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Hotel Porto Grande, Mindelo . Foto Arquivo Histórico, Praia

 

Quem é este jovem que, contornando a esquina do tempo e do edifício do Telegraph, neste fim de tarde, caminha na nossa direcção? Poderíamos deduzir que é de S. Vicente, pelo seu ar desembaraçado, mas não da “morada”, pois as suas vestes são simples e calça sandálias de plástico. Poderíamos deduzir que é estudante, porque traz livros e um bloco de notas na mão. Poderíamos, também, deduzir que tem encontro marcado, pela forma decidida e pelo andar ligeiro como caminha em direcção ao Hotel Porto Grande, cruzando a Praça Nova. Talvez pudéssemos, inclusive, concluir que é um frequentador habitual do local, pois fala informalmente ao gerente e aos empregados de mesa que vai encontrando pelo caminho, enquanto se dirige para a ampla esplanada, não antes de encomendar: – Um café e uma mesa, por favor!

  

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Observo-o a dispor as suas coisas numa mesa de canto e a preparar-se para passar algumas horas em leitura atenta. Confesso que conheço este jovem e simpatizo com ele; em breve também o conhecerão. Ele é… enfim, verão quem ele é. Talvez até consigam imaginar no que se tornará – mas estou a falar antes de tempo.

 

Estamos no ano de 1971. O seu nome é… Brito, Manuel Brito. Sim, sou eu próprio, uma versão jovem de mim, quando tinha dezanove anos. Diria até que somos simultaneamente a mesma pessoa e diferentes um do outro!

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Antes de haver o Hotel Porto Grande, inaugurado em finais de 1968, e de o Café-Esplanada albergar essa trupe de jovens estudantes que o procuravam todas as noites, era a Avenida Marginal que os recebia, sobretudo na época dos exames, desembocando dos subúrbios e confluindo ali todas as madrugadas. Era vê-los debaixo dos postes de luz ou passeando pela marginal, concentrados a “empinar” as matérias do 2.º, do 5.º e do 7.º anos.

 

Custava-me levantar às 04H30 da manhã para estudar e era a Mãi Liza que me vinha acordar quando voltava da Padaria de Matos, mesmo ao pé da porta, do outro lado da estrada, já com a encomenda feita do pão do dia para a venda: pão de trigo, pão de trança, pão de brindeira, pão doce, pão de custarde, pão de milho e barão.

  

Depois de muita insistência, lá me conseguia fazer levantar e sair pela porta fora, com os meus livros debaixo do braço.

 

Rumava à Rua de Côco para chamar o Carlos Ramos, meu colega de trabalho e de estudos, que morava mesmo junto ao cruzeiro, na enfiada das casas da Nha Rosa Curcundinha e Nha Antónha d' Solidad. Dali, cortávamos o Largo do Madeiral e seguíamos para a Padaria d' Niclet, situada no topo da Rua da Luz, do outro lado da Drogaria de Gaspar, com a entrada principal para a Pracinha da Igreja. Evoco o cheirinho bom do pon d’ trança (pão de mistura) quentinho a sair do forno, que comprávamos aos pares e levávamos embrulhado em papel pardo, a comer pela rua a quebrar o nosso jejum!

 

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Foto Largo da Pracinha da Igreja, com a Padaria Central (Padaria Niclet) ao fundo

 

Nessa altura, havia seis padarias a laborar no Mindelo: a Padaria d’ Matos da Fábrica Favorita, em Chã de Cemitério, junto à nossa casa, que, juntamente com a Fábrica Sport, a antiga Padaria d’ Jonas, um pouco mais abaixo, no Largo John Miller, produzia os melhores pães e a melhor bolacha, esta exportada para as outras ilhas; uma terceira, na Rua de Côco, a Padaria d' Marçal, na sequência das casas de Ilas Miranda e Nha Camila d' Café Cantante; a Padaria d’ Antôn Djudjin, de frente para o Largo Dr. Regalla; a Padaria d’ Niclet (de facto Padaria Central), voltada para a Pracinha da Igreja; e, ainda, uma outra, a Padaria d’ Lucas, na Rua de Papa Fria, na sequência da Casa de Nhô Roque, vis-a-vis com a mercearia do Nhô Antonin Barót. Dessas padarias, a que mais apreciávamos e nos dava mais jeito era a d' Niclet, pela sua localização privilegiada em relação ao nosso percurso.

