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Quando um poeta, em Cabo Verde, publica um soneto ou um poema, o povo, a grande maioria da população, não o lê. Daí a ausência duma crítica construtiva, o marasmo e a esterilidade da literatura caboverdiana, a qual, quando consegue fugir a lucubrações sem interesse para a cultura da colectividade, se prende nas malhas do mito da insularidade adormecida num fatalismo conformista ou em sonhos, não menos conformistas, de evasão.

 

Quando uma individualidade qualquer se debruça sobre o problema da Educação e o trata publicamente, há que ouvi-lo ou lê-lo, penetrar no verdadeiro significado das suas afirmações, em suma, compreender o que ele tem para dizer e lutar no sentido de que a maioria da população o compreenda. Note-se que compreender não é necessariamente, aceitar.

 

É que, se o povo caboverdiano pode, como tem sucedido em virtude das condições materiais em que vive, manter-se alheio às manifestações da literatura, não pode e nem deve, com risco de se prolongar demasiadamente o seu estado de ignorância e, consequentemente, de baixo nível social e económico permitir-se o alheamento dos problemas respeitantes à Educação. É que hoje na encruzilhada da História (passe o lugar comum) que o Homem está vivendo, seja em Cabo Verde, seja em qualquer outra parte do Mundo, a Educação constitui a base fundamental em que deve assentar o trabalho da emancipação de cada ser humano, da consciencialização do Homem, não em função das necessidades e conveniências individuais, ou de classe, mas, sim, relativamente ao meio em que vive, às necessidades da colectividade e aos problemas da Humanidade em geral.

 

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Por isso que hoje, contrariamente ao que algum exemplo simplista pode levar a admitir, a Educação e a Instrução não podem ser tratados como dois problemas distintos, independentes. Numa colectividade educada, podem coexistir diversos graus de instrução, mas em todos os seus componentes tem de estar presente um mínimo deste elemento, sem o qual a Educação não tem significado. Hoje, uma colectividade educada é incompatível com a existência, no seu seio, de plebe e não plebe, de exibições de luxo a par da frequência de imundos maltrapilhos, de quitandeiras mal trajantes, ganhando ao sol das esquinas e das calçadas o pão nosso de um dia ou de outro. Hoje numa colectividade educada, ninguém se admira ou pasma de ver uma criança, mesmo de raça africana, de côr preta, que lê ou escreve uma carta, porque todos sabem que um ser humano, seja de que côr, desde que lho permitam as condições da sua existência, pode instruir-se e adquirir um mínimo de cultura compatível com a condição de Homem. Hoje, numa colectividade educada, os objectivos do Bem e tudo o que é justo para as sociedades humanas e a paz dos Povos, libertam-se dos horizontes acanhados e indecisos, das doutrinas, para se consubstanciarern na realização efectiva do bem-estar do Povo.

 

Toda a Educação, dizem os técnicos da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) tem por fim: permitir aos homens e às mulheres a realização de uma vida útil e feliz, de harmonia com a evolução do seu meio; desenvolver os melhores elementos da sua tradição e facilitar-lhes o acesso a um nível económico e social superior que os coloque em estado de desempenhar cabalmente a sua função no mundo moderno e viver pacificamente.

 

Infere-se pois, que ao problema da Educação está ligado, indissoluvelmente, o meio – geográfico, económico e social – em que ele é debatido. Falar da Educação, sem ter em conta as necessidades e os problemas da colectividade a que ela se refere, falar da Educação sem falar do nível da vida – é trair a própria essência do problema: o seu sentido humano e dignificador.

 

Longe vai o tempo em que a Educação se confinava a uma pílula de bons costumes e boas maneiras, manipulada de acordo com as conveniências de classe ou de categorias sociais, e que o Homem tinha de engolir inconscientemente, de boa ou má vontade, com resultados mais ou menos eficazes, sem que todavia se atendesse aos imperativos das condições materiais da sua existência.

 

Hoje a Educação visa o objectivo da realização plena do Homem, sem distinção de raças ou de origens, como ser consciente e inteligente, útil e progressivo, integrado no Mundo e no seu meio (geográfico, económico e social), sem qualquer espécie de sujeição. Para isso e por isso, o problema da Educação não pode ser tratado separadamente do económico-social, como mera resultante da turbulência ou, licenciosidade dos tempos, da falta dum forte poder de orientação quer dos pais de família, quer das próprias Autoridades superintendentes sobre a tendência inata para o mal. Para isso e por isso, não podem nem devem considerar-se como pilares da Educação a sujeição voluntária, a noção instintiva da Obediência ou qualquer espécie de temor salutar, conceitos por demais subjectivos e, além disso, traços característicos da psicologia do homem-servo.

 

Para que a Educação atinja os objectivos enunciados (e porque os tem de atingir), quando, em Cabo Verde ou em qualquer outra colectividade, se pretende resolver este magno problema, impõe-se a realização dum estudo sério e profundo acerca de numerosos factores, materiais e humanos, estudo que será a base de um programa a efectivar. A solução é sempre possível, mas exige, necessariamente, a anterior solução, ou, quando menos, a resolução simultânea do problema económico-social.

 

É, tendo em conta essa dependência e os superiores objectivos da Educação, que se verifica a necessidade, referida no princípio deste arrazoado, de ouvir ou ler – e compreender, aceitar ou repudiar – tudo quanto, acerca, se diga ou se escreva em Cabo Verde.

______

Nota: As expressões em itálico foram transcritas do artigo "Educação e instrução" do professor José Lopes, publicado no Boletim de Cabo Verde, de Abril.

 

- Amílcar Lopes Cabral (Bafatá, Guiné-Bissau, 12 de Setembro de 1924 - Conacri, 20 de Janeiro de 1973)

 

In, Cabo Verde, Boletim de Propaganda e Informação, Praia

 

  

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1 comentário

De Adriano Miranda Lima a 18.01.2014 às 17:54

Foi pena não ter sido indicado o ano a que se reporta esse Boletim. Apenas está o mês, de Abril. Em todo o caso, calculo que se tenham passado muitas décadas desde que o artigo foi escrito. Naquele tempo, estaria em causa, sobremaneira, o nível de escolaridade, de par com a questão bem mais abrangente que é a da Educação, já que o ser-se escolarizado não significa ter-se necessariamente apetência para ler e, desde logo, melhor apetrechar-se para adquirir uma consciência crítica, social e, implicitamente, política.
Os níveis de escolaridade dispararam consideravelmente desde então, em Cabo Verde como em Portugal. No entanto, pergunta-se em que medida uma maior escolaridade, ou, se se preferir, formação académica, vem concorrendo para dotar o jovem cidadão de uma verdadeira Educação, esta entendida no seu significado mais amplo, o qual integra uma consciência sobre valores como justiça, ética comportamental, sentido do dever e de responsabilidade, espírito de solidariedade, etc. Li uma entrevista de um sociólogo (português) sobre os resultados de uma pesquisa por ele feita, acerca desta matéria. Diz ele que a Educação actual, ou desde há anos, se tem preocupado em formar a pessoa para adquirir "competências"  e não para a formação do ser integral. E ele depois concluía que os políticos actuais provêm dessa fornada e que se teme ainda mais o futuro. Digo que isto é verdadeiro em Portugal como em Cabo Verde.

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