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Fidje-Mótche, Filho-Macho

Brito-Semedo, 21 Nov 11

 

Praça Nova.jpeg

Quiosque da Praça Nova, Mindelo (Arquivo Histórico Nacional, Praia)

 

 

Para os filhos Any e Ely Brito-Semedo, neste dia muito especial e memorável.

 

 

Foi o Toi Cristóvão quem teve a iniciativa, quando estávamos a passear na Praça Nova e lhe dei a notícia. Ele estacou com os olhos arregalados a olhar para mim e disparou:

 

– E deste-lhe um beijo?! Deste?! Não acredito! Conta, conta como foi! Vá, lá!...

 

Zarpámos em direcção à Chã de Cemitério, mais o Carlos Ramos, numa grande ansiedade e algazarra. A Mãi Xanda tinha de saber do acontecido e tínhamos motivo para celebrar!

 

Nesse ano de 1970 tinha feito o exame do 2.º ano como trabalhador estudante (um amigo meu só à terceira é que tinha conseguido passar!), estava a estudar a secção de letras do 5.º ano, continuava empregado na Editora Nazarena, agora a ganhar um pouco mais, e tinha arranjado namorada! Por esta, a Xanda ia pagar!

 

A promessa vinha de trás, desde o dia em que a minha mãe abordara no largo da Editora o grupinho das minhas amigas lá da Igreja, todas menininhas do Liceu e da Escola Técnica – a Rosely, a Lígia, a Quelinha, a Alcinda, a Argentina, a Eileen, a Olinda – pedindo para, imaginem (!), arranjarem namoro com o filho!

 

Quando soube disso, fiquei envergonhadíssimo e danado por a Xanda achar que eu era lofa (sem jeito) e não tinha ciência para, por mim próprio, arranjar uma p’quéna! Por quem é que ela me tomava?! Brrrr! Foi então que ela pediu ao Toi Cristóvão para a avisar logo que soubesse que eu tinha p’quéna, que lhe dava um pagamento por isso, um cosa sáb!

 

Mal sabia a Xanda que o Cristóvão também não tinha namorada. Ele gostava secretamente de uma dessas moças e não tinha coragem para se declarar! E o Carlos Ramos, como era basôfe e muito gargantudo, não sabíamos se devíamos acreditar nele e no facto de que ele tinha namorada, uma antiga colega do liceu, dizia, que estava a viver em São Nicolau!

 

*

 

Nesse fim-de-semana a Xanda tinha comprado um naco de carne para assar no açougue d’ Antonin Carr (Antoninho Carne) e foi isso que ela foi buscar ao parapeito da janela onde o tinha colocado numa travessa de esmalte, a esfriar. A carne assada deveria ser conservada na sua gordura para, às fatias, ir sendo retirada e servida, à medida que fosse sendo preciso. Essa carne não ia ser guardada no ceffre (guarda comida com porta em rede de nylon) porque tinha aparecido lá em casa uma praga de baratinhas.

 

A carne foi trazida e posta em cima da mesa à nossa frente e toda ela foi comida pelos galfões (gaviões), com pon d’ trança d’ Match e chá-da-índia tomado em canecas de esmalte, perante um sorriso beatífico da minha mãe! Era a celebração pelo fidje-mótche, que se tinha feito homem!

 

Do mocho onde estava sentada, ao canto da casa, a Mãi Liza seguia tudo e só dizia que a coisa mais importante era o neto estudar!

 

– Sim, estudar, porque a caneta será a sua enxada para o futuro, para sair dessa cepa torta e dessa vida nhanhida da pobreza! É o que eu digo todos os dias ao Manel, nha fidje!

 

*

 

O pouco dinheiro que me sobrava, depois de ter contribuído para o orçamento da casa, era para as minhas pequenas despesas – à parte o café na esplanada do Hotel Porto Grande, que continuava a ser rigorosamente pago pela Mãi Liza – e tinha que chegar até ao fim do mês. Contudo, na terceira semana começava a chaleirar a Xanda, coração mole, a ver se lhe extorquia algumas moedas.

 

Aos domingos, arranjava-me bnitin e punha-me cheiroso para ir para a igreja e dar umas voltas na Praça Nova. Aproximava-me da Xanda e insinuava-me:

 

Xanda, olha como o teu filho está sport! Pena é ele estar quebróde que nem Djósa d’ Maderal! Desta maneira, nem posso oferecer uns drops ou uns toffees à nha p’quéna!

 

A Mãi Xanda condoía-se de mim e dizia:

 

Bô ê malóndre! Deixa-te de coisa! Toma lá e não voltes a pedir-me mais! Mas, lembra-te que é emprestado!

 

Eu metia o dinheiro no bolsinho do cós das calças, no fuxim, normalmente dois no speak (moedas de 2$50), ou mesmo uma moeda de prata de dez escudos, e saía disparado porta fora com a minha Bíblia na mão!