 

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O Nhô Niclet (Anacleto Cabral), dono da Padaria Central, era um homem alto e forte, com estrutura de boxerque, via-se, era gente do povo que tinha subido na vida. Nhô Niclet era dono de uma moradia de primeiro andar no Lombo, "Vivenda Irina e Irmãs", lá para os lados do Hospital. Normalmente, vestia calções largos e, aos domingos, trajava camisa e calções brancos com meias altas e sapatos brancos, que contrastavam com a cor da sua pele bastante escura. Quando sorria, o Nhô Niclet mostrava um dente canino de ouro no maxilar superior, que lhe dava alguma graça e um ar de novo-rico.

 

Conhecia-o e nutria por ele uma certa simpatia porque, quando miúdo, costumava “cercar-lhe a bola” nos jogos de ténis no Club Castilho, em que ele me pagava o serviço com uns trocos, e, sobretudo, porque, nessa altura, ele tinha o carro mais bonito de SonCente, um Mercury verde escuro, com o emblema em cima do capot, o espelho, os frisos dos faróis e das portas, os pára-choques e os tampões das rodas todos niquelados, com os pneus de faixa branca, igualzinho ao do Senhor Governador, diferenciando-se-lhe apenas na cor, dizia-se. 

 

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Uma outra coisa que me fazia simpatizar com o homem era a sua determinação férrea. Uma vez, essa padaria pegou fogo e foi um abalo na Morada. Valeu-lhe estar situada junto às Águas do Madeiral e as mulheres que chegavam nessa madrugada para buscar água.

Incansavelmente, carregavam baldes e mais baldes de água nessa hora fatídica, que os homens içavam para o telhado do edifício a tentar apagar o fogo. Da padaria só restaram escombros, mas o Nhô Niclet, com muito esforço, conseguiu recuperá-la aos poucos.

  

Dizia-se, para quem quisesse ouvir, que a maior ambição do Nhô Niclet era pertencer ao Club do Grémio e à elite local, ambição essa que sempre lhe foi negada, mesmo depois de ter adquirido o Mercury e importado os dois auto-tanques Thades Trader. Dizia-se, inclusive, que essa sua teimosia foi o seu pior erro, pois fê-lo contrair muitas dívidas e perder quase tudo o que tinha conseguido.

 

Vamos lá aproveitar o tempo disponível?! É que às 8H00 temos de estar no trabalho! – Pondo, o Carlos Ramos, fim às minhas divagações.

 

Manuel Brito-Semedo

 

Nota: Este post é o número 100!

 

 

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13 comentários

De João Branco a 26.08.2010 às 10:28

Deliciosa crónica de Soncent. E parabéns pelo post número 100! Que venham mais mil.

Abraço forte com a amizade de sempre.

De Brito-Semedo a 26.08.2010 às 18:04

Um elogio Café Margoso logo pela manhã, é um forte estimulante! Obrigado, Amigo!
Espero ter canela e fôlego para, pelo menos, mais 100!

De João Branco a 26.08.2010 às 23:00

Em jeito de troca de galhardetes, devo dizer que o elogio é mais do que merecido. O teu blogue é (cada vez mais) um espaço precioso.


Abraço

De Izaura Furtado a 29.08.2010 às 11:50

  


Sr. Doutor Brito-Semedo,


 


Gostaria de felicitá-lo pelos posts sobre cinema e cultura; a 7ª Arte sempre terá o seu espaço na imaginação e na formação cultural das pessoas! Resido na Cidade da Praia e apraz-me dizer que o Cinema da Praia passará por um importante processo de reabilitação. Foi noticiado (TCV, RTP África …) que, neste processo, o espaço contará com uma moderna sala de projecção de filmes, uma sala de exposições e um restaurante. Creio que o projecto é financiado pela Câmara Municipal da Praia, contando-se também com uma parceria com a Câmara Municipal da Covilhã.


 


Fico com pena de não ver nenhum movimento neste sentido em Mindelo! Nunca residi em Mindelo, mas sou filha de um legítimo Mocin d’Soncent e passei a minha infância e juventude, no Brasil, ouvindo o Meu Pai contar sobre a sua alegre juventude em Mindelo, na Praça Nova e no cinema, nos longínquos anos 50. O Meu Pai chamava-se Paulo Júlio da Graça, mas era conhecido em Mindelo como Palin do Sr. João Mimoso, da Casa Mimosa e coloco aqui esta referência, porque talvez haja, dentre os leitores do seu blog, alguém que o tenha conhecido.


 


Creio que o cinema sempre foi uma referência na cultura mindelense e espero que Mindelo consiga acompanhar os passos da Praia neste sentido!


 


Saudações e, mais uma vez, parabéns pela sua sensibilidade perante a literatura, o cinema e a valorização dos bons tempos que já se foram!


