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Crónicas.jpeg

1. Nessa manhã de primeiro de Junho de 2009, acordei muito tarde, pois na véspera tinha estado ao computador até altas horas da noite, com o sentimento do dever cumprido e muita ansiedade para ler à Mãi Xanda a sua crónica de diazá. Era a última de um conjunto que tinha estado a preparar e aquela que mais tempo me tinha tomado, porque a mais dolorosa.

 

Esse seria o meu primeiro, e último, Dia da Criança, pois a Mãi estava gravemente doente e sabíamos que não ia durar muito mais. Por isso, tinha decidido ir almoçar com ela e levar-lhe a crónica!

 

Expliquei-lhe o propósito dessas crónicas e li-lhe a que lhe tinha acabado de fazer: Xanda M’nininha Bnitóna. Chegado ao fim, ela suspirou profundamente e disse: – “B’nit i triste!... Léla, este livro é a estória da minha vida?!”, a que lhe respondi: – “Não, Xanda, é a estória da minha vida onde falo de ti”! Nessa hora, decidi que ia publicar as crónicas em livro e tinha de o fazer o mais rapidamente possível!

 

Foi assim que surgiu esse livrinho, como um tributo a três gerações de mulheres que marcaram a minha vida – Mãi Liza, minha avó; Xanda, minha mãe; e Silvinha, minha filha caçula – e um reconhecimento às associações filantrópicas que vêm fazendo um trabalho extraordinário de apoio e de solidariedade, neste caso, a Associação Cabo-verdiana de Luta Contra o Cancro.

 

Desde a primeira hora houve o envolvimento e o apoio do Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, na pessoa do seu Presidente, Dr. Joaquim Morais, e de vários outros amigos de diazá como o Tchalê Figueira, que se prontificou a fazer as ilustrações; o Dr. Manuel Faustino, que aceitou escrever o epílogo; a Tita Rocha, que se disponibilizou a fazer a maquetagem; a Fátima Bettencourt, que foi mobilizada para fazer a apresentação, na Praia e em S. Vicente; o Bino Baptista, Foto Pingo d’Oro, que fez a reportagem fotográfica e o Benvindo Neves, que se ocupou da reportagem vídeo; os músicos Djick Oliveira, Daniel Benoni e Janito Mariano, que aceitaram animar e abrilhantar o ambiente da apresentação do livro.

 

3 de Agosto foi o dia marcado para o lançamento do livro, para os três filhos poderem estar presentes, mas confesso que andava preocupado pois a Mãi Xanda piorava a olhos vistos. No dia aprazado, lá estava ela na primeira fila, de roupa e sapatos novos, aguentando as dores estoicamente, para me fazer essa vontade e dar-me satisfação. Seria a última vez que a Xanda sairia à rua. Passado precisamente um mês, viria a falecer!

 

O acto do lançamento do Na Esquina do Tempo – Crónicas de Diazá, com a Sala de Conferências da Biblioteca Nacional completamente lotada, foi um momento de festa e de muito afecto. O ponto alto da noite foi a entrega simbólica de um exemplar do livro à Mãi Xanda e ao Presidente da Associação, o meu primo e amigo, Dr. Henrique Vera-Cruz, cujo produto da venda reverteria na totalidade a favor da Associação Cabo-verdiana de Luta Contra o Cancro. Bnit i trist!

 

Crónicas de Diazá.jpeg

 Foto Pingo d'Oro, 2010

 

2. Na cerimónia do lançamento das Crónicas de Diazá, a Maria Emília, minha mulher, fez-se presente através do texto abaixo, que enviou por intermédio da Fátima Bettencourt, a apresentadora do livro, para ali ser lido e que foi uma surpresa para todos. Bnit, bnitin!

 

Ao Manuel

  

Há 20 anos que conheço este homem que hoje decidiu abrir diante de vós a sua caixa de recordações, do tempo em que se fez homem. É sempre um processo difícil, porque, se virem bem, trata-se do período em que os acontecimentos mais nos marcam e ficam para a vida inteira. Sendo que, muitas vezes, temos sérias dificuldades em passar por cima daqueles que nos magoaram. Por isso, terá sido este um momento de coragem, não só passá-los para o papel, mas apresentá-los em público. E fazer, dos episódios que viveu, histórias de sucesso.

 

Todos nós, para nos salvaguardar, criamos escudos que guardam as nossas memórias da invasão do social. Neste caso, o Manuel despiu-se dos artefactos que o protegem, pondo assim a descoberto as suas vulnerabilidades. Só que, ao fazê-lo, não ficou despido, mas sim mostrou a sua verdadeira riqueza, que é uma vida feita de emoções, de afectos, de generosidade e de disponibilidade para os que têm tido a sorte de ser seus amigos.

 

Eu tive a sorte de ser sua mulher.

 

E, na impossibilidade de o acompanhar neste momento tão especial e em que se encontra rodeado por quase todos os membros da sua família simultaneamente, como há muito não acontecia, deixo-lhe aqui ficar um beijo.

 

Maria Emília

 

3. Numa tarde de domingo de Fevereiro de 2010, num impulso, decidi criar um blogue onde pudesse divulgar os meus textos, com destaque para as crónicas de diazá, tendo decidido, por isso, que se chamaria Na Esquina do Tempo.

 

A partir do primeiro texto postado ”Na Esquina das Estórias”, começaram a chegar comentários e incentivos de todos os lados, de antigos colegas e “meninos da Chã de Cemitério”, de filhos, netos e bisnetos das personagens destacadas ou invocadas, como Nhô Léla Miranda, Nhô Virisse, Nhô Fonse ou Nha Júlia, no país e na diáspora, do Brasil, da Holanda, da França, dos Estados Unidos, de Portugal e, mais recentemente, de Angola, fazendo-me crer que a minha estória é a estória de toda uma geração, “a geração do Madeiral” como uma vez aqui chamei e que foi escalpelada no epílogo pelo Dr. Manuel Faustino.

 

O Na Esquina do Tempo, sendo um blogue assumidamente de divulgação da cultura cabo-verdiana, já vai em mais de cem posts (este é o post número 104!) nas diferentes secções (tags) e 268 comentários. Conta com 3.558 visitantes, que já realizaram para cima de 7.550 visitas de 45 países ou regiões (387 cidades) e visualizaram 13.690 páginas, sendo que 3.142 são de Cabo Verde, 1.706 de Portugal, 1.168 do Brasil e 641 dos Estados Unidos da América. Bnit, bnitin!

 

- M. Brito-Semedo 

 

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4 comentários

De Ernestina Santos a 07.09.2010 às 14:27

Bnit e triste, começo por dizer, ao tomar conhecimento da motivação da publicação das Crónicas de Diazá. Bnit porque a Mãe Xanda conseguiu ver realizado um projecto que é de divulgação dos costumes e vivências de uma geração caboverdiana lutadora e exemplar. Triste porque, apesar da morte ser parte ontegrante da vida, não nos conformamos nunca em ver partir os entes queridos.

Bnit, bnitim é a expressão que espero vir a ser usada mais vezes, principalmente quando os inúmeros visitantes deste blogue de afectos, acima de tudo, começarem a deixar, na sua maior parte, os seus comentários aqui expressos, apoiando o autor a prosseguir na divulgação valiosa da cultura da nossa terra Cabo Verde.
 
"Crónicas de diazá" chegou ao meu conhecimento através deste blogue, a que desejo longa vida para nosso deleite!

De Brito-Semedo a 07.09.2010 às 15:00

Obrigado, Ernestina, pela apreciação e incentivo! O "Crónicas de Diazá" está a dar lugar ao "Crónicas Em Tempos" que, espero, tenha pernas e fôlego para andar!

De Valdemar Pereira a 19.04.2011 às 20:14

Caro Manuel
Mais uma vez obrigado por me teres indicado este cantinho que desconhecia.
Não dominnando estas técnicas moderna (às vezes pergunto se, no fundo não sou um misoneico...), so agora vim descobrir coisas que me transportaram à nossa Chã do Cemitério que deixei tinhas tu dois aninhos.
Dessa gente que falas, Manel, lembro eu. Foram meus vizihos antes de serem os teus. Nhô Viriss e sua esposa (Nha Xica), seus filhos Chence, Olavo (futebolista e boxeur, que foi meu compadre), o Casimiro  e a Juninha; Nhô Afonse Ferreia (o da camionete), o teu tio Lela Miranda de quem falo no meu livro e que foi um Amigo. Deixei para o fim a Xanda (que acabo de saber que jà não é deste mundo). Rapaz, ela era bonitinha pa afronta, mais bonitinha que a sua prima (também) Xanda. Mocim, quando fui para essa aldeia so tinha doze anos e nessa idade éramos todos "mnine tchequer fogom"; era so espiada, gatchada. Casamintim... nem flaça !!! Mas ali estavam duas primas que eram regalos de belzas vicentinas.
Mas nunca esqueci ninguém nem essa aldeia que era e que agora não é por estar incorporada no nosso inesquecivel Mindelo.
Obrigado por este momento de lembranças.
Um braça rije moda aquês qu' nô ta dà quonde no ta voltà pa nôs terra.

De Ariana Rodrigues a 08.08.2011 às 00:56

Caro Lalela ", ainda guardo a recordação de infância do "Pastor", do aluno de dactilografia da minha mãe, Fernanda, e do seu sorriso/bom humor contagiante. Gostaria de manifestar o apreço pelo trabalho que tem desenvolvido e pela partilha de conhecimento, bem como a oportunidade de divulgar "estórias" de outrora e de engrandecimento de factos que  marcaram a nossa ilha, o nosso país e a nossa cultura.
Um abraço.

Ariana Rodrigues

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