 

 

Igreja Nazareno.jpeg

Igreja do Nazareno, Mindelo

 _______

 

NOTA: Este post tinha sido publicado a 07.Setembro.2010, para assinalar o 10.º aniversário do casamento destes meus filhos. Volto a ele para assinalar o dia em que este meu mais velho se tornou Pai (e eu Avô, claro!), 20.Novembro.2011!

 

A Mãi Xanda, lá onde ela se encontra, deve estar a festejar com carne assada o nascimento desta neta do seu Fidje-Mótche! Afinal...!

 

Eliezer Emmanuel e Liana Sophia Brito-Semedo, Arkansas, E.U.A., 20.11.11

 

  

- M. Brito-Semedo

 

 

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6 comentários

De Ernestina Santos a 07.09.2010 às 12:32

Parabéns pela crónica e pela recordação da primeira namorada. Outros tempos, outro respeito... E parabéns pelo sucesso de então e de agora. Sei o que é começar a trabalhar cedo enquanto se estuda, pois com 15 aninhos já pagava as minhas despesas todas. Aprende-se muito cedo a dar valor à vida e a ter mais respeito pelo próximo, não é verdade?

Fiquei curiosa pela dedicatória aos teus filhos: "neste dia muito especial e memorável". O que foi que deixei escapar?

De Brito-Semedo a 07.09.2010 às 12:56

Curiosidade satisfeita: O meu filho primogénito, hoje com 35 anos, filho dessa namorada referida, a viver na Terra Longe, comemora hoje dez anos de casamento e quis brindar-lhe com esta crónica "sab" como prenda!

De Eliezer Brito-Semedo a 08.09.2010 às 02:00

Pai,
Obrigado pela dedicatória por meio desta "Crónica do Tempo de Kanikinha"! Ficaremos aguardando uma outra dedicatória daqui a dez anos...no nosso vigéssimo aniversário de casamento.

Já imaginava que alguém iria ficar curioso em relação à dedicatória. Já agora uma pequena correcção, "ainda" tenho 34 anos...rs,rs!
Beijos nossos deste lado do Atlântico,
                                                                     Ely&Any

De Brito-Semedo a 08.09.2010 às 11:59

Fidje Mótche, Já vai ficando tradição teres algo escrito nos momentos importantes da tua vida. Primeiro, foi o acróstico do teu nome, quando nasceste (lembras-te?!), que ainda guardas no teu álbum de fotografias de bebé. Depois foi a dedicatória de um artigo no Número Especial da Revista de Estudos Caboverdianos Cultura - "Ao Eliezer Emmanuel, no ano do seu 25.º Aniversário". Agora, pela comemoração dos dez anos de casado. Fica desde já garantido um outro texto daqui a dez anos! Mas com um porém, quero que, muito antes disso, eu tenha o privilégio de dedicar uma crónica muito especial ao teu primeiro filho ou filha. Até já tenho o título: "Crónica de um Avô Realizado", hihihi! Esta foi uma directa!

De Adriano Miranda Lima a 21.11.2011 às 17:27


Ler esta deliciosa crónica faz-nos regressar à mundividência do Mindelo de "diazá", com a calçada polida da morada e a terra chã dos arrabaldes, e com os costumes singelos e sadios da sua gente de outrora. E que melhor enfeite para o cenário do que relembrar o léxico de palavras e expressões como "ceffre", "fuxim", "quebróde que nem Djosa d'Maderal". Esta última então é de morte e fez-me rir com gosto, recordando a figura castiça do Djósa. Moedas de 2$50 chamarem-se "no speak" é coisa que ou já me passou ou é aquisição posterior a 1963, data da minha saída. É natural a última hipótese, sendo o crioulo do Mindelo estuante de vigor criativo como é. Estão aqui introduzidos os ingredientes certos para um cozinhado literário do mais autêntico, ainda por cima com um tempero que o torna inconfundível e irreproduzível.
Renovo os meus votos de felicidade para a netinha e os filhos e, enfim, para toda a família. E um abraço para o autor-pai-avô, que nos enterneceu o coração com esta pura e sincera recordação familiar.

De Ernestina Santos a 21.11.2011 às 22:04

Caríssimo e babadíssimo avô

Seria um crime deixar escapar esta oportunidade sem te dar os parabéns pela tua primeira neta! Que venha com saúde e seja muito feliz rodeada de tanto mimo que já sei lhe vais dar... mesmo do outro lado do oceano!

É um sentimento que nos completa. Sei-o por experiência própria, pelo que vivencio contigo estes momentos de alegria com muito prazer!

Os parabéns são extensivos ao teu fidje motche e à sua mulher! Tudo de bom para eles e que estejas sempre presente para acompanhar todos os passos da vida da tua netinha Liana.

Aquele abraço!
Tina

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