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João Laurentino e Maria João Neves. Foto Anita Pinto, 13.Julho.2012

 

Quando a saída se perfila em breve, a expressão “saio de consciência tranquila” aparece entre aquelas com as quais se procura conferir peso e simbolismo ao momento. Uma espécie de legitimação do trabalho feito, de “ciclo que naturalmente se encerra”, outro preciosismo habitual desses momentos. Na verdade, não me sinto assim.

 

Não há tranquilidade quando se quebram laços fortes e se interrompem fluxos de ideias e de projetos. Apesar da mudança ser parte inevitável do próprio conceito de estar, o que sempre soube, creio que, quando há entrega profunda e verdadeira ao que se faz e a quem nos rodeia, nunca se está verdadeiramente preparado para essa inevitabilidade. Falo dos afectos e das amizades, de agora e de sempre, das ideias que teimam em surgir desafiando os prazos,  de desafios ganhos e de outras viagens por cumprir. Falo daquilo, afinal, a que um conjunto de artistas e figuras da cultura, portugueses e cabo-verdianos, decidiram dar corpo numa inesquecível sessão que organizaram no passado dia 13 de Julho, à laia de “bota fora”.

 

Como aí afirmei, numa história de um autor cabo-verdiano que será publicada em breve (uma das viagens por cumprir), uma criança expressa a outra o desejo de ser de dois mundos, se isso fosse possível. Leva-a o amigo a viajar e a conhecer o seu povo distante, explicando-lhe que ser de dois mundos é até a melhor forma de ser, pois que se uma cor não faz o arco-íris de que somos feitos, só a entrega e o conhecimento do outro nos elevam como pessoas.

 

Por onde passámos, temos, a João, que há muito partilha comigo a vida e as sete partidas que ela nos vai trazendo, e eu (agora já acompanhados do Rodrigo e do Bernardo) procurado viver assim. Viver intensamente é também ser de onde se está. E foram todos aqueles que, durante estes nove anos, nos dispensaram a sua amizade, a sua sabedoria, a sua História e as suas histórias e, sobretudo, a sua Arte nos levaram nessa viagem de conhecimento que, em bom momento, abraçámos. Ser plural, diz o poeta, é apreciar e absorver o que o mundo nos oferece. Assim procurámos estar e obrigado, pois, por tudo o que nos ofereceram nestes anos. Nunca, quando assim é, se está verdadeiramente preparado para a partida e esta não é o “ciclo natural” das coisas.

 

Mas essa manifestação do dia 13 – dia do equilíbrio para os budistas – é também prova de que a cooperação e um despreconceituado diálogo intercultural são uma forma apelativa e produtiva de relacionamento entre os povos.

 

Mário Lúcio e Humbertona. Foto Anita Pinto, 13.Julho.2012

 

Portugal tem, ao longo da sua história, dado um forte contributo para a construção de um ideário humanista. A construção de um diálogo assente na cultura, no património e na contemporaneidade, como forma de trabalhar um futuro de partilha e de cooperação, esteve no centro das preocupações enquanto me coube a coordenação do Centro Cultural.

 

Foram mais de 800 as atividades e intervenções que aí decorreram. Pelo Centro passaram fisicamente cerca de 250 artistas, músicos, companhias de dança e de teatro, bandas, investigadores, escritores e realizadores dos dois países, num total de mais de 400 pessoas. Desses e por todos eles, lembro aqui Bernardo Sassetti, Nácia Gomi e Codé di Dona, recentemente desaparecidos. Portugueses e cabo-verdianos partilharam manifestações das suas culturas, que são formas de ver, de ordenar e de projetar o mundo, privilegiando-se a construção do conhecimento e a valorização do outro e das suas expressões.

 

O Centro inovou em muitas iniciativas e na apresentação  de várias áreas da expressão cultural,  construindo um movimento pendular que consolidasse ganhos obtidos (numa perspetiva de continuidade) e arrojasse para novas áreas. Promoveu a reflexão aberta e participada sobre o passado, o presente e caminhos de futuro em domínios de interesse mútuo para os dois povos, como a historiografia, o património, as artes, a língua portuguesa... Apoiou fortemente a formação e a partilha do saber  no teatro, na dança, nas artes visuais, no ensino, na literatura. Conferiu um forte estímulo à produção de novos conteúdos e à internacionalização de criadores e de produções. Abriu-se como espaço de encontro de dois povos e duas culturas, atuando como plataforma de diálogo e de integração.

 

Tudo isto, no que normalmente constitui um excelente sinal, resultou da visão de um conjunto de pessoas e de instituições dos dois lados, em especial da que tutela o Centro e das que se assumiram como suas parceiras, do esforço de uma equipa coesa e abnegada e, claro, de todos aqueles que connosco partilharam as suas criações, reflexões e mestrias.

 

A grande satisfação que pude sentir uma vez conseguida cada uma das atividades nos moldes planeados (e muitas houve de grande risco quer do ponto vista logístico, quer de programação)  só foi suplantada pela calorosa e solidária reação do público em muitas delas. De facto, tudo passa pelas pessoas.

 

Em várias vezes o afirmei – o que pude fazer em Cabo Verde (uma complexa mistura de administração, programação, direção de produção, gestão financeira e de recursos e representação) é, porventura, das tarefas mais estimulantes e, ao mesmo tempo, coisa rara, um privilégio, pois que implicou um forte e riquíssimo contacto com os dois lados do fenómeno cultural – os criadores dos dois países e todos aqueles que, ao longo dos anos, nos apoiaram com a sua presença, o seu estímulo, a sua observação, a sua sugestão. A todos agradeço. O que sou hoje, pessoal e profissionalmente, passa também por aquilo que com todos discuti, aprendi, partilhei.

 

Este é um texto prometido a uma dessas pessoas que Cabo Verde fez nosso amigo de peito, o Manuel Brito Semedo, e ao seu blog onde, com grande qualidade e seriedade, vem promovendo a cultura e a língua portuguesa. Começado aí, termino-o já em Portugal, percorrido oceano que nos une e não mais nos separa. Para ele e para todos os outros amigos dos dois mundos que, como a criança da história, melhor conhecemos, estaremos os quatro ao virar da esquina do tempo futuro.

 

Brito-Semedo e João Neves. Foto Anita Pinto, 13.Julho.2012

 

Um abraço.

 

Aveiro, 5 de Agosto de 2012

 

João Laurentino Neves

 

 

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1 comentário

De Perpétua Santos Silva a 14.10.2012 às 23:19

Belo texto! Grande postura. Que o Oriente lhe sorria. Há por lá muita gente boa e bonita (por dentro). É tudo uma questão de tempo, de descobertas e conquistas mútuas.

Perpétua

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