivo; e das bebidas que o contêm (aguardente de figo, de cereais, etc.) só a cerveja boa se pode aconselhar, porque na realidade, esta bebida é pouco alcoolizada e possui quantidades nutritivas muito aproveitáveis.

 

Todas as outras espécies de álcool ingeridas sob a forma de absinto, whisky, kirsch, etc., são absolutamente condenáveis, por violentamente tóxicas. No nosso país há, pois, duas bebidas alcoólicas recomendáveis, em doses moderadas; o vinho e a cerveja. Mas o que deve entender-se por doses moderadas? Seis ou oito decilitros de vinho por dia, ou o dobro de cerveja, para aqueles que se dedicarem a trabalhos exigindo esforço muscular de importância. Além destas quantidades, o indivíduo, no fim de certo tempo, está sob a influência de um envenenamento crónico devido ao álcool, e que se designa por alcoolismo crónico. Muita gente imagina que alcoólico é só aquele que bebe grandes doses de álcool, embebedando-se com frequência.

 

Constitui isso um erro que importa desfazer. Para ser alcoólico não é preciso embebedar-se frequentemente, podendo nunca mesmo embebedar-se; basta que beba mais do que doses moderadas. E então vem os maiores malefícios para o indivíduo e para a sociedade. O alcoólico envelhece precocemente em resultado de uma grave perturbação de todos os seus elementos vitais. O estômago, o intestino, o fígado, o coração, as artérias, o cérebro, enfim, todos os tecidos orgânicos sob a influência da intoxicação alcoólica que se acentua mais ou menos lenta, mas sempre progressivamente, alteram-se. E se fisicamente o alcoólico se torna um velho antes do tempo, morrendo cedo pela fraca resistência que opõe às doenças, moral e intelectualmente transforma-se num louco ou num criminoso arrastando os seus à miséria e à vergonha.

 

Mas o alcoólico não se prejudica só a si; prejudica também grandemente a sociedade e não só por ser um mau cidadão mas ainda por lançar nela filhos que geralmente são criminosos e loucos. Para dar uma ideia precisa e clara deste facto de importância capital, vou apresentar estatísticas que têm todo o valor científico pois que diferentes sábios e em diferentes lugares chegaram às mesmas cifras. Comparando entre si os filhos de dois grupos de dez famílias em circunstâncias económicas idênticas, vê-se o seguinte: – Um dos grupos, no qual não havia vestígios de hábitos alcoólicos, tinha 30 filhos vivos e normais, 7 morreram, 2 ficaram mentalmente inferiores e 2 apresentavam deformações congénitas. Das dez famílias de bebedores houve apenas 9 normais, 24 morreram, as restantes 22 crianças, eram idiotas, mal conformados e epilépticos. Este quadro é bem eloquente mostrando à evidência que os filhos dos alcoólicos nada mais são do que candidatos aos hospitais de alienados e às penitenciárias. As relações, sob o ponto de vista criminal, entre o alcoolismo e o crime ressaltam com não menos eloquência do quadro que segue: – Numa dada região e num período que vai de 1872 a 1895 entre 202 condenados à morte havia 121 ou 59,9%, de bebedores de profissão; entre 216 condenados a trabalhos forçados perpétuos havia 118 ou 54,6%, bebedores de profissão; entre 2.388 condenados a outras penas mais leves, havia 1.157 ou 44,7% de bebedores profissionais.

 

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Dr. Eusébio Leão, médico dos hospitais – Almanach de A Lucta[1], pág. 77 a 79 – Leiam, meditem, penetrem e se compenetrem. Todos, sim?

AFRO

 

in "A Voz de Cabo Verde", N.º 21, de08 de Janeiro de 1912

 


[1] Almanach de A Lucta, propriedade da Empreza de Propaganda Democrática, Lisboa, 1910 e 1911.

 

 

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