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 Imagem do Google, Autor Desconhecido

 

 

IV

 

 

E as asas molhem meus beijos

em tua boca vermelha,

como no orvalho das rosas

se molha a doirada abelha.

 

            (Camões, Flutuantes)

 

 

Joaninha era a minha décima terceira prima da Brava, exactissimamente aquela a quem nunca fui capaz de apanhar o mais insignificante e inocente beijinho primacial... nem mesmo capaz de lho pedir... valha a verdade!... Uma timidez, de que não sei dar conta... mas é tal e qual!

 

As borboletas voam para as flores, e a loira abelha não pede licença à rosa vermelha para molhar as asas no seu cálice perfumado...

 

E a Joaninha era um botão de rosa desabrochado num sorriso da aurora... como diria o Artiaga, o mais descambado poeta que eu conheço.

 

E eu, que não tenho asas, mas que sou tão guloso como qualquer abelha (e note o Sr. Abelha que não se trata de s. exª...) eu gostaria... gostaria também de molhar a minha sopa...

 

Mas via então como um espelho, em que se reflectem muitas coisas bonitas, o cristal da água, o azul do céu, o carmim das flores... mas que, se lhe bate de repente um raio de sol, obriga-nos a fechar os olhos.

 

Joaninha era assim... O seu olhar era o espelho, e o raio de sol a sua inocência.

 

Sorrindo, fascinava. Olhando, e olhando de certo modo... produzia um deslumbramento. Era duma graça infinita a surpresa cândida que se lhe retratava no olhar, quando o anjo tinha de defender-se de alguns indícios de adoração menos estática. A sensitiva retraía-se mas não tinha espinhos. Não havia indignação naquele olhar, nenhum bafo podia empanar o cristal daquele espelho, havia só o deslumbramento da pureza, que se impunha.

 

Enfim, não sei contar estas coisas!...

 

A verdade é que nunca fui capaz de afrontar a limpidez daquele olhar, de aspirar o perfume das rosas daquelas faces e, muito menos, de molhar os lábios no cristal puríssimo daquele sorriso.

 

O leitor que imagine uma Joaninha toda sua... sim, a sua, embora dando-lhe o nome que mais doce lhe seja... imagine, e deixe-me em paz quando eu lhe disser que D. João é que lhe deu a ela, o primeiro beijo...

 

E isto foi de repente... por surpresa... doido... numa noite de luar, em que eles estavam a olhar-se havia já três horas sem se fartarem... Nem sequer tinham tomado chá!... De repente, o atrevido do D. João agarrou naquela formosa cabecinha às mãos ambas, e imprimiu-lhe na boca um beijo louco...

 

Ela curvou-se toda, fremente e pálida, a destacar-lhe da cor do vestido escuro a alvura da tez, como uma rosa esmaecida pelo calor da lua...

 

E a lua sorria por entre as clareiras arrendilhadas dos bosques de bananeiras que põem manchas na aldeia de Pé da Rocha.

 

A tempo, a avó da Joaninha, que esbugalhava o seu rosário, à porta, a pouca distância dos dois, que estavam sentados no terreiro da casa, teve afinal a percepção de que o sereno da noite podia fazer mal à menina, e chamou-a para dentro.

 

E ela foi, sem se despedir do D. João, confusa, quase indignada, talvez mesmo com dor de cabeça por efeito do sereno...

 

Pobres e santas avós!...

 

Mas o bonito foi no dia seguinte, quando o D. João apareceu com cara de penitente, sem se atrever a erguer os olhos para ela... Joaninha, envolvida no seu alvo penteador, com os formosos cabelos castanhos esparsos em ondas opulentas pelas costas e eriçadas na frente como um diadema, sob o qual resplandeciam as esmeraldas de seus olhos límpidos e sorridentes, tomou entre as mãozinhas a cabeça do grande criminoso, obrigando-o a erguer os olhos para ela, que lhe dizia no olhar e no sorriso: "Eu sou a inocência! Eu sou o anjo! Mas, D. João, sou também a virgem animada pelos primeiros eflúvios do amor... D. João! Amo-te...".

 

E foi ela que, nas barbas da avó, lhe restituiu, purificado, o beijo roubado na véspera...

 

Parece que depois disto D. João partira à conquista de fortuna para a noiva, como fazem todos os filhos da Brava, mas que no caminho surgira-lhe o diabo, sob a forma de uma bonita pequena, que o recambiou direitinho para o hospital da Praia...

..................................................................................................

 

— Ó Sr. António Zé da Cunha! Onde é que está vm.?

 

— Aqui, tio Olifo! Debaixo das acácias... sub tegmine fagi...

 

— Lá está o Sr. com o seu latinório!... Ora venha para dentro, que são horas de lhe dar a sua tintura de iodo...

 

Já íamos no iodo, leitores! A inflamação do fígado saltara-me ao baço à força de cataplasmas, e destas passáramos ao iodo, que eu não consentia, contudo, senão em dose que mal chegava a colorir-me a pele: e à primeira vez que o senti morder, meia hora depois de aplicado agarrei num pau de vassoura e fiz finca pé atrás da porta resolvido a quebrar os ossos ao danado tio Olifo, que por fortuna sua adivinhou-me as caridosas intenções, e disparou-me na janela o seu mais pardo sorriso, acompanhado de uma casquinada maquiavélica.

 

Felizmente, ao cabo de oito dias pude apresentar-me à Junta e consegui engrolar toda a faculdade, menos o Dr. Bernardo, que sustentou teimosamente que eu não tinha coisa nenhuma, no que estive quase tentado a dar-lhe razão... Mas assim mesmo, sempre tive a fortuna de abichar quinze dias de licença, para convalescer em qualquer dos pontos mais saudáveis do arquipélago; e como a Brava passa pelo primeiro, ou um dos melhores...

 

PARTI!!!...

 

 

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1 comentário

De Psaharah a 10.01.2012 às 10:29

Cumprimentos de alguém que também partilha o gosto pela escrita.  http://verboadverbum.blogs.sapo.cv/

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