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O São João no Porto Novo

Brito-Semedo, 24 Jun 12

 

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Este ano, as principais Festas de Romarias em Santo Antão, isto é, Santo António das Pombas, São João em Porto Novo e São Pedro na Garça coincidem com o período da campanha para as eleições autárquicas, mas, nem por isso o povo deixa de as festejar com o entusiasmo e a alegria genuína de sempre. Estas festas em Santo Antão são aguardadas com expectativa e com renovadas esperanças de serem as melhores de sempre ou, pelo menos, melhores do que as do ano anterior. As festas de romarias foram trazidas pelos portugueses para Cabo Verde. Em todos os concelhos celebram-se numerosas festas de romarias durante quase todo o ano, sendo as mais concorridas as dos meses de Maio e Junho.

 

Cabo Verde é o único país de África onde se cumpre a tradição de festejar, com pompa e circunstância, as Festas de Romarias, que em Portugal são conhecidas como as Festas dos Santos Populares e no Brasil como as Festas Juninas. Estes eventos culturais, que estão, profundamente, enraizados nos costumes do povo cabo-verdiano, não acontecem por acaso e criam, como é obvio, muitas dificuldades aos "intelectuais" que, erroneamente, defendem que Cabo Verde é um país, inequivocamente, africano! As Festas de Romarias são celebrações que acontecem em vários países ocidentais, historicamente relacionadas com a festa pagã do solstício de verão. Os primeiros registos dessas festas datam do século XII numa região da França, onde era festejado o dia mais longo do ano, que acontece dia 22 ou dia 23 de Junho. O São João, por exemplo, é celebrado, exclusivamente, no mundo cristão.

 

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Essas celebrações são, particularmente, importantes no Norte da Europa - Noruega, Suécia, Dinamarca, Finlândia, Estónia, Letónia e Lituânia - mas são encontradas, também, ilhas Canárias, na Galiza, França, Itália, Malta, Irlanda, Ucrânia e em outros países como Canadá, Estados Unidos, Porto Rico, Brasil e Austrália, levadas pelos europeus.De origem europeia, as fogueiras juninas, que, no norte de Cabo Verde, chamamos "lumenara" fazem parte da antiga tradição pagã de celebrar o solstício de Verão. Uma lenda católica cristianizando a fogueira pagã confirma que o antigo costume de acender fogueiras no inicio do Verão na Europa se baseava num acordo feito pelas primas Maria e Isabel. Com o propósito de avisar Maria sobre o nascimento de São João Batista e assim terá ajuda dela após o parto, Isabel teria de acender uma fogueira sobre um monte.

 

As festas juninas da Suécia (Midsommarafton) são as mais famosas do mundo. É considerada a festa nacional sueca por excelência, comemorada ainda mais que o Natal. Ocorre entre os dias 20 e 26 de Junho, sendo o ponto alto a Sexta-Feira. Na Suécia a população dança em volta do "majstången", um mastro colocado no centro da festa e envolto com folhas e flores. Quando o mastro é erguido, são atiradas flores e folhas. No Concelho do Paul o mastro com as flores, colocado em frente a igreja das Pombas, se chama "Miron" e é celebrado no mês de Maio. O maior São João do Mundo acontece no Nordeste Brasileiro. Caruaru e Campina Grande disputam entre si o "maior São João do Mundo". Campina Grande se transforma nessa época num imenso arraial. Os turistas chegam nos trens do forró para participar da festa e dançar quadrilha, na festa que dura todo o mês de Junho. Tive, juntamente com um grupo de santantoneses, o privilégio de participar durante três dias nessa grande festa, em Junho de 2007.

 

O SonJon foi trazido para Cabo Verde do Norte de Portugal (Porto, Braga) e, também, da Madeira e dos Açores no séc. XVI. A devoção do povo cabo-verdiano a São João Batista verifica-se, essencialmente, na criação de paróquias e capelas em várias ilhas. A primeira terá sido na Boa Vista em 1677. As festas portuguesas de São João chegaram, em primeiro lugar, as ilhas de San-tiago, Fogo e Brava e influenciou, fortemente, o seu folclore. Na Brava a dança passou a fazer parte da Festa onde os cavalos dançam e as mulheres cantam. Em Santo Antão as pessoas é que dançam o colá Sonjon.

