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Um Livro Com Vinho de Cabo Verde

  

Um vinho de Chã das Caldeiras num país improvável foi o que o navegador português Bartolomeu Dias perdeu em 1487.

 

Quando Bartolomeu Dias aportou à ilha do Fogo em 1487, na sua épica viagem em direcção ao cabo da Boa Esperança, não teve, infelizmente para ele e para a tripulação, a possibilidade de provar e carregar a urca de apoio às duas caravelas com algumas pipas de vinho local. Na realidade, verdade seja dita, nem podia. Não só não aportou... como só sete anos antes a vila de São Filipe havia começado a dar os seus primeiros passos na ilha.

  

Mas, insisto, é pena. De acordo com uma excelente leitura de "Verão Levante, 1487 - A Vã Glória de João Álvares", romance de estreia de José Maria Pimentel, um luandense que se atreve a recriar, numa anunciada trilogia, a aventura daquele navegador numa intriga cheia de peripécias a bordo e um misterioso desaparecimento (o que é real) de seis dos nove marinheiros que ficaram na Angra das Aldeias a bordo de uma das naus à espera do regresso exploratório de Bartolomeu Dias.

 

Angra das Aldeias fica na zona sul de Angola, na atual província do Namibe, ali para os lados do ex-Porto Alexandre (atual Tombwa). Um mistério bem urdido envolvendo a população local dá um toque de mestre ao romance. E quem sou eu para dizer isto se a apresentação da obra esteve a cargo de José Eduardo Agualusa? E o que interessa o vinho para aqui? Muito. Carregado com 12 pipas do melhor vinho e mais 45 de qualidade inferior, depressa se torna a principal moeda de troca a bordo. E quando começa a escassear, imagine-se a revolta.

 

Ora se o capitão tem passado na ilha do Fogo hoje, bem poderia carregar o vinho local feito de forma tradicional - o Manecom -, mas também um vinho moderno e à procura da certificação DOC. A história é simples. Do século XVI ao século XVIII, a ilha do Fogo produziu vinho e exportou para a Guiné e para o Brasil. O marquês de Pombal interrompeu para proteger o vinho metropolitano!

 

Um século depois recomeçou e a zona de Chã das Caldeiras inicia o cultivo da vinha já no século XX. A novidade está no surgimento de um vinho moderno, a par do Manecom, cuja intensificação data dos anos 80, contando com o apoio inicial da Alemanha e posteriormente da Itália, esta através de uma ONG. De oito produtores e 4 mil litros passou-se para, actualmente, 62 produtores, organizados numa cooperativa, e 80 mil garrafas. Ele é vinho tinto, branco, rosé e brevemente um licor, vendidos no país e nas comunidades na Europa e nos EUA. Interessante nesta história é a produção de vinho em Cabo Verde.

 

Mas não só é uma realidade - é um nicho, é certo - como também é um exemplo do não baixar os braços e contribuir para a geração de emprego e rendimentos para muitas famílias da ilha do Fogo, em particular do Chã das Caldeiras. E quem ficou a perder nesta história foi Bartolomeu Dias. Porque se ele tem tido a possibilidade de o carregar, o Brasil teria sido descoberto 13 anos antes...

 

Manuel Ennes Ferreira, professor do ISEG

 

Texto publicado na edição do Expresso de 31 de Julho de 2010

 

Acontece na costa desértica do Namib. Três naus do Rei João de Portugal (duas caravelas e uma urca) lançam ferro num lugar já conhecido de antes como Angra do Salto. A escala leva apenas o tempo necessário para o transbordo de todos os mantimentos para as caravelas, que abalam logo depois para a descoberta mais ansiada do Rei — a passagem para o mar das Índias, pelo sul do grande continente africano. Na Angra fica a esvaziada urca dos mantimentos. Fica também o capitão Diogo Dias, com o encargo de a aprovisionar com água e mantimentos até ao glorioso regresso das caravelas do irmão — o capitão-mor Bartolomeu Dias. João Álvares é o mestre da urca, competente, com origem nobre, dotes de bravura e um mesquinho azedume contra os caminhos da política no Reino. Com ele, são nove os marinheiros que, durante nove longos meses, comungaram na inóspita angra com os Kwepes locais desígnios inimagináveis. As caravelas do Cabo recolhem os sobreviventes e os sinais do drama, e transportam-nos até ao poderoso rio do grande Reino do Kongo, onde se consuma a missão do Rei João e se sepultam segredos.

 

Título: Levante, 1487 - A Vã Glória de João Álvares

Autor: José Maria Pimentel

Editor: José Maria Pimentel

Ano de Edição: Lisboa, 2010

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2 comentários

De Ernestina Santos a 29.08.2010 às 11:30

Ainda não fui à procura deste livro, depois de ter lido o sugestivo artigo do Prof Manuel Ennes Ferreira. O Marquês de Pombal defendeu sempre os interesses da Metrópole em detrimento das então designadas colónias, não se coibindo de fundar toda a espécie de Companhias para o efeito. Os "indígenas" que se amanhassem para ganhar o pão para a boca.
Deve ser bem interessante a leitura, para descobrir os meandros de mais um segredo bem guardado da História, que envolve o agora afamado vinho da ilha cabo-verdiana do Fogo.

De Brito-Semedo a 29.08.2010 às 15:57

Amiga, Também eu preciso encontrar este livro para levar para a terra. A História tem cada uma, incluindo essa que poderia pôr Cabo Verde na rota da descoberta do Brasil mais cedo por causa do seu/nosso vinho manecom ! E essa da protecção do vinho da metrópole é apenas um item entre outros. Enfim!...

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