 


Izaura da Graça Furtado


 

De Brito-Semedo a 29.08.2010 às 16:09

Amiga, pelo amor de Deus, não seja tão formal no "Na Esquina". O Clube da Esquina tem vocação democrática, ainda por cima, sendo uma frequentadora assídua, como deixa perceber!
Obrigado pela partilha das informações sobre o Cineteatro da Praia e, como M'nine d' SonCent, só tenho a felicitar o Presidente da Câmara por esta grande iniciativa e lamentar que a de São Vicente não lhe siga o exemplo. Mais a mais com a batata quente do cinema Éden Park! Apraz-me lançar um repto: - Gente do Mindelo, uni-vos e exijam uma cidade com cinema!

De Ernestina Santos a 29.08.2010 às 14:57

Foi bom reencontrar o Manuel Brito a caminho da sua mesa, de livros debaixo do braço e preparado para pedir o café que servia de autorização para ficar sentado numa mesa a estudar. Sim, lembro-me, pois tenho lido os posts anteriores com atenção. Aliás, pensando bem, será que este rapazim de Soncente ca foi nha colega? Nascemos no mesmo ano mas só frequentei o Liceu Gil Eanes até Dezembro de 1966 (que sorte ou azar se atarvessou no meu caminho é o que nunca saberei...). Colega de ano, deve ter sido de certeza, pois sou da fornada de 1952.

Mas o tema desta vez são as padarias, que não conheci todas pela simples razão porque as mnininhas de então não andavam por onde queriam. O mandão lá de casa, o meu pai, era bem severo. Por motivos óbvios, não entrei em todas as padarias de Soncente mas na de Niclet sim, por estar na "morada"

Que saudades me trouxeste do pon de trança e do baron, que nunca mais comi! Deixaram de os produzir nas padarias em Soncente ou foi só o baron?

E depois desta tirada de manhenteza, devo deixar aqui a minha admiração pela vontade férrea do Niclet. Pena essa vontade de entrar como sócio do Grémio, sinal de gente com dinheiro na altura, que acabou por lhe destruir a vida. Outros tempos, outras cabeças...

De Brito-Semedo a 29.08.2010 às 16:20

Ah, essa fornada de gente boa e esforçada! Mas bons tempos, esses, de vida simples! Pode ser até que nos tivéssemos cruzado pelas ruas da morada, mas, como nunca fui mocin de liceu, nós não éramos da mesma láia, hahaha!
Numa das minhas últimas visitas a São Vicente ainda comi pon d' trança da Fábrica Sport, mas, barão, nem fumo nem madód ! O que nunca mais comi é o pon d' midje ! Mato as saudades com a broa de milho quando venho a Portugal, mas não é mesma coisa, ah, calê!

De Alvaro Ludgero Andrade a 30.08.2010 às 10:47


Prezado, em Lisboa há "pon d´burre"? Esta é uma expressão, talvez mais recente, para o pon d´trança, o meu favorito da padaria mindelense, ao que junto o barão. Interessantes as notas sobre o Nhô Niclet, lembro-me vagamente dele trajado de branco, mas cheguei a jogar à bola com o filho Miguel, embora mais velho do que eu. Boa lembrança de Morada de diazá. Mais uma nota: essa estória de ir estudar na Marginal deu motivo a uma coladeira cantada pelo Bana (será do Manel d´Novas?). Lembras-te de "no ba estudá", o que significa? Mantenhas.

De Brito-Semedo a 31.08.2010 às 11:47

ALA, Modernices, modernices! O pon d'trança para mim sempre será pon d' trança, daqueles d' Matche , d' Jonas e d' Niclet , hihihi ! Que saudade! Manel d' Novas é que é trovador do Mindelo e dos seus sketchs ! Não conheço a coladeira (será a "Avenida marginal é k tá na móda. ."?!) e se tu ou alguém que nos lê puder ajudar, gostaria de ter uma cópia. Obrigado pelo teu comentário! Já, já, estou aí! Um abraço!

De Brito-Semedo a 11.10.2010 às 00:01

Este texto acaba por ser uma homenagem ao meu Amigo Carlos Ramos, de que só agora soube, por causa da publicação deste post , que morreu há já uns dez anos, quando eu vivia fora de Cabo Verde. E eu que pensava que o Carlos Ramos estava emigrado! Paz à sua alma!

De Anónimo a 07.04.2011 às 13:38

Brindêra e barão, hum nhã mããããã~.
Obrigada pelo post.
Sonya

De Brito-Semedo a 07.04.2011 às 17:06

... e pon d'midje. Para serem comidos quente com manteiga, doce, mel, çucrinha ou rubçóde...! Que saudade! Um abraço Sonya!

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