 

Já em 1898, reza a história, estavam reunidos na Festa de SonJon, em Porto Novo, perto de 5000 romeiros, animados pelo rufar de 300 tambores. No dia de nhô SonJon havia mais de uma centena de cabanas que hospedavam os romeiros vindos de todos os lados da ilha, citação de Carlos Ferrão, numa tese de mestrado.

 

Hoje o SonJon tem uma expressão a nível local, nacional e in-ternacional. Atrai emigrantes, turistas (ainda, em numero reduzido) e muitos nacionais vindos de várias ilhas, sobretudo, de São Vicente. A festa assenta em dois aspectos: o sagrado e o profano, sendo a Peregrinação o mais forte pilar da Festa, que, também, inclui a Procissão, a Eucaristia e o pagamento de promessas. No lado profano, destacam-se a dança do Colá SonJon, a gastronomia, os eventos culturais, desportivos, corridas de Cavalos,feira de produtos agro-pecuários, o desfile de Grupos de São João (criado pelo actual Presidente da Câmara, Amadeu Cruz), encontro de Emigrantes e reuniões familiares. A Peregrinação é a marca a Festa de SonJon, a única em Cabo Verde, uma autêntica prova de coragem e de resistência do grande número de pessoas que com-parecem todos os anos. A peregrinação faz-se, curiosamente, não a um lugar considerado sagrado, mas sima um lugar com tradições, meramente, populares. A peregrinação que sai de Ribeira das Patas para Porto Novo é um marco criado pelo povo e não pela igreja local. Sobre a dança do colá SonJon, reza a história que, na altura da escravatura, no dia de SonJon, os escravos eram liberados para festejar. Era uma expressão de liberdade, de estar livre e então devido a carência sexual simulavam o acto na dança! De qualquer forma o colá SonJon significa alegria, ritmo, movimento, no fundo arte de expressão corporal livre e sensual.Os cabo-verdianos que vivem na Diáspora, também, celebram o SonJon, sendo os mais famosos os de Roterdão (na Pracinha de Quebrod), de Dakar e de Cova da Moura em Portugal.

 

Enquadrar as festas e romariascomo reforço da oferta turística específica da ilha de Santo Antão é um esforço que já vem sendo feito pela Câmara Municipal de Porto Novo na promoção, visível na colocação de outdoors em S.Vicente (e nos próximos anos na Praia e Sal) anunciando a Festa, uma inovação do actual Presidente da Câmara Municipal. Na programação cultural bastante rica, com musica, teatro, grupos de coladeras de colá SonJon, desfile de grupos de zonas, bailes populares, verbena, toque de tambor, o SonJon tem todos os ingredientes para atrair turistas. Mas é preciso criar algumas condições em termos de segurança e ordem pública, de promoção através dos operadores turísticos, criar mais oferta de alojamento e outros serviços conexos ao turismo. Na plataforma eleitoral do candidato Amadeu Cruz a CMPN, uma das propostas que apresenta é a criação da Rota de SonJon, com Guias Turísticos bem formados, capazes de levar os turistas a fazerem o percurso, que se faz no dia 23, ao longo do ano. A sinalização da Rota de SonJon e sua ampla divulgação no segmento turismo religioso no mercado emissor ocidental é outra proposta interessante, bem como a criação de um monumento a SonJon, semelhante ao que foi feito no Paúl, com a colocação da Estátua de Santo António. Em Porto Novo poderá ser numa Praça, que tornar-se-á num local de devoção ao Santo, todo os dias do ano. Os artistas Ró e Nildo que erigiram o Moxin de Ogena em Pedracin Village devem ter uma boa proposta.

 

A meu ver o Governo deverá, nos próximos tempos, declarar o SonJonde Porto Novo, Festa de Interesse Turístico Nacional. Naturalmente, tem que haver critérios e, também, benefícios a nivel de financiamento e promoção. A CMPN sozinha não pode arcar com as despesas se se pode com esta Festa gerar um fluxo turístico significativo em termos económicos e financeiros. Nos próximos anos dois grandes desafios serão (1) o de transformar o SonJon em entretenimento, com grande valor social, cultural e, sobretudo, histórico, com as suas actividades a se constituirem como um verdadeiro mix de marketing, cultura, gastronomia, lazer, artes e negócios e (2) imprimir inovação no produto, captar novos mercados de modo a despertar o interesse de operadores turís-ticos, formatar ou revitalizar a programação, sem a qual este desígnio que é tornar o SonJon um produto turístico ficará certamente comprometido!

 

- Américo Silva, S. Vicente

Reproduzido, com a devida vénia, do Expreso das Ilhas

 

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