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- Teolinda Gersão, Escritora, Portugal

 

Muitas vezes gosto de reler, em vez de procurar livros novos. Releio por ex. aqui e ali poemas de O´Neill (das suas Poesias Completas, 1951-86).Faz bem à alma a sua liberdade criadora, a ironia, o olhar crítico, as suas piruetas mentais, surreais ou não mas deliciosamente irreverentes, o seguro instinto poético que nunca o abandona. Gosto de deambular pelas ruas com os seus versos na ideia, debaixo deste céu onde a “sua” Gaivota voa e o fado que ele escreveu para Amália continua vivo, noutras vozes.

 

E gosto de biografias. Talvez por o mundo ser tão impessoal e vazio dá-nos prazer tentar encontrar os autores, por detrás dos livros que amamos?

 

Claro que as biografias, por mais rigorosas que sejam, são sempre “aproximações”, mas essas “aproximações” podem ser deslumbrantes.

 

É o que acontece com a magnífica biografia de Clarice Lispector, Uma Vida, de Benjamin Moser (tradução portuguesa 2009), que veio revelar ao mundo a grande Clarice – até agora insuficientemente divulgada porque tão pouco, e por vezes tão desastradamente, traduzida. Mas depois do livro de Moser toda a sua obra está a ser vertida para inglês por uma equipa credenciada e a chegar a um número muito grande de leitores. Motivo de orgulho e regozijo para todos os países lusófonos, porque foi em português que ela escreveu.

 

(E já que falei em O´Neill, quem se interessar pelo poeta em pessoa também tem à disposição a excelente biografia que Maria Antónia Oliveira publicou em 2007.)

 

Um livro polémico e, tanto quanto sei, sem tradução portuguesa, é de Niall Ferguson, e chama-se Empire, (Império – como a Inglaterra fez o mundo moderno), que nos dá um panorama aterrador do que foi o colonialismo inglês (em que vejo, por extensão, todos os outros, também os actuais, que revestem formas não menos brutais, embora muito mais sofisticadas e modernas).

 

Na introdução, muito irritante, e na conclusão, não menos irritante, o autor dá ao tipo leitor com que me identifico todos os motivos para rejeitar o livro. Simplificando um pouco, poderei dizer que Ferguson considera que a Inglaterra não foi suficientemente colonialista, e que foi por ter falhado a sua tentativa de globalização que surgiram depois uma série de problemas para o mundo. O que obviamente considero inaceitável.

 

No entanto tenho de reconhecer que no resto do livro Ferguson fornece um retrato muito bem documentado e acredito que relativamente objectivo do que foi o colonialismo inglês. Professor em Oxford e depois Harvard, a sua honestidade intelectual e científica e o seu domínio do ofício de historiador parecem-me evidentes. Não tenta distorcer os factos, para caberem na sua teoria. E na verdade não cabem: o retrato que nos dá do grande império, onde nunca o sol se punha, é terrível. É essa contradição que me interessa no livro, enquanto sua leitora dissidente. O colonialismo vai mudando de mãos, de nome e de rosto, mas é o padrão que temos, até hoje. Todos os dias o sentimos na pele. Mas esta relação de explorador-explorado não serve, é preciso encontrar outro modo de encarar o mundo.

 

É por isso que o livro me sobressalta e me faz levantar da cadeira onde me sentei a ler. Um livro que me provoca assim é um feliz achado.

 

E passo para A tia Júlia e o escrevedor, do Llosa, leitura prazerosa depois da enorme discussão que travei com Ferguson. Apetece-me gozar a despreocupada vida de Varguitas, o seu erotismo bem humorado com a tia, não viúva alegre mas divorciada alegre, que o leva a desfrutar as delícias da vida adulta que o rapaz ainda mal conhece, a bela tia trintona que se finge descaradamente adolescente, as aventuras picarescas que o amor tece, quase tão loucas como as novelas rocambolescas do inesquecível escrevedor, em que este acaba por perder a noção da realidade. Claro que os amores com a tia acabam mal, sem nunca serem tristes, porque a tia se recompõe e Varguitas logo os substitui por amores felizes com a prima. Llosa não põe de lado os problemas do mundo, que também lhe interessam, e ousa o que só os grandes escritores conseguem: retomar, noutro registo, o folhetinesco e o picaresco, dar-nos a vida vivida, social e familiar, das personagens e de um país, as peripécias da escrita, a do escrevedor e a do escritor, em estado quase puro. E divertir-nos imensamente, ao fazer isso.

 

